Expo 2025: uma oportunidade de ouro para Portugal

A 13 de abril, Ōsaka inaugura a Expo 2025, sob o mote: “Designing Future Society for Our Lives” (いのち輝く未来社会のデザイン). Para Portugal, esta é uma oportunidade única para reatar a relação com um velho amigo: o Japão.

Mas porquê a escolha do verbo “reatar” se a relação bilateral não esteve cortada nos últimos tempos? A razão é simples e também algo frustrante: infelizmente, a relação entre os dois países, embora longa, não tem sido consistente, estruturada e pensada para o futuro. Na verdade, nem podemos afirmar que exista um conhecimento mútuo significativo entre os dois povos.

Apesar de Portugal ter sido o primeiro país europeu a chegar ao Japão no século XVI, essa vantagem temporal nunca se traduziu numa relação duradoura ou estratégica. O encontro inicial — tão celebrado nos registos históricos — foi breve, maioritariamente de índole missionária e comercial, e circunstancial. Desde então, a relação tem oscilado entre o ocasional e o decorativo. A presença cultural portuguesa no Japão é quase nula; já a japonesa em Portugal, apesar de visível em certos círculos, continua marginal ou limitada a um anacrónico exotismo orientalista que permeia o consumo de cultura nipónica no nosso país. Nesse sentido, o potencial de diálogo continua por cumprir.

Chegados a 2025, a Expo de Ōsaka oferece mais do que uma vitrine: é uma hipótese concreta de repensar a forma como Portugal se posiciona fora do eixo euro-atlântico. O Japão, com todos os seus desafios demográficos, sociais e climáticos, tem procurado parcerias em áreas como a saúde, a inovação urbana, e a cultura digital. Portugal, se quiser ser mais do que um país de discursos nostálgicos e um pioneiro, tem de demonstrar capacidade de proposta e presença. Acima de tudo, há que estar disponível para compreender o outro, como Luís Fróis, João Rodrigues e tantos outros portugueses que marcaram presença nas primeiras interações entre os dois povos. Felizmente, podemos afirmar que, nos últimos anos se têm visto melhorias, nomeadamente no ramo da cultura. Enquanto tradutor japonês-português, constato que há cada vez mais trabalhos japoneses de diferentes géneros e artes a serem trazidos, traduzidos e apreciados em Portugal. Simultaneamente, ainda que em pequena escala, existe um nicho de lusófilos no Japão interessado em produtos e aspetos culturais específicos do nosso país. A Expo 2025 é o momento perfeito para reciprocar e fortalecer esta relação, especialmente tendo em conta a instabilidade política global e o subsequente replaneamento e realinhamento de políticas bilaterais que se tem registado.

Para isso, serão necessários esforços a diversos níveis: em primeiro lugar, na esfera diplomática, mas também mais colaboração entre universidades e centros de investigação, redes de artistas e curadores, promotores culturais, pequenas e médias empresas. Não basta levar um pavilhão “bonito” ou apregoar a ideia genérica do “encontro entre culturas”. Há que estar disposto a investir, a escutar, e sobretudo a manter a presença depois de os holofotes da Expo se apagarem.

A distância geográfica ou o tamanho do nosso país já não são desculpas válidas. A distância política e, acima de tudo, a cultural são os principais entraves a transpor. A Expo Ōsaka 2025 pode ser um ponto de partida — não de mera celebração do primeiro contacto em 1543, mas de construção de uma relação mais profunda entre Portugal e o Japão que continua por se materializar.

Antecedência [conto]

Com as mãos repousadas no peito, Adão caminhou como caminham os mortos, hirto, imperturbavelmente horizontal, porém em paz. Calcorreou a calçada escorregadia, por entre beatas pisadas e aposentadas, até chegar ao cais de onde partiria rumo à sua última aventura: a Agência Funerária Eterno Descanso.

Adão empurrou a pesada porta de vidro e entrou. Era um pequeno e banalíssimo escritório à moda antiga, onde se poderia perfeitamente vender seguros ou preencher declarações de IRS. O espaço estava dividido em dois por um balcão de madeira com dois monitores de computador em cima. Já as paredes estavam cheias de dossiês empoeirados e sem critério aparente. Para tão importante operação esperava-se mais intencionalidade, uma clássica ordem alfabética ou, porque não, uma disposição de Génesis ao Apocalipse.

Não obstante, a morte é essencialmente a antítese da ordem. Pelo menos, para aqueles que são obrigados a enfrentá-la cara-a-cara nos momentos mais inoportunos da rotina, como o são os engarrafamentos ou a evacuação.

