Salaryman & Sk8ter Boi (crónica)

23:30, estação de Tóquio.

Preparava-me para entrar no autocarro de regresso a Niigata quando presenciei um dos momentos mais bizarros da minha vida no Japão.

Um skater entrou a alta velocidade na estação de Tóquio, e começou a fazer acrobacias no átrio. De repente, de um elevador próximo surgiu um homem de negócios com quem o skater não conseguiu evitar a colisão. O homem perdeu o balanço mas não caiu. Ciente da sua irresponsabilidade, o rapaz desmontou o skate e começou a caminhar atrás do homem de negócios, dizendo-lhe que queria falar para pedir desculpas. Para surpresa minha e de outros utentes da estação, sem nada que o desse a entender, o homem começou a correr a todo o gás para fora da estação, perseguido de perto pelo skater. Quem visse a situação sem contexto julgaria que o homem de negócios era o infractor. O homem continuou a correr em círculos numa espécie de circle pit a solo, demonstrando pouca ou nenhuma noção do seu entorno. Sem outro lugar para onde fugir, o homem regressou para o interior da estação, onde gritou a altos pulmões “deixa-me em paz!”. O skater parecia genuinamente perplexo, mas também algo resignado, uma vez que o homem estava evidentemente embriagado.

Sem grande cerimónia, seguiu cada um seu caminho. A partida fez-se sem qualquer vénia ou gesto de reconciliação. Felizmente para o skater, não é fácil guardar rancor numa metrópole destas dimensões; os vilões que nos saúdam hoje voltam a ser estranhos no dia seguinte.

foto de André Pinto.
23h30, nas imediações da estação de Tóquio.

‘O trilho de fogo’ अग्निपथ – um poema de Harivansh Rai Bachchan [traduzido do Hindi]

Sobre o autor: Harivansh Rai Bachchan (हरिवंश राय बच्चन, 1907-2003) foi um poeta indiano natural do estado de Maharashtra. É considerado um dos nomes maiores da literatura em Hindi, tendo sido distinguido, em 1986, com In 1986, o prémio Padma Bhushan. Deixou um vasto espólio literário, do qual constam obras intemporais, como a antologia ‘Madhushala’ मधुशाला, publicada em 1935.

Bachchan on a 2003 stamp of India
O poeta Harivansh Rai Bachchan num selo de 2003.

Sobre a obra: o poema ‘O trilho de Fogo’ (Agnipath अग्निपथ) terá sido originalmente publicado entre 1973 e 1988. Os seus versos icónicos viriam a dar o título a dois filmes – um em 1990 e outro em 2012. A presente tradução foi efectuada a partir do texto original em Hindi. Para a revisão da mesma, contei com a inestimável ajuda do professor Shiv Kumar Singh (Universidade de Lisboa), a quem deixo, desde já, o meu agradecimento.

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O trilho de fogo

Um poema de Harivansh Rai Bachchan
Tradução do Hindi por André Pinto Teixeira
Revisão por Shiv Kumar Singh

Que se ergam as árvores esplendorosas.
Que sejam densas, enormes deveras;
Mas não peças por um momento de sombra,
Não peças! Não peças: não peças.
Percorre o trilho de fogo. O trilho de fogo: o trilho de fogo!

Não te irás cansar;
não irás parar
nem te virarás  para trás.
Promete-o! Promete-o… promete-o.
Percorre o trilho de fogo! O trilho de fogo… o trilho de fogo.

A vista é sublime:
marcha um homem
em sangue, suor e lágrimas
ensopado, ensopado, ensopado,
percorrendo o trilho de fogo. O trilho de fogo… o trilho de fogo!

अग्निपथ

हरिवंश राय बच्चन

वृक्ष हों भले खड़े,
हों घने, हों बड़े,
एक पत्र छाँह भी
मांग मत! मांग मत! मांग मत!
अग्निपथ! अग्निपथ! अग्निपथ!

तू न थकेगा कभी,
तू न थमेगा कभी,
तू न मुड़ेगा कभी,
कर शपथ! कर शपथ! कर शपथ!
अग्निपथ! अग्निपथ! अग्निपथ!

यह महान दृश्य है,
चल रहा मनुष्य है,
अश्रु, स्वेद, रक्त से
लथ-पथ, लथ-पथ, लथ-पथ,
अग्निपथ! अग्निपथ! अग्निपथ!

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Cartaz do filme “Agneepath” (‘O trilho de fogo), de 1990, realizdo por Mukul S. Anand.

