Preparava-me para entrar no autocarro de regresso a Niigata quando presenciei um dos momentos mais bizarros da minha vida no Japão.
Um skater entrou a alta velocidade na estação de Tóquio, e começou a fazer acrobacias no átrio. De repente, de um elevador próximo surgiu um homem de negócios com quem o skater não conseguiu evitar a colisão. O homem perdeu o balanço mas não caiu. Ciente da sua irresponsabilidade, o rapaz desmontou o skate e começou a caminhar atrás do homem de negócios, dizendo-lhe que queria falar para pedir desculpas. Para surpresa minha e de outros utentes da estação, sem nada que o desse a entender, o homem começou a correr a todo o gás para fora da estação, perseguido de perto pelo skater. Quem visse a situação sem contexto julgaria que o homem de negócios era o infractor. O homem continuou a correr em círculos numa espécie de circle pit a solo, demonstrando pouca ou nenhuma noção do seu entorno. Sem outro lugar para onde fugir, o homem regressou para o interior da estação, onde gritou a altos pulmões “deixa-me em paz!”. O skater parecia genuinamente perplexo, mas também algo resignado, uma vez que o homem estava evidentemente embriagado.
Sem grande cerimónia, seguiu cada um seu caminho. A partida fez-se sem qualquer vénia ou gesto de reconciliação. Felizmente para o skater, não é fácil guardar rancor numa metrópole destas dimensões; os vilões que nos saúdam hoje voltam a ser estranhos no dia seguinte.
Sobre o autor: Harivansh Rai Bachchan (हरिवंश राय बच्चन, 1907-2003) foi um poeta indiano natural do estado de Maharashtra. É considerado um dos nomes maiores da literatura em Hindi, tendo sido distinguido, em 1986, com In 1986, o prémio Padma Bhushan. Deixou um vasto espólio literário, do qual constam obras intemporais, como a antologia ‘Madhushala’ मधुशाला, publicada em 1935.
O poeta Harivansh Rai Bachchan num selo de 2003.
Sobre a obra: o poema ‘O trilho de Fogo’ (Agnipath अग्निपथ) terá sido originalmente publicado entre 1973 e 1988. Os seus versos icónicos viriam a dar o título a dois filmes – um em 1990 e outro em 2012. A presente tradução foi efectuada a partir do texto original em Hindi. Para a revisão da mesma, contei com a inestimável ajuda do professor Shiv Kumar Singh (Universidade de Lisboa), a quem deixo, desde já, o meu agradecimento.
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O trilho de fogo
Um poema de Harivansh Rai Bachchan Tradução do Hindi por André Pinto Teixeira Revisão por Shiv Kumar Singh
Que se ergam as árvores esplendorosas. Que sejam densas, enormes deveras; Mas não peças por um momento de sombra, Não peças! Não peças: não peças. Percorre o trilho de fogo. O trilho de fogo: o trilho de fogo!
Não te irás cansar; não irás parar nem te virarás para trás. Promete-o! Promete-o… promete-o. Percorre o trilho de fogo! O trilho de fogo… o trilho de fogo.
A vista é sublime: marcha um homem em sangue, suor e lágrimas ensopado, ensopado, ensopado, percorrendo o trilho de fogo. O trilho de fogo… o trilho de fogo!
अग्निपथ
हरिवंश राय बच्चन
वृक्ष हों भले खड़े, हों घने, हों बड़े, एक पत्र छाँह भी मांग मत! मांग मत! मांग मत! अग्निपथ! अग्निपथ! अग्निपथ!
तू न थकेगा कभी, तू न थमेगा कभी, तू न मुड़ेगा कभी, कर शपथ! कर शपथ! कर शपथ! अग्निपथ! अग्निपथ! अग्निपथ!
यह महान दृश्य है, चल रहा मनुष्य है, अश्रु, स्वेद, रक्त से लथ-पथ, लथ-पथ, लथ-पथ, अग्निपथ! अग्निपथ! अग्निपथ!
Cartaz do filme “Agneepath” (‘O trilho de fogo), de 1990, realizdo por Mukul S. Anand.