Os funcionários da funerária deviam estar precisamente a passar por uma dessas inconveniências triviais, pois não havia ninguém na sala para saudar Adão ou ensinar-lhe a taxonomia das frutas permissíveis e ilegais.

Graças a deus, todo o sofrimento tem o seu fim. Passados cinco intermináveis minutos, um homem franzino aproximou-se do balcão. Tinha um par de óculos arredondado e vestia um fato cinzento, com o colarinho desabotoado. Tinha acabado de vir das traseiras e carregava uma volumosa pilha de papéis nas mãos. Ao notar na presença de Adão, pareceu mais aborrecido do que surpreso.

— Posso ajudá-lo?

— Não tenho a certeza — retrucou Adão, com as mãos nos bolsos.

— Nestas alturas, ninguém nos pode ajudar verdadeiramente, não é verdade? Sente-se — instruiu o homem. — O meu nome é Fausto. O que o traz aqui?

Adão engoliu em seco. Por fim, revelou:

— Preciso de planear um funeral.

— Antes de mais, as minhas condolências. Para quem seria a última despedida?

— Para mim mesmo.

Fausto ajeitou os óculos.

— Entendo, infelizmente já lidei com casos semelhantes no passado. Se me permite a indiscrição, quanto tempo de vida é que o doutor lhe deu?

— Qual doutor?

— Parti do pressuposto que tivesse recebido um diagnóstico irreversível, como um cancro terminal, por exemplo.

Pela primeira vez, Adão sorriu. Em breve, a imagem materializou-se acusticamente em gargalhadas asfixiantes.

— Que eu saiba, não tenho qualquer doença letal. Sou saudável. Simplesmente, estou-me a precaver para o que me espera. Aliás, para o que nos espera a todos nós.

Fausto inclinou-se na cadeira e bufou.

— Quanto anos é que o amigo tem?

— Tenho trinta anos.

— E tem família? Mulher, filhos?

— Ex-mulher e um filho pequeno.

— Não me leve a mal, mas, se quer planear o seu funeral com tanta antecedência, recomendo-lhe que cultive uma boa relação com o seu filho, vai ver que, quando chegar a malfadada hora, ele tratará de tudo por si.

— Agradeço o conselho, mas, segundo sei, e corrija-me se estiver equivocado, a vossa empresa presta um serviço mediante o pagamento do respetivo preço. Se pagar o preço do serviço, o que é que lhe interessa se o funeral é hoje ou daqui a quarenta anos?

— Interessa e muito, e por uma variedade de fatores. Primeiro, por causa da inflação. Se o senhor pagar 5000€ por um funeral hoje, esses mesmos 5000€ valerão muito menos daqui a quarenta anos. Isto é, partindo do pressuposto que serão quarenta anos, a esperança média de vida tem vindo a aumentar a olhos vistos, e suspeito que, se nada de trágico lhe acontecer, possa viver muito mais. Devo também admitir que não temos garantias de que a nossa empresa continuará em funcionamento. Somos um pequeno negócio e não podemos corresponder a pedidos com tanta antecedência.

— Então, e se eu pagar já o preço do funeral e me comprometer a fazer pequenas contribuições mensais para compensar a inflação? Uma espécie de Plano Poupança Reforma, mas para garantir que parto nos meus próprios termos.

— Não diga parvoíces, homem. Invista o seu dinheiro onde renda.

— Haverá melhor investimento do que a morte?

Fausto fitou Adão em silêncio. Sentia-se pobre de léxico para responder às postulações insanas daquele homem, que, para todos os efeitos, era mais um cliente (€).

— Permita-me uma outra pergunta: o que é que o levou a tomar esta decisão? Perdeu alguém que amava? Morreu alguém que conhecia? Um famoso, porventura?

— Sim e não. Sim, já me morreram alguns familiares e conhecidos, e obviamente que já li várias notícias sobre a morte de celebridades que conheço e de que até gostava. Mas não creio que alguma dessas mortes me tenha marcado particularmente.

— Então, qual o motivo?

— Nem eu sei. Talvez seja porque andei a ler as Meditações de Marco Aurélio. No entanto, creio que os principais responsáveis foram os pombos.

— Os pombos? Não me diga que desta vez foram as aves a pregar aos homens.