Uma Noite de Niilismo 虚无主义的夜晚 – um poema de Yan Hen [traduzido do Chinês]

Sobre a autora: Nasceu na década de 70, na província de Zhejiang, com o nome Ji Ping (嵇萍). Enquanto poetisa, viria a adoptar diferentes pseudónimos, entre os quais Yan Hen (胭痕), Dai Dai (呆呆) e Lan Nü Wu (蓝女巫, literalmente: ‘bruxa azul’). Escreveu para diversos jornais literários chineses, tendo publicado um vasto número de poemas no seu blog pessoal, abaixo indicado.

蓝女巫胭痕
A poetisa Yan Hen (胭痕)

Blog oficial: http://blog.sina.com.cn/u/125205946
Página no Weibo: @蓝女巫胭痕

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UMA NOITE DE NIILISMO

Um poema de Yan Hen
Traduzido do original Chinês por André Pinto Teixeira

Quando chamado, comparece sempre o templo.
Os seus enormes degraus de pedra, como línguas silenciosas.
Os peregrinos trazem temor em todo o rosto: as pedras que procuro

serão realmente nuvens passageiras, demasiado ligeiras para nelas me apoiar?
Os peregrinos carregam para os pátios o coração,
a chuva incessante desses pátios, os crepúsculos desprezíveis e os nomes de seus pais.

Dizei
consagrados antepassados do templo, o que quereis?
Dizei. Um peito rastejando sôbolo céu estrelado,
contempla uma fina e longa farpa numa lamparina.

虚无主义的夜晚

/ 胭痕

寺庙召之即来。
巨大的石阶,犹如沉默的舌头。
到来者满脸惊惧:我要寻找的石块

难道真是头顶的流云?轻得无一丝依托?
到来者携着内心的庭院
携着庭院里经久不歇的雨,腼腆的黄昏和父母的名字

说吧。
寺庙里供奉的祖先们,你们要什么?
说吧。一个匍匐在星空之上的胸膛,
他看见的是,灯盏里又细又长的倒刺。

Imagem relacionada
Templo Fa Hua 法华寺, na província de Zhejiang.

O actual estado da discriminação Buraku: funcionários da prefeitura de Niigata participam em acção de formação [traduzido do Japonês]

De modo a implementar uma sociedade sem discriminação, no passado dia 20, no Centro Sindical dos Trabalhadores da prefeitura, no distrito central da cidade de Niigata, foi realizada uma acção de formação para educar os funcionários da prefeitura para a discriminação Buraku. O professor Ryūshi Uchida, da Universidade de Kansai, e Taiji Saitō, do Centro de Investigação da Libertação Buraku do Japão Oriental, ambos investigadores da questão Buraku, explicaram que, actualmente, o nível de interesse dos habitantes da prefeitura de Niigata pela questão é reduzido, tendo proposto, também, possíveis caminhos para atingir a erradicação da discriminação.

Acção de formação para funcionários da prefeitura, a respeito do actual estado da discriminação Buraku = 20/Maio, Cidade de Niigata, distrito central.
自治体職員らを対象に行われた部落差別の実態を学ぶ研修会=20日、新潟市中央区
[imagem e legenda constantes do artigo original]

A acção de formação foi organizada pelo Comité Prefeitural para a implementação de políticas de libertação Buraku e direitos humanos (部落解放・人権政策確立要求県実行委員会 Buraku kaihō – jinken seisaku kakuritsu yōkyū ken-jikkō i’inkai), e contou com cerca de trinta participantes.

O professor Uchida apresentou aos formandos os resultados do inquérito sobre percepções do problema Dōwa [NT: nomenclatura oficial para o problema Buraku] realizado pela prefeitura em 2018. Pouco mais de metade dos habitantes da prefeitura responderam que conheciam a existência do problema. Para além disso, indicou também que, comparando com inquéritos semelhantes realizados noutras prefeituras, foram menos os habitantes de Niigata que concordaram com uma solução do problema que envolva um “esforço concertado de toda a sociedade”. Uchida afirma que “para erradicar a discriminação, é preciso que todos compreendam correctamente qual a situação actual e que partilhem uma consciência comum de que é vital solucionar este problema”, postulando, nesse sentido, a plena implementação de acções de consciencialização e educação para o problema Buraku.

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O professor Ryūshi Uchida 内田 龍史, docente da Faculdade de Sociologia da Universidade de Kansai.

Questionado pelos participantes sobre que uso deveriam dar aos dados dos inquéritos, o professor Uchida respondeu que “não chega publicar os resultados no website da prefeitura; é fundamental que criem panfletos, realizem palestras e divulguem activamente o problema”.