Sobre a autora: Nasceu na década de 70, na província de Zhejiang, com o nome Ji Ping (嵇萍). Enquanto poetisa, viria a adoptar diferentes pseudónimos, entre os quais Yan Hen (胭痕), Dai Dai (呆呆) e Lan Nü Wu (蓝女巫, literalmente: ‘bruxa azul’). Escreveu para diversos jornais literários chineses, tendo publicado um vasto número de poemas no seu blog pessoal, abaixo indicado.
Um poema de Yan Hen Traduzido do original Chinês por André Pinto Teixeira
Quando chamado, comparece sempre o templo. Os seus enormes degraus de pedra, como línguas silenciosas. Os peregrinos trazem temor em todo o rosto: as pedras que procuro
serão realmente nuvens passageiras, demasiado ligeiras para nelas me apoiar? Os peregrinos carregam para os pátios o coração, a chuva incessante desses pátios, os crepúsculos desprezíveis e os nomes de seus pais.
Dizei consagrados antepassados do templo, o que quereis? Dizei. Um peito rastejando sôbolo céu estrelado, contempla uma fina e longa farpa numa lamparina.
De modo a implementar uma sociedade sem discriminação, no passado dia 20, no Centro Sindical dos Trabalhadores da prefeitura, no distrito central da cidade de Niigata, foi realizada uma acção de formação para educar os funcionários da prefeitura para a discriminação Buraku. O professor Ryūshi Uchida, da Universidade de Kansai, e Taiji Saitō, do Centro de Investigação da Libertação Buraku do Japão Oriental, ambos investigadores da questão Buraku, explicaram que, actualmente, o nível de interesse dos habitantes da prefeitura de Niigata pela questão é reduzido, tendo proposto, também, possíveis caminhos para atingir a erradicação da discriminação.
Acção de formação para funcionários da prefeitura, a respeito do actual estado da discriminação Buraku = 20/Maio, Cidade de Niigata, distrito central. 自治体職員らを対象に行われた部落差別の実態を学ぶ研修会=20日、新潟市中央区 [imagem e legenda constantes do artigo original]
A acção de formação foi
organizada pelo Comité Prefeitural para a implementação de políticas de libertação
Buraku e direitos humanos (部落解放・人権政策確立要求県実行委員会
Buraku kaihō – jinken seisaku kakuritsu yōkyū ken-jikkō
i’inkai), e contou com cerca de trinta participantes.
O professor Uchida apresentou aos formandos os resultados do inquérito sobre percepções do problema Dōwa [NT: nomenclatura oficial para o problema Buraku] realizado pela prefeitura em 2018. Pouco mais de metade dos habitantes da prefeitura responderam que conheciam a existência do problema. Para além disso, indicou também que, comparando com inquéritos semelhantes realizados noutras prefeituras, foram menos os habitantes de Niigata que concordaram com uma solução do problema que envolva um “esforço concertado de toda a sociedade”. Uchida afirma que “para erradicar a discriminação, é preciso que todos compreendam correctamente qual a situação actual e que partilhem uma consciência comum de que é vital solucionar este problema”, postulando, nesse sentido, a plena implementação de acções de consciencialização e educação para o problema Buraku.
O professor Ryūshi Uchida 内田 龍史, docente da Faculdade de Sociologia da Universidade de Kansai.
Questionado pelos participantes
sobre que uso deveriam dar aos dados dos inquéritos, o professor Uchida
respondeu que “não chega publicar os resultados no website da prefeitura; é
fundamental que criem panfletos, realizem palestras e divulguem activamente o
problema”.
21 de Maio de 2019, 15:37
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Publicado originalmente na secção de Sociedade do jornal Niigata Nippō, com o título Buraku sabetsu no jittai: jichitai shokuinra manabu: Niigata de kenshūkai『部落差別の実態 自治体職員ら学ぶ 新潟で研修会』
Traduzido do artigo original japonês por André Pinto Teixeira
Sobre a autora: Na Ye 娜夜 é uma poetisa de etnia Manchu nascida na década de 1960 na província de Liaoning. Formou-se na universidade de Nanjing. Publicou a sua primeira obra, Huiwei Aiqing 回味爱情 em 1991. Em 2005, a sua antologia de poemas 《娜夜诗选》foi agraciada com o terceiro prémio literario Lu Xun.