— Também se pregassem de pouco valeria, não tenho jeito para línguas. O que se passou foi o seguinte: estava sentado ali no parque, num banco entre a fonte e o coreto, quando um bando de pombos se aproximou. Viram que tinha comida nas mãos e ali ficaram em posição, prontos para atacarem. Coagido, lá aceitei desfarelar-lhes um pouco do meu pão. Peguei numa mão cheia de migalhas e atirei-as para o chão. Os pombos atropelaram-se uns aos outros, trôpegos, lutando pela própria alimentação.

— É a lei do mais forte.

— Eu pensava o mesmo. Até que comecei a notar na aleatoriedade das coisas, na natureza caótica dos movimentos, da física, dos materiais, da continuidade… Eventualmente, reparei que o pombo «A» comia muito mais do que os restantes. Senti uma certa revolta por causa dessa injustiça. Aí, tentei intencionalmente mandar mais migalhas para os demais pombos. Julguei que pudesse fazer a diferença, pois acredito no livre-arbítrio, na capacidade de escolher se trincamos ou não a maçã e se acatamos as responsabilidades pelas nossas ações ou não. Contudo, para meu espanto, quanto mais tentava alterar o rumo dos acontecimentos, mais eles pareciam conspirar contra mim, alimentando o glutão pombo «A» com a subserviência de um plebeu. Transtornado, voltei para casa. Nessa noite, mal preguei o olho. A minha mente foi assolada por imagens tenebrosas de eventos da minha vida em que a minha vontade de pouco ou nada serviu. Mas, com o nascer do sol, fez-se luz.

Fausto repousou o polegar no queixo.

— Nesta vida aleatória, a única escolha disponível é a morte certa. Escolher como irei partir é o único ato genuinamente voluntário e intencional a que tenho direito. A morte é a liberdade.

— Bonitas palavras. Mas o senhor está a ver mal as coisas. De facto, concordo consigo em relação ao papel libertador da morte, livra-nos do sofrimento, da tristeza. Mas também nos priva da vida. E devo também relembrá-lo de que a morte, isto é, o momento em que a vida se fina, não depende de um funeral para se consumar. Porque é que insiste em ser você mesmo a planear o funeral quando não precisa dele para usufruir das benesses de morrer que tanto apregoa?

— Apregoar é exatamente a palavra que eu usaria para me defender. Seria honesto da minha parte aceder a este conhecimento emancipador sobre a essência da morte e não o partilhar com os outros? Diria que não. A meu ver, o meu funeral, por muito discreto que venha a ser, é uma belíssima oportunidade para informar os presentes daquilo que os espera e para lhes dar esperança. Para que não vivam com medo da entropia. Ao invés disso, que a aceitem de braços abertos.

— Mas do que me vale saber que a vida é uma ilusão se tudo aquilo que nasce morre?

— Ryōkan.

— O quê?

— O quê não; quem. Foi um monge budista japonês. Ele escreveu um poema que, em português, soa muito parecido à frase que o senhor acabou de proferir.

Fausto levantou-se da cadeira. Por trás das lentes, as suas pupilas agigantaram-se, quais luas novas, os cantos da boca tremelicando.

— Já percebi que o senhor lê muito, quiçá demasiado. Mas eu não sou filósofo, muito menos terapeuta. Tenho um negócio que presta serviços mediante determinadas condições. Lamento informá-lo, mas, não estando os requisitos reunidos, não creio que possa corresponder ao seu pedido.

— Não me pode discriminar assim. Sou um cliente como os outros.

— Devo discordar.

— Discorde do que quiser, em vida pouco importa. Mas eu quero o meu funeral. Ligue-me quando puder, se faz favor.

Adão pôs um papel recortado na mão de Fausto e, com isso, virou costas e fechou gentilmente a porta. Fausto não sabia o que fazer com o papel amarrotado, mas agradeceu-lhe a simpatia pela arquitetura.

Ao final da tarde, Fausto sentou-se no banco do jardim entre a fonte e o coreto. A temperatura amena convidava ao ócio.

Nas suas mãos, um saco de pão duro resgatado da cozinha.

Pegou no pão e, com as mãos enrugadas, arrancou um pequeno pedaço. A rocha virou pedra, depois areia. Abanou a mão para nivelar as migalhas e rodou o pulso 180 graus.

Em breve, um bando de pombos rodeava-lhe as botas. Bicavam desastradamente o chão, por vezes acertando nos farelos, por outras trincando a frustração.

Ao contrário do que o cliente descrevera, Fausto não reparou em qualquer desigualdade nas porções consumidas por cada pombo. Cada espécime comia sensivelmente a mesma quantidade de pão proporcionalmente ao tamanho do seu corpo. Eram iguais, tal como Fausto pretendera.