21 de Maio de 2019, 15:37

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Publicado originalmente na secção de Sociedade do jornal Niigata Nippō, com o título Buraku sabetsu no jittai: jichitai shokuinra manabu: Niigata de kenshūkai『部落差別の実態 自治体職員ら学ぶ 新潟で研修会』

Traduzido do artigo original japonês por André Pinto Teixeira

Link original: https://www.niigata-nippo.co.jp/news/national/20190521470437.html

O Niigata Nippō é um jornal diário fundado em 1877. Tem uma tiragem diária de mais de 420,000 exemplares.

Niigata-Nippo Media ship-2013.JPG
Sede do Niigata Nippō 新潟日報, perto da icónica ponte Bandai, na cidade de Niigata.

‘Crepúsculo no Yunnan’ – um poema de Na Ye 娜夜‏ (traduzido do Chinês)

Sobre a autora: Na Ye 娜夜 é uma poetisa de etnia Manchu nascida na década de 1960 na província de Liaoning. Formou-se na universidade de Nanjing. Publicou a sua primeira obra, Huiwei Aiqing 回味爱情 em 1991. Em 2005, a sua antologia de poemas 《娜夜诗选》foi agraciada com o terceiro prémio literario Lu Xun.

Crepúsculo no Yunnan

um poema de Na Ye
tradução do Chinês por André Pinto Teixeira

no crepúsculo do Yunnan
não falámos sobre poesia.
mesmo de noite não mencionámos as ditas dificuldades da vida.
éramos duas mulheres
nenhumas de nós mãe
conversando sobre céus estrelados e kant
madre teresa e cardiologia
debatendo sobre ateus que na velhice viravam crentes
e como a beleza de certas coisas jaz nas sombras.
tínhamos outro ponto de vista: éramos intactas porque não tínhamos filhos.

云南的黄昏

娜夜‏

云南的黄昏

我们并没谈起诗歌

夜晚也没交换所谓的苦难

两个女人

都不是母亲

我们谈论星空和康德

特蕾莎修女和心脏内科

谈论无神论者迷信的晚年

一些事物的美在于它的阴影

另一个角度:没有孩子使我们得以完整

Huiwei Aiqing (1991), a primeira obra publicada por Na Ye.

[JAPÃO] ‘Maus-tratos infantis: rumo a uma sociedade que não tolera o castigo corporal’ – Editorial do Shinano Mainichi, 13 de Maio 2019

Maus-tratos infantis: rumo a uma sociedade que não tolera o castigo corporal

Como proteger as vidas das crianças da violência dos próprios pais? Face aos sucessivos casos de morte por maus-tratos, foram apresentadas, para deliberação da Câmara dos Representantes, as leis de prevenção de maus-tratos infantis e previdência social da criança.

Nelas, está claramente inscrito que não é permitido punir corporalmente as crianças para lhes incutir disciplina.

As punições corporais causam danos físicos e psicológicos à criança. Por vezes, conduzem a maus-tratos graves que põem em risco a sua própria vida. O aluno do quarto ano de Chiba, que morreu em Janeiro deste ano, e a menina de cincos anos de Tóquio, que faleceu em Março do ano passado, foram submetidos a violência pelos próprios pais sob pretexto de disciplina.  

Não obstante, na sociedade permanece enraizada a tolerância da punição corporal, segundo a ideia de que “por vezes, é necessário”. Desejo, por isso, que estas revisões legislativas solidifiquem o compromisso da sociedade para com um modelo de educação infantil que não se baseie na violência.

A lei que criminaliza as punições corporais não chega para erradicar estas práticas. Em muitos casos, por detrás da violência estão causas complexas, como a pobreza ou questões de saúde mental dos pais. Estudos sugerem que um grande número de pais que maltratam os filhos foram eles mesmos vítimas de maus-tratos durante a infância.

Denunciar as punições corporais, por si só, apenas encurrala ainda mais estes pais que enfrentam dificuldades. Nesse sentido, é vital que se criem espaços que apoiem, aconselhem e ensinem os pais a educar as crianças sem dependerem da violência.

A contraproposta submetida, em conjunto, por seis partidos da oposição prevê a implementação de um programa de prevenção da violência direcionado aos tutores das crianças. Este programa pretende que a presente revisão legislativa reflita uma discussão aprofundada sobre o problema, não limitada somente à resposta aos maus-tratos, mas abrangendo, também, a prestação de apoio aos pais.

Quando se discute a proibição das punições corporais, é inevitável considerar a contradição estipulada pelo Código Civil, que garante o “direito ao castigo”. Esta é uma provisão do período Meiji, que assegura aos pais o direito a castigar os filhos. É possível que seja utilizada para justificar a violência. Por isso, não se pode adiar mais a sua abolição.