Crepúsculo no Yunnan
um poema de Na Ye tradução do Chinês por André Pinto Teixeira
no crepúsculo do Yunnan não falámos sobre poesia. mesmo de noite não mencionámos as ditas dificuldades da vida. éramos duas mulheres nenhumas de nós mãe conversando sobre céus estrelados e kant madre teresa e cardiologia debatendo sobre ateus que na velhice viravam crentes e como a beleza de certas coisas jaz nas sombras. tínhamos outro ponto de vista: éramos intactas porque não tínhamos filhos.
云南的黄昏
娜夜
云南的黄昏
我们并没谈起诗歌
夜晚也没交换所谓的苦难
两个女人
都不是母亲
我们谈论星空和康德
特蕾莎修女和心脏内科
谈论无神论者迷信的晚年
一些事物的美在于它的阴影
另一个角度:没有孩子使我们得以完整
Huiwei Aiqing (1991), a primeira obra publicada por Na Ye.
Maus-tratos
infantis: rumo a uma sociedade que não tolera o castigo corporal
Como proteger as vidas das crianças da violência dos próprios pais? Face aos sucessivos casos de morte por maus-tratos, foram apresentadas, para deliberação da Câmara dos Representantes, as leis de prevenção de maus-tratos infantis e previdência social da criança.
Nelas,
está claramente inscrito que não é permitido punir corporalmente as crianças para
lhes incutir disciplina.
As
punições corporais causam danos físicos e psicológicos à criança. Por vezes,
conduzem a maus-tratos graves que põem em risco a sua própria vida. O aluno do
quarto ano de Chiba, que morreu em Janeiro deste ano, e a menina de cincos anos
de Tóquio, que faleceu em Março do ano passado, foram submetidos a violência
pelos próprios pais sob pretexto de disciplina.
Não
obstante, na sociedade permanece enraizada a tolerância da punição corporal,
segundo a ideia de que “por vezes, é necessário”. Desejo, por isso,
que estas revisões legislativas solidifiquem o compromisso da sociedade para
com um modelo de educação infantil que não se baseie na violência.
A lei
que criminaliza as punições corporais não chega para erradicar estas práticas.
Em muitos casos, por detrás da violência estão causas complexas, como a pobreza
ou questões de saúde mental dos pais. Estudos sugerem que um grande número de
pais que maltratam os filhos foram eles mesmos vítimas de maus-tratos durante a
infância.
Denunciar
as punições corporais, por si só, apenas encurrala ainda mais estes pais que
enfrentam dificuldades. Nesse sentido, é vital que se criem espaços que apoiem,
aconselhem e ensinem os pais a educar as crianças sem dependerem da violência.
A contraproposta
submetida, em conjunto, por seis partidos da oposição prevê a implementação de
um programa de prevenção da violência direcionado aos tutores das crianças. Este
programa pretende que a presente revisão legislativa reflita uma discussão
aprofundada sobre o problema, não limitada somente à resposta aos maus-tratos,
mas abrangendo, também, a prestação de apoio aos pais.
Quando se discute a proibição das punições corporais, é inevitável considerar a contradição estipulada pelo Código Civil, que garante o “direito ao castigo”. Esta é uma provisão do período Meiji, que assegura aos pais o direito a castigar os filhos. É possível que seja utilizada para justificar a violência. Por isso, não se pode adiar mais a sua abolição.
O
reforço de serviços de acompanhamento infantil proposto na revisão do governo destaca-se
por ser pouco ambiciosa. Por um lado, divide os trabalhadores responsáveis
entre quem intervém para afastar as crianças dos pais e quem presta apoio aos
progenitores. Por outro lado, protelou a obrigatoriedade da implementação de
serviços de acompanhamento infantil e nomeação de advogados em cidades centrais
e zonas especiais.
O
aumento de casos de maus-tratos tem provocado um enorme esgotamento no campo de
intervenção. Para que seja possível lidar cuidadosamente com cada caso, são
necessárias rectificações drásticas ao actual modelo de acompanhamento infantil.