Eventualmente, o primeiro punhado de migalhas finou-se. O exército columbino fuzilou-o com os olhares vidrados. O saco de pão continuava meio cheio.

No instante seguinte, contudo, Fausto levantou-se de supetão e abandonou o parque. Embora não tenha olhado mais para os pombos, tinha a certeza que eles não iriam ficar ali por muito tempo.

Mal chegou à funerária, pegou no telefone e digitou o número do cliente.

— Estou sim? Estou a ligar da Funerária Eterno Descanso, poderia passar cá amanhã?… Sim, senhor, combinado. Vá em paz.

Na manhã seguinte, Adão bateu à porta da funerária escassos minutos antes da hora oficial de abertura.

— Ora viva, seja bem-vindo — saudou Fausto, visivelmente mais entusiástico do que na primeira visita. — Escusa de se sentar que o que eu tenho para dizer não demora nada.

Adão manteve-se em pé.

— Estive ontem a alimentar os pombos no mesmo sítio que o senhor e cheguei à conclusão que a intencionalidade, mesmo com suas falhas, é um conceito válido e francamente mais útil do que as ideias de justiça ou igualdade.

— Respeito o seu direito à diferença de opinião.

— Muito obrigado. Isto para dizer que decidi aceitar o seu pedido.

— Obrigado eu.

— Sob uma condição: o funeral tem de ser feito já.

— Já? Mas eu ainda não morri.

— Pois não, é por isso que deve fazer o funeral agora enquanto pode. Venha daí, temos uns belos caixões nas traseiras. Que tipo de madeira prefere? Mogno? Nogueira? Ácer?

— Não sei se é bem isto o que eu queria.

— Vá lá, homem, não seja piegas. Despachemos o inevitável que o relógio não perdoa.

Agrilhoado àquele pacto que não fazia tenções de firmar, Adão arrastou-se até à sala dos caixões no fundo da funerária. Era como se os seus pés fossem feitos de madeira maciça.

Fausto apontou com a mão para um suntuoso caixão de mogno revestido de veludo púrpura. No exterior, havia um pequeno escadote, quais escadas de piscina. Só faltava dar o grande mergulho.

Adão inspirou fundo e fletiu o joelho. Os ossos estalaram. Recobrando o fôlego, entrou no caixão. Os ténis enlameados tingiram o veludo, tornaram-no único. Então, deitou-se. Cruzou os braços. Sabia perfeitamente o que fazer. Treinara a vida inteira para este momento.

Algumas palpitações depois, começou a ver-se a si mesmo dentro do caixão. Estava simultaneamente no seu interior e exterior, presente e vicário.

Por último, ouviu o vigário Fausto discursando monocordicamente: “Estamos aqui reunidos para prestar uma sentida homenagem ao nosso amigo X, que dedicou a sua vida a Y, e deixa para trás um filho, o pequeno Z”.

O que a elegia não tinha em especificidade compensava com estrutura. Agora, tudo fazia sentido. Enfim, a vida em ordem alfabética.

– André Pinto Teixeira, 2024

A proposta da Virtude

Centenas de metros debaixo do solo, a Virtude e a Razão aguardavam pacientemente pelo despertar da Aurora.

A espera fora longa.

Séculos mais tarde, Aurora abriu efectivamente os olhos, ainda que a muito custo.

“Onde estou?” foi o seu primeiro pensamento, o primeiro de todos nós.

Doíam-lhe as costas até ao osso. Por pouco não lançou um gemido sofrido enquanto se erguia; valeu-lhe a compostura em lume brando.

Quando Aurora se susteve sobre os próprios pés, hirta por fim, viu-se subitamente na presença pálida de Razão, a sua fiel discípula, e Virtude, a exilada.

Os seus semblantes insinuavam inquietação.

– Quase perdera a esperança – confessou a Virtude, monocórdica.

Apercebendo-se do palor doentio da Razão, Aurora exibiu a dentição veemente e volveu:

– O que é que fizeste à Razão?

A Virtude manteve-se em silêncio. Quando os segundos se começaram a tornar incómodos, assegurou:

– Está tudo bem. Acalmai-vos.

– Não é o que parece – revidou a Aurora, ferina. As suas veias cresciam-lhe nas têmporas, quais tubérculos nodosos.

Fraquejando, a Razão por pouco não desfaleceu, não fosse a acção rápida da Virtude, que a susteve nos seus braços peganhentos. Tal não foi o seu espanto quando a Virtude lhe colocou a mão ascética sobre o peito desregulado, inundando-a com a sua própria personalidade, a sua biografia pessoal em forma de ácido.