O reforço de serviços de acompanhamento infantil proposto na revisão do governo destaca-se por ser pouco ambiciosa. Por um lado, divide os trabalhadores responsáveis entre quem intervém para afastar as crianças dos pais e quem presta apoio aos progenitores. Por outro lado, protelou a obrigatoriedade da implementação de serviços de acompanhamento infantil e nomeação de advogados em cidades centrais e zonas especiais.

O aumento de casos de maus-tratos tem provocado um enorme esgotamento no campo de intervenção. Para que seja possível lidar cuidadosamente com cada caso, são necessárias rectificações drásticas ao actual modelo de acompanhamento infantil. Nesse âmbito, a distribuição de papeis pelas municipalidades é de particular importância.

Além disso, como fortaleceremos a intervenção aos níveis da sociedade e das regiões? O papel que as agências governamentais podem desempenhar tem limites. Não podemos ser uma sociedade que ignora os pedidos de “socorro” de crianças que sofrem e de pais em isolamento. Por isso, desejo que esta discussão se expanda a lugares de maior proximidade e que conduza à acção.

 (13 de Maio de 2019)

Traduzido do Japonês por André Pinto Teixeira.
Link: https://www.shinmai.co.jp/news/nagano/20190513/KT190510ETI090016000.php

Sobre o jornal: O Shinano Mainichi (信濃毎日新聞) é um jornal da prefeitura de Nagano, fundado em 1873. Adoptou o nome actual em 1881 (Ano 14 da Era Meiji).

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子どもの虐待 体罰を容認しない社会に(社説)

 幼い子どもの命を親の暴力からどうやって守るか―。虐待死が相次いだことを踏まえた児童虐待防止法と児童福祉法の改正案が衆院で審議入りした。

 しつけを理由に、子どもに体罰を加えてはならないことを明記した。罰則は設けていない。

 体罰は子どもの心身を傷つけ、時として命にかかわる深刻な虐待につながる。1月に死亡した千葉の小学4年生も、昨年3月に亡くなった東京の5歳の女の子も、しつけの名目で親から暴力を振るわれていた。

 一方で、「時には必要」などと体罰を容認する意識は社会に根強く残る。法改正を、暴力に頼らない子育てを社会の合意として根づかせていく一歩にしたい。

 法で禁止したからといって体罰がなくなるわけではない。暴力の背景には、生活の困窮や親の精神疾患といった要因が複雑に絡むことが多い。虐待する親の多くが、子どもの頃に虐待を受けて育ったことを示す調査結果もある。

 体罰は駄目だと厳しい目を向けるだけでは、困難を抱える親をさらに追いつめかねない。どうすれば暴力に頼らずに子育てができるか。相談し、学べる場を設け、親を支えることが重要になる。

 野党6党派が共同提出した対案は、保護者への再発防止プログラムの実施を盛り込んだ。虐待が起きてからの対応にとどまらず、親への支援について議論を深め、改正法に反映させてほしい。

 体罰の禁止にかかわって見落とせないのは、民法に「懲戒権」を残したことの矛盾だ。親は子を懲らしめられるとする明治以来の規定である。暴力の正当化に持ち出される余地がある。廃止を先送りすべきでない。

 政府が改正案で打ち出した児童相談所の拡充強化は、踏み込み不足の面が目立つ。親から子どもを引き離す「介入」にあたる職員と親への支援を担う職員を分けるとした一方、中核市と特別区への児相設置の義務づけや、弁護士の配置の義務化は見送った。

 増え続ける虐待への対応に追われ、現場の疲弊は深い。個々の事例に丁寧にかかわれるようにするには、児相のあり方の抜本的な見直しが欠かせない。市町村との役割分担はとりわけ重要だろう。

 合わせて、社会、地域での取り組みをどう強めていくか。行政機関が担える役目には限界がある。苦しむ子どもや孤立した親の「助けて」の声を聞き逃す社会であってはならない。身近な場に議論を広げ、行動につなげたい。 

(信濃毎日新聞, 5月13日)

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Publicidade institucional sobre maus-tratos infantis (publicado pela prefeituria de Chiba)
The Shinano Mainichi Shimbun Nagano Honsha.jpg
Sede do Shinano Mainichi, em Nagano.

‘Festival dos Espíritos’ 中元節 – um poema de Fangge Dupan杜潘芳格 [trad. Chinês Hakka]

Nenhuma antologia de poesia de Taiwan estaria completa sem uma menção a Fangge Dupan 杜潘芳格.