Nesse âmbito, a distribuição de papeis pelas municipalidades é de particular
importância.
Além
disso, como fortaleceremos a intervenção aos níveis da sociedade e das regiões?
O papel que as agências governamentais podem desempenhar tem limites. Não
podemos ser uma sociedade que ignora os pedidos de “socorro” de
crianças que sofrem e de pais em isolamento. Por isso, desejo que esta
discussão se expanda a lugares de maior proximidade e que conduza à acção.
Nenhuma antologia de poesia de Taiwan estaria completa sem uma menção a Fangge Dupan 杜潘芳格.
Sobre a autora: Fangge Dupan杜潘芳格 (1927-2016) foi uma poetisa Taiwanesa natural de Xinpu, Hsinchu. Inicialmente, escrevia em língua japonesa, mas mudou para Mandarim, nos anos 60, por razões políticas. Mais tarde, virá a dedicar-se à escrita na sua língua materna, Hakka. Faleceu em casa em 2016, com 89 anos de idade.
Fangge Dupan杜潘芳格 (1927-2016)
Sobre a tradução: esta é uma tradução directa Chinês Hakka-Português, baseada no texto original. O poema contém diversos vocábulos e caracteres usados em língua Hakka (ex: 𠊎 ngài para o pronome pessoal ‘eu’, em vez de 我 wŏ), o que constituiu um desafio adicional. A pontuação adoptada respeita a pontuação empregue na obra original. No decurso da tradução, não foi feito recurso a quaisquer outras traduções como referência, pelo que qualquer erro constante da mesma é da minha exclusiva responsabilidade. Caso algum falante-nativo de Hakka encontre esta tradução, agradeço, desde já, eventuais sugestões e/ou correcções!
Contexto cultural: tal como indicado pelo título, o poema ‘Festival dos Espíritos’ (中元節 zhōng yuán jié) tem como pano de fundo a festividade anual dedicada aos antepassados. Durante a festividade, é comum realizar oferendas, acender incenso e queimar “dinheiro para os mortos” (冥幣 míngbì). Em Taiwan, uma das maiores oferendas é o “porco sagrado” 神豬, uma prática controversa que consiste em sobre-alimentar um porco de modo a engordá-lo para o sacrifício. Esta prática tradicional é hoje alvo de acesas críticas por parte dos defensores dos direitos dos animais, que denunciam a prática como constituindo um caso de crueldade (Artigo da BBC: https://www.bbc.com/news/world-asia-38851189 ⚠ Conteúdo GRÁFICO ⚠)
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‘FESTIVAL DOS ESPÍRITOS’
um poema de Fangge Dupan杜潘芳格 tradução do Chinês Hakka por André Pinto Teixeira
Tu, adoras perder-te em multidões confusas buscando “o olvido de quem tu mesmo és.”
Eu, no interior de uma multidão sei com crescente clareza que sou solitária em meu coração.
Para o festival dos espíritos, sacrifico um porco colossal com a bocarra aberta segurando sua “disposição” .
Seja qual for a estação Quem à boca lhe deu a “disposição” se não eu mesma, tu então.
Em Março de 2019, tive a honra de ser agraciado, pelo terceiro ano consecutivo, com uma menção honrosa na modalidade de tradução Japonês-Português no Concurso Literário Yoshio Takemoto, organizado pela Associação Cultural e Literária Nikkei Bungaku do Brasil (Resultados: https://www.kakinet.com/cms/?p=2115). Nesta edição do certame, traduzi A, Aki 『ア、秋』 (Ó de Outono) um pequeno conta da autoria de Osamu Dazai 太宰治, um dos nomes maiores da literatura japonesa da primeira metade do século XX. Esta tradução foi particularmente desafiadora devido ao recurso frequente a aliterações com a vogal «a», constante da palavra «aki» (outono).
Sobre o autor: Osamu Dazai nasceu em 1909, na prefeitura de Aomori. O seu romance mais famoso intitula-se Ningen Shikkaku 『人間失格』(Literalmente: Falhanço Humano), publicado em 2014 pela Cavalo de Ferro sob o título Não-Humano. É considerado um dos autores que mais impulsionou o movimento de ficção auto-biográfica e confessional (私小説 Shishōsetsu). Faleceu em 1948, em Tóquio, com apenas 38 anos de idade.