Sobre a autora: Fangge Dupan杜潘芳格 (1927-2016) foi uma poetisa Taiwanesa natural de Xinpu, Hsinchu. Inicialmente, escrevia em língua japonesa, mas mudou para Mandarim, nos anos 60, por razões políticas. Mais tarde, virá a dedicar-se à escrita na sua língua materna, Hakka. Faleceu em casa em 2016, com 89 anos de idade.

Fangge Dupan杜潘芳格 (1927-2016)

Sobre a tradução: esta é uma tradução directa Chinês Hakka-Português, baseada no texto original. O poema contém diversos vocábulos e caracteres usados em língua Hakka (ex: 𠊎 ngài para o pronome pessoal ‘eu’, em vez de 我 ), o que constituiu um desafio adicional. A pontuação adoptada respeita a pontuação empregue na obra original. No decurso da tradução, não foi feito recurso a quaisquer outras traduções como referência, pelo que qualquer erro constante da mesma é da minha exclusiva responsabilidade. Caso algum falante-nativo de Hakka encontre esta tradução, agradeço, desde já, eventuais sugestões e/ou correcções!

Contexto cultural: tal como indicado pelo título, o poema ‘Festival dos Espíritos’ (中元節 zhōng yuán jié) tem como pano de fundo a festividade anual dedicada aos antepassados. Durante a festividade, é comum realizar oferendas, acender incenso e queimar “dinheiro para os mortos” (冥幣 míngbì). Em Taiwan, uma das maiores oferendas é o “porco sagrado” 神豬, uma prática controversa que consiste em sobre-alimentar um porco de modo a engordá-lo para o sacrifício. Esta prática tradicional é hoje alvo de acesas críticas por parte dos defensores dos direitos dos animais, que denunciam a prática como constituindo um caso de crueldade (Artigo da BBC: https://www.bbc.com/news/world-asia-38851189 ⚠ Conteúdo GRÁFICO ⚠)

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‘FESTIVAL DOS ESPÍRITOS’

um poema de Fangge Dupan杜潘芳格
tradução do Chinês Hakka por André Pinto Teixeira

Tu,
adoras perder-te em multidões confusas
buscando “o olvido de quem tu mesmo és.”

Eu, no interior de uma multidão
sei com crescente clareza que
sou solitária em meu coração.

Para o festival dos espíritos, sacrifico um porco colossal
com a bocarra aberta segurando sua “disposição” .

Seja qual for a estação
Quem à boca lhe deu a “disposição”
se não eu mesma, tu então.

中元節 ◎杜潘芳格

你,
歡喜在个紛雜人群知背
追求「唔記得你自家係𠍨儕。」

𠊎,在人群知背
越來就越淸楚
𠊎係孤獨心蕉人。
貢獻畀中元節祭典个大豬公
打開大大个嘴,含一隻「甘願」。

不論脈个時節
畀佢含「甘願」个
就係𠊎,沒就係你。

Fonte: http://cendalirit.blogspot.com/2016/05/20160525.html, extraído da obra Qing Feng Lan Bo青鳳蘭波 (1993).


BÓNUS: Tradução de vocabulário Hakka para Mandarim:
个 → 的
唔(igual a cantonês) →不
係(igual a cantonês) → 是
𠍨儕 → 誰
𠊎 → 我
知背→ 裡面
畀 (igual a cantonês) → 被、給
脈个 → 什麼
佢 (igual a cantonês) → 他

Agradecimentos: Zilvia Hsu, Chiu Hsiang Ya e Francisca Wen, por partilharem as suas diversas interpretações do poema.



‘Ó de Outono’ – tradução de um conto de Osamu Dazai

Em Março de 2019, tive a honra de ser agraciado, pelo terceiro ano consecutivo, com uma menção honrosa na modalidade de tradução Japonês-Português no Concurso Literário Yoshio Takemoto, organizado pela Associação Cultural e Literária Nikkei Bungaku do Brasil (Resultados: https://www.kakinet.com/cms/?p=2115). Nesta edição do certame, traduzi A, Aki 『ア、秋』 (Ó de Outono) um pequeno conta da autoria de Osamu Dazai 太宰治, um dos nomes maiores da literatura japonesa da primeira metade do século XX. Esta tradução foi particularmente desafiadora devido ao recurso frequente a aliterações com a vogal «a», constante da palavra «aki» (outono).

Sobre o autor: Osamu Dazai nasceu em 1909, na prefeitura de Aomori. O seu romance mais famoso intitula-se Ningen Shikkaku 『人間失格』(Literalmente: Falhanço Humano), publicado em 2014 pela Cavalo de Ferro sob o título Não-Humano. É considerado um dos autores que mais impulsionou o movimento de ficção auto-biográfica e confessional (私小説 Shishōsetsu). Faleceu em 1948, em Tóquio, com apenas 38 anos de idade.