Osamu Dazai 太宰治 (1909-1948)
OSAMU DAZAI
«Ó DE OUTONO»
tradução de André Pinto Teixeira
Um poeta
profissional nunca sabe que pedidos o esperam. Por isso, deve ter sempre a
postos os seus materiais poéticos.
Quando chega um pedido “sobre o
Outono”, penso “devo pôr mãos ao trabalho”, e, então, procuro a
secção da letra «O», que tem ocasos, oceanos, olhos, outonos e muitos outros
apontamentos. Dentre esses, seleciono as partes do Outono e, já recomposto,
examino as suas notas.
Nelas, estão escritas as palavras libelinha
e transparente.
Essas palavras parecem aludir para as
libelinhas que, vindo o Outono, enfraquecem. Perecendo os seus corpos, voam somente os seus
espíritos trémulos. Pelos raios de sol autunais, é possível ver através dos
corpos das libelinhas.
Está escrito que o Outono é um resquício do
calor estival. É terra queimada.
Está também escrito que o Verão é
candelabros, e o Outono, lanternas.
Está
escrito cosmos, crueldade.
Certo dia, enquanto esperava um prato de zaru-soba[1]
num restaurante de soba dos subúrbios, abri uma velha revista ilustrada que
estava em cima da mesa. No seu interior, havia uma fotografia do grande
terramoto. Num campo queimado, uma mulher envergando uma yukata[2]
axadrezada; apenas ela, cansada e agachada. Eu apaixonei-me por essa mulher
miserável, apaixonei-me ao ponto de me arder o peito. Cheguei a sentir por ela
um desejo aterrador. Mas, ao que parece, a tragédia e a paixão são opostos.
Quase nem conseguia respirar, tal era a dor. Quando me cruzo com as plantas
cosmos nos campos desolados, sinto a mesma angústia. Tal como as cosmos, as
glórias-da-manhã outonais sufocam-me instantaneamente.
Está escrito que o Outono chega ao mesmo
tempo que o Verão.
Durante o Verão, o Outono esconde-se
furtivamente: ele já chegou, porém as pessoas, ludibriadas pelo calor tórrido,
não são capazes de o enxergar. Escutando com cuidado, ouve-se o choro dos
insetos que acompanha a vinda do Verão. Olhando atentamente para o jardim, descubro
as campainhas-da-China, que florescem mal começa o Verão. As libelinhas são
originalmente insetos estivais, e é também no Verão que os caquis dão
fruto.
O Outono é um demónio astuto. Durante o
Verão, apronta todas as suas vestimentas e, acocorado, ri com desdém. Um poeta
tão perspicaz quanto eu é capaz de descortiná-lo. Quando oiço a gente que me é
próxima dizer, com um ar divertido, para aproveitar o Verão, dar uma ida à
praia ou à montanha, considero-o deplorável. O Outono já cá está, veio junto
com o Verão, oculto. O Outono é teimoso até à raiz.
Que
tal uma história de terror? Uma massagem? Oi! Está aí alguém?
Os capins-zebra que convidam. Lá ao fundo haverá,
decerto, um cemitério.
Quando lhes pedimos direções, as mulheres
emudecem. Um prado sem vida.
Ali, estavam escritas várias coisas cujo
significado não entendia. Devo ter tirado estas notas por algum motivo. Porém,
nem eu compreendia muito bem qual a motivação para o ter feito.
Do exterior da janela, observo uma feia
borboleta de Outono rastejando em redor do solo negro do jardim. Por ser mais robusta
que o normal, permanece viva, sem que morra. Está escrito que não possuía nada
de remotamente efémero.
Sofri muito quando registei estas palavras.
Nunca me esquecerei de quando as escrevi. Todavia, sobre isso, nada revelarei
por agora.
Está escrito: um oceano abandonado.
Alguma vez visitaram uma estância balnear
no Outono? Na praia, dão à costa sombrinhas com padrões quebradas, resquícios
de divertimento; foram também jogadas fora lanternas com a bandeira do sol
nascente, grampos de cabelo, papeis usados, cacos de discos, garrafas de leite
vazias… o mar enturvecido, levemente encarnado, atinge-as clamorosamente com
as suas ondas.
O senhor Ogata tem filhos, não é?
Quando chega o Outono, a pele
seca. Que saudades…
Para andar de avião, o Outono é a
melhor estação.
Não entendo bem o que queriam
dizer, mas pareço ter tirado notas de uma conversa sobre o Outono que escutara
sub-repticiamente.
E também está escrito o seguinte:
É suposto os artistas serem
sempre amigos dos mais fracos.
Até essas palavras, de modo
nenhum relacionadas ao Outono, estavam ali escritas. Ou, talvez, também elas
fossem aquilo a que se chama de “pensamentos da estação”.
Ainda mais:
Camponeses. Um livro ilustrado. Outono e soldados. Bichos-da-seda
autunais. Um incêndio. Fumo. Um templo.
Estavam ali escritas muitas coisas, desprovidas de ordem.
No seguimento do artigo publicado pelo jornal Asahi, no dia 5 de Maio de 2019, decidi traduzir o poema ‘Furusato’ (em PT, “Terra-Natal”), da autoria de Tadao Maruoka e publicado originalmente em 1987. Esta é uma das obras mais emblemáticas escrita por um auto-intitulado Burakumin e, ainda hoje, citada por muitos activistas e artistas associados ao movimento de libertação e empoderamento Buraku.
Conheci este poema durante a leitura da obra de não-ficção A discriminação e os Japoneses (Sabetsu to Nihonjin『差別と日本人』, 2009), da autoria de Shin Sugok, activista e académica nipo-coreana, e Hiromu Nonaka, o mais célebre político Burakumin. No posfácio, Shin evoca as palavras de Maruoka, questionando o que ela e todos nós podemos fazer para que esses versos passem a ser lidos como meras memórias do passado.
Capa e cinta promocional de A Discriminação e os Japoneses (Edições Kadokawa, 2009)
Sobre a tradução: a presente tradução é da minha exclusiva responsabilidade, recaindo sobre mim qualquer erro constante da mesma. Respeitando o formato original, optei por não incluir pontuação.
Sobre o autor: Tadao Maruoka (丸岡忠雄1929-1985), foi um poeta Burakumin natural de Hikari, na prefeitura de Yamaguchi. A sua antologia de poemas Furusato (“Terra-Natal”) foi publicada postumamente, no ano de 1987.
Uma mulher da região de Tōkai, na casa dos vinte anos, apresentou o seu noivo aos pais no ano passado. Porém, o clima de festa da família transfigurou-se com uma só pesquisa na internet: “A localidade X é uma zona Buraku“.
A morada do noivo
correspondia a uma zona Buraku discriminada. Confrontada com a oposição do pai,
que temia que a filha experienciasse dificuldades, a mulher consultou a administração local da
área em que residia. O desejo paternal de que a filha não fosse envolvida em
discriminação transformou o próprio pai num discriminador, aumentando, assim, o
sofrimento da filha.
Há pouco mais de dez anos, começaram a surgir na internet listagens de zonas Buraku discriminadas de todo o país. Na década de 1970, o “Compêndio Geral de Topónimos Buraku” (Buraku Chimei Sōkan 部落地名総鑑), um livro que continha os nomes de Buraku discriminados, começou a ser usado por empresas no momento da contratação, de modo a averiguar as origens dos candidatos. O fenónemo tornou-se num problema social. Em resposta, o Ministério da Justiça do Japão confiscou e destruiu as cópias do livro. No entanto, as informações que a sociedade tanto tentara apagar ressurgiram num novo formato: na internet.
Uma das pessoas que publica esse tipo de informações, um programador (40) residente na prefeitura de Kanagawa, prestou as seguintes declarações: “Conhecer onde ficam as zonas Buraku discriminadas é a base para discutir a questão Buraku. A publicação destas informações está no âmbito da liberdade de investigação”. Embora acredite que algumas pessoas possam ser discriminadas devido à lista que criou, crê que “serão ínfimas. São muito mais os méritos em favor da sua publicação”, assevera.