Imagem relacionada

Osamu Dazai 太宰治 (1909-1948)

OSAMU DAZAI

«Ó DE OUTONO»

tradução de André Pinto Teixeira

Um poeta profissional nunca sabe que pedidos o esperam. Por isso, deve ter sempre a postos os seus materiais poéticos.

    Quando chega um pedido “sobre o Outono”, penso “devo pôr mãos ao trabalho”, e, então, procuro a secção da letra «O», que tem ocasos, oceanos, olhos, outonos e muitos outros apontamentos. Dentre esses, seleciono as partes do Outono e, já recomposto, examino as suas notas.   

    Nelas, estão escritas as palavras libelinha e transparente.

    Essas palavras parecem aludir para as libelinhas que, vindo o Outono, enfraquecem.  Perecendo os seus corpos, voam somente os seus espíritos trémulos. Pelos raios de sol autunais, é possível ver através dos corpos das libelinhas.

    Está escrito que o Outono é um resquício do calor estival. É terra queimada.

    Está também escrito que o Verão é candelabros, e o Outono, lanternas. 

    Está escrito cosmos, crueldade.

    Certo dia, enquanto esperava um prato de zaru-soba[1] num restaurante de soba dos subúrbios, abri uma velha revista ilustrada que estava em cima da mesa. No seu interior, havia uma fotografia do grande terramoto. Num campo queimado, uma mulher envergando uma yukata[2] axadrezada; apenas ela, cansada e agachada. Eu apaixonei-me por essa mulher miserável, apaixonei-me ao ponto de me arder o peito. Cheguei a sentir por ela um desejo aterrador. Mas, ao que parece, a tragédia e a paixão são opostos. Quase nem conseguia respirar, tal era a dor. Quando me cruzo com as plantas cosmos nos campos desolados, sinto a mesma angústia. Tal como as cosmos, as glórias-da-manhã outonais sufocam-me instantaneamente.    

    Está escrito que o Outono chega ao mesmo tempo que o Verão.

    Durante o Verão, o Outono esconde-se furtivamente: ele já chegou, porém as pessoas, ludibriadas pelo calor tórrido, não são capazes de o enxergar. Escutando com cuidado, ouve-se o choro dos insetos que acompanha a vinda do Verão. Olhando atentamente para o jardim, descubro as campainhas-da-China, que florescem mal começa o Verão. As libelinhas são originalmente insetos estivais, e é também no Verão que os caquis dão fruto. 

    O Outono é um demónio astuto. Durante o Verão, apronta todas as suas vestimentas e, acocorado, ri com desdém. Um poeta tão perspicaz quanto eu é capaz de descortiná-lo. Quando oiço a gente que me é próxima dizer, com um ar divertido, para aproveitar o Verão, dar uma ida à praia ou à montanha, considero-o deplorável. O Outono já cá está, veio junto com o Verão, oculto. O Outono é teimoso até à raiz.

     Que tal uma história de terror? Uma massagem? Oi! Está aí alguém?

     Os capins-zebra que convidam. Lá ao fundo haverá, decerto, um cemitério.

     Quando lhes pedimos direções, as mulheres emudecem. Um prado sem vida.

     Ali, estavam escritas várias coisas cujo significado não entendia. Devo ter tirado estas notas por algum motivo. Porém, nem eu compreendia muito bem qual a motivação para o ter feito.

    Do exterior da janela, observo uma feia borboleta de Outono rastejando em redor do solo negro do jardim. Por ser mais robusta que o normal, permanece viva, sem que morra. Está escrito que não possuía nada de remotamente efémero.  

    Sofri muito quando registei estas palavras. Nunca me esquecerei de quando as escrevi. Todavia, sobre isso, nada revelarei por agora.

    Está escrito: um oceano abandonado.

    Alguma vez visitaram uma estância balnear no Outono? Na praia, dão à costa sombrinhas com padrões quebradas, resquícios de divertimento; foram também jogadas fora lanternas com a bandeira do sol nascente, grampos de cabelo, papeis usados, cacos de discos, garrafas de leite vazias… o mar enturvecido, levemente encarnado, atinge-as clamorosamente com as suas ondas.

    O senhor Ogata tem filhos, não é?

    Quando chega o Outono, a pele seca. Que saudades…

    Para andar de avião, o Outono é a melhor estação.

    Não entendo bem o que queriam dizer, mas pareço ter tirado notas de uma conversa sobre o Outono que escutara sub-repticiamente. 

    E também está escrito o seguinte:

    É suposto os artistas serem sempre amigos dos mais fracos.