No entanto, estas “listas” magoam outras pessoas. Há uma grande diferença entre revelar as próprias origens e vê-las publicadas unilateralmente por terceiros. Por esse motivo, pessoas provenientes de Buraku discriminados têm ido a tribunal para solicitar a eliminação dessas mesmas listas. Os casos prosseguem em tribunal.
A discriminação origina-se dos locais onde residiam as pessoas que pertenciam às classes discriminadas da idade moderna. Na internet, não são expostos apenas topónimos. Em fóruns online, espalham-se vídeos com imagens de alegadas zonas Buraku acompanhadas por música inquietante, bem como informações sem sustentação – por exemplo, que “a criminalidade é mais elevada em zonas Buraku”.
Kawaguchi Taiji (40), o secretário-chefe do Centro de Consciencialização para os Direitos Humanos da prefeitura de Yamaguchi, é originário de uma zona Buraku discriminada. Enquanto palestrava sobre o problema da discriminação, a sua morada de residência acabou publicada na internet. No inverno de 2017, Kawaguchi recebeu um postal. Para além da palavra Eta (NT: literalmente, impureza infinda 穢多), um termo pejorativo usado contra comunidades discriminadas, estava escrito no postal “Morre”. Reparando no que estava escrito, a filha mais velha, na altura aluna do quinto ano, perguntou ao pai “Papá, vais ficar bem, não vais? Não vais morrer, pois não?”.
Kawaguchi Taiji, secretário-chefe do Centro de Consciencialização para os Direitos Humanos da prefeitura de Yamaguchi e membro orgulhoso da comunidade “Buraku”.
Kawaguchi alerta que
“na sociedade, persiste a ideia de que ser associado à categoria Buraku,
por mudança para uma zona Buraku ou por via do casamento de familiares com
alguém dessa proveniência, é algo indesejável”. O preconceito derivado da
falta de compreensão das pessoas está intimamente relacionado às referidas
listas, que aprofundam a discriminação.
Os meios de comunicação também são culpados de evitarem a questão Buraku. Nas década de 1970-80, após protestos de grupos anti-discriminação devido ao uso de expressões discriminatórias, os media, ao invés de compreenderem e reportarem corretamente a questão, passaram, tendencialmente, a não lidar com o problema da discriminação.
Para desmistificar esses tabus, em Novembro de 2018, o canal de televisão ABEMA TV exibiu um programa com o título “O que são zonas Buraku?” [部落って何 ?]. Durante o programa, pessoas originárias de Buraku discriminados responderam às questões da apresentadora, a personalidade SHELLY, em formato de talk show. A própria apresentadora mencionou uma experiência que demonstra a dificuldade em abordar o tema. “Certa vez, num dado programa, alguém começou a falar sobre Buraku. Mas disseram-lhe logo que não podia fazê-lo. Nessa altura, pensei mesmo que fosse proibido”.
Programa “Buraku’tte nani?” (O que são zonas Buraku?) – Abema TV, Novembro 2018
Durante a transmissão do programa, surgiram vários comentários negativos com afirmações como “Não há discriminação nenhuma”. Todavia, também houve quem escrevesse “Não sabia que havia um problema tão grave nos dias de hoje” ou “Foi muito informativo”. Para o produtor da Abema TV, Shizume Hiromichi (49), esta foi a primeira vez que noticiou o problema de discriminação Buraku. “Creio que há muita gente que, mesmo não tendo quaisquer provas, acaba por propagar uma imagem assustadora ou incomodativa das zonas Buraku, mesmo desconhecendo as circunstâncias que criam a discriminação ou as experiências dos envolvidos”.
Há quem acredite que, ao não se falar sobre o assunto, a discriminação extinguir-se-á, uma abordagem comummente apelidada de “Não acordes uma criança adormecida”. Não obstante, na internet, a discriminação já está acordada, e de formas menos explícitas que outrora. Shizume é da opinião que “Não discutir o problema seria contribuir para a continuidade da discriminação”.