    Até essas palavras, de modo nenhum relacionadas ao Outono, estavam ali escritas. Ou, talvez, também elas fossem aquilo a que se chama de “pensamentos da estação”.
   Ainda mais:

   Camponeses. Um livro ilustrado. Outono e soldados. Bichos-da-seda autunais. Um incêndio. Fumo. Um templo.

   Estavam ali escritas muitas coisas, desprovidas de ordem.   


[1] Massa de trigo servida fria.

[2] Um quimono casual de Verão.

Original Japonês disponível, em open source, no portal de literatura Aozora:
https://www.aozora.gr.jp/cards/000035/files/236_19996.html

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‘Terra-Natal’, um poema de Tadao Maruoka 丸岡忠雄 [trad. Japonês]

No seguimento do artigo publicado pelo jornal Asahi, no dia 5 de Maio de 2019, decidi traduzir o poema ‘Furusato’ (em PT, “Terra-Natal”), da autoria de Tadao Maruoka e publicado originalmente em 1987. Esta é uma das obras mais emblemáticas escrita por um auto-intitulado Burakumin e, ainda hoje, citada por muitos activistas e artistas associados ao movimento de libertação e empoderamento Buraku.

Conheci este poema durante a leitura da obra de não-ficção A discriminação e os Japoneses (Sabetsu to Nihonjin『差別と日本人』, 2009), da autoria de Shin Sugok, activista e académica nipo-coreana, e Hiromu Nonaka, o mais célebre político Burakumin. No posfácio, Shin evoca as palavras de Maruoka, questionando o que ela e todos nós podemos fazer para que esses versos passem a ser lidos como meras memórias do passado.

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Capa e cinta promocional de A Discriminação e os Japoneses (Edições Kadokawa, 2009)

Sobre a tradução: a presente tradução é da minha exclusiva responsabilidade, recaindo sobre mim qualquer erro constante da mesma. Respeitando o formato original, optei por não incluir pontuação.

Sobre o autor: Tadao Maruoka (丸岡忠雄1929-1985), foi um poeta Burakumin natural de Hikari, na prefeitura de Yamaguchi. A sua antologia de poemas Furusato (“Terra-Natal”) foi publicada postumamente, no ano de 1987.

*

TERRA-NATAL, 1987

Ocultar a terra-natal é algo que

meu pai

aprendera com a perspicácia de uma fera

Tinha um amigo que se enforcou

quando a terra-natal fora exposta

Tinha um amigo cuja noiva lhe fugira

na confidência da terra-natal

Meu filho

quero fazer com que tu

enchas o peito e proclames o nome da tua terra

que ergas os olhos sem qualquer hesitação

e digas “esta é a minha terra”

Que proclames o seu nome

*

Original japonês 日本語原文

“ふるさと”をかくすことを

父は

けもののような鋭さで覚えた

ふるさとをあばかれ

縊死した友がいた

ふるさとを告白し

許婚者に去られた友がいた

吾子よ

お前には

胸張ってふるさとを名のらせたい

瞳をあげ何のためらいもなく

“これが私のふるさとです”

と名のらせたい

市民学習シリーズ: 『ふるさと〈続〉詩集』, 兵庫部落問題研究所(1987/08発売)より

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[trad. Japonês] Zonas Buraku discriminadas expostas na Internet: discriminação profunda numa sociedade que evita discuti-la

Fonte: Jornal ASAHI Online, 05/05/2019, 05:00 (Hora de Tóquio)
Link original: https://www.asahi.com/articles/DA3S14002936.html

Traduzido do Japonês por André Pinto Teixeira.

Uma mulher da região de Tōkai, na casa dos vinte anos, apresentou o seu noivo aos pais no ano passado. Porém, o clima de festa da família transfigurou-se com uma só pesquisa na internet: “A localidade X é uma zona Buraku“.

A morada do noivo correspondia a uma zona Buraku discriminada. Confrontada com a oposição do pai, que temia que a filha experienciasse dificuldades,  a mulher consultou a administração local da área em que residia. O desejo paternal de que a filha não fosse envolvida em discriminação transformou o próprio pai num discriminador, aumentando, assim, o sofrimento da filha.

Há pouco mais de dez anos, começaram a surgir na internet listagens de zonas Buraku discriminadas de todo o país. Na década de 1970, o “Compêndio Geral de Topónimos Buraku” (Buraku Chimei Sōkan 部落地名総鑑), um livro que continha os nomes de Buraku discriminados, começou a ser usado por empresas no momento da contratação, de modo a averiguar as origens dos candidatos. O fenónemo tornou-se num problema social. Em resposta, o Ministério da Justiça do Japão confiscou e destruiu as cópias do livro. No entanto, as informações que a sociedade tanto tentara apagar ressurgiram num novo formato: na internet.

    Uma das pessoas que publica esse tipo de informações, um programador (40) residente na prefeitura de Kanagawa, prestou as seguintes declarações: “Conhecer onde ficam as zonas Buraku discriminadas é a base para discutir a questão Buraku. A publicação destas informações está no âmbito da liberdade de investigação”. Embora acredite que algumas pessoas possam ser discriminadas devido à lista que criou, crê que “serão ínfimas. São muito mais os méritos em favor da sua publicação”, assevera.

No entanto, estas “listas” magoam outras pessoas. Há uma grande diferença entre revelar as próprias origens e vê-las publicadas unilateralmente por terceiros. Por esse motivo, pessoas provenientes de Buraku discriminados têm ido a tribunal para solicitar a eliminação dessas mesmas listas. Os casos prosseguem em tribunal.

A discriminação origina-se dos locais onde residiam as pessoas que pertenciam às classes discriminadas da idade moderna. Na internet, não são expostos apenas topónimos. Em fóruns online, espalham-se vídeos com imagens de alegadas zonas Buraku acompanhadas por música inquietante, bem como informações sem sustentação – por exemplo, que “a criminalidade é mais elevada em zonas Buraku”.  

Kawaguchi Taiji (40), o secretário-chefe do Centro de Consciencialização para os Direitos Humanos da prefeitura de Yamaguchi, é originário de uma zona Buraku discriminada. Enquanto palestrava sobre o problema da discriminação, a sua morada de residência acabou publicada na internet. No inverno de 2017, Kawaguchi recebeu um postal. Para além da palavra Eta (NT: literalmente, impureza infinda 穢多), um termo pejorativo usado contra comunidades discriminadas, estava escrito no postal “Morre”. Reparando no que estava escrito, a filha mais velha, na altura aluna do quinto ano, perguntou ao pai “Papá, vais ficar bem, não vais? Não vais morrer, pois não?”.

だから部落解放運動は面白い 川口泰司さん
Kawaguchi Taiji, secretário-chefe do Centro de Consciencialização para os Direitos Humanos da prefeitura de Yamaguchi e membro orgulhoso da comunidade “Buraku”.

Kawaguchi alerta que “na sociedade, persiste a ideia de que ser associado à categoria Buraku, por mudança para uma zona Buraku ou por via do casamento de familiares com alguém dessa proveniência, é algo indesejável”. O preconceito derivado da falta de compreensão das pessoas está intimamente relacionado às referidas listas, que aprofundam a discriminação.

Os meios de comunicação também são culpados de evitarem a questão Buraku. Nas década de 1970-80, após protestos de grupos anti-discriminação devido ao uso de expressões discriminatórias, os media, ao invés de compreenderem e reportarem corretamente a questão, passaram, tendencialmente, a não lidar com o problema da discriminação.

Para desmistificar esses tabus, em Novembro de 2018, o canal de televisão ABEMA TV exibiu um programa com o título “O que são zonas Buraku?” [部落って何 ?]. Durante o programa, pessoas originárias de Buraku discriminados responderam às questões da apresentadora, a personalidade SHELLY, em formato de talk show. A própria apresentadora mencionou uma experiência que demonstra a dificuldade em abordar o tema. “Certa vez, num dado programa, alguém começou a falar sobre Buraku. Mas disseram-lhe logo que não podia fazê-lo. Nessa altura, pensei mesmo que fosse proibido”.

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Programa “Buraku’tte nani?” (O que são zonas Buraku?) – Abema TV, Novembro 2018

   Durante a transmissão do programa, surgiram vários comentários negativos com afirmações como “Não há discriminação nenhuma”. Todavia, também houve quem escrevesse “Não sabia que havia um problema tão grave nos dias de hoje” ou “Foi muito informativo”. Para o produtor da Abema TV, Shizume Hiromichi (49), esta foi a primeira vez que noticiou o problema de discriminação Buraku. “Creio que há muita gente que, mesmo não tendo quaisquer provas, acaba por propagar uma imagem assustadora ou incomodativa das zonas Buraku, mesmo desconhecendo as circunstâncias que criam a discriminação ou as experiências dos envolvidos”.

Há quem acredite que, ao não se falar sobre o assunto, a discriminação extinguir-se-á, uma abordagem comummente apelidada de “Não acordes uma criança adormecida”. Não obstante, na internet, a discriminação já está acordada, e de formas menos explícitas que outrora. Shizume é da opinião que “Não discutir o problema seria contribuir para a continuidade da discriminação”.