– Tem calma, Aurora. Já me sinto melhor – asseverou a Razão, segurando a mão da Aurora com delicadeza.

A Aurora evitou o olhar sincero da Razão e, dividindo a reprovação entre a escuridão e a Virtude, murmurou:

– Melhor agora, pior amanhã. Nunca sairemos deste limbo.

– Seja mais optimista, não seja como eu – instou a Virtude, porém, prontamente censurada pela Aurora tempestiva:

– O que queres de nós?

– Nada de especial. Muito pouco, na verdade. Não vos forçarei a aceitardes o meu pedido nem prevejo represálias caso decidais nesse sentido. Digamos que vos faço uma proposta.

Aurora engoliu em seco, imóvel. Não era óbvio que a sua ausência de movimento tivesse alguma implicação semântica. De qualquer modo, a Virtude optou por interpretar a situação ao seu critério, aproveitando a deixa para prosseguir:  

– A minha missão de vida é tão somente uma: o fim da hipocrisia. Desde os primórdios que têm sido cometidas as mais gritantes injustiças, os crimes mais hediondos, deturpações insidiosas de tudo o que há de bom na natureza. Mas, quando confrontado com o seu longo currículo de perfídia, o mundo encolhe os ombros. Às vezes, pavoneia-se rua afora com os seus pecados estampados nas vestes. Porém, as trevas não tiram folga.

– O que é que eu tenho a ver com isso? – Indagou a Aurora.

– Tanto que ver quanto desejardes – devolveu a Virtude. – A Razão está fraca, há muito que o mundo não vê o sol nascer. Tendes em vossas mãos uma oportunidade de ouro para reverter a situação.

A Aurora pediu a atenção da Razão com o suor. Milénios de amizade dotavam-nas do talento de confidenciar sem palavras. Comunicavam pelo pólen que se lhes evadia dos poros.

– Aceito a proposta. Mas terás de fazer-me um favor em troca.

– Desde que esteja ao meu alcance.

Com um sorriso mordaz nos lábios, ordenou a Aurora:

– Abre a porta às crianças.

A Virtude escutou o pedido com vincada atenção e, por fim, acedeu.

–Persististes em bater, abrir-se-vos-á. A vossa causa é nobre. Mas cuidado com o apego.

Trocadas as últimas cortesias, a Virtude esfumou-se. Já Aurora e a Razão estugaram o passo até à boca da caverna.

Ao olhar destreinado, o oceano imenso parecia tímido, acariciando-lhes os rostos com salpicos húmidos na penumbra.

A Razão seguiu à frente, conduzindo a Aurora por um estreito corredor pedregoso e alagado de espuma e algas. Se a sua memória não lhe falhasse, o Remorso frequentava aquela zona.

– Já cá tinhas estado antes, Aurora?

– Já.

– E que tal?

– Não vale a pena.

As suas auras pintaram-se de carmesim.

Ainda não estavam absolutamente convictas da promessa que acabavam de fazer ou das suas reais implicações.

– Temos mesmo de interferir? – questionou a Razão.

– O meu instinto diz que não, o meu fígado diz que sim. Nada se resolve sozinho, e de vez em quando é a nossa vez de nascer.

– Talvez tenhas razão – admitiu Razão, mordiscando o lábio inferior. – E se falharmos?

Aurora estreitou-a pelos braços e sussurrou:

– Se falharmos, falhámos.

André Pinto Teixeira
07.06.2022

Correggio (1531), Allegoria della Virtù

SALARYMAN (poema)

É isso, assalariado. Afoga as tristezas
em tigelas de fujisoba e strong zero.

Dorme no JR
para completar a meia hora de sono nos hotéis
cápsula onde te banhas em pintelhos alheios e te masturbas com pornografia datada,
longe,
bem longe
da mulher que já não beijas, não amas nem chamas por nome,
e que decide, por capricho, quantas migalhas do teu salário podes bicar.

Mas olha, não te podes queixar:
ela deixa-te o quanto baste
para o passe,
para o fato,
para os sapatos,
para a gravata,
para a pastinha,
para o relógio,
para o porta-cartões,
para o gyūdon da sukiya,
para a bebedeira coagida,
para o champanhe no kyabakura,
para o medicamento anti-ressaca
e qualquer outro paliativo que te deixe vergado
no umbral da karōshi
dia sim dia sim.
Ah, quão bela é a vida do formigão assalariado.

André Pinto Teixeira
Funabashi 船橋, 14.07.2020

O rio da Primavera 春の河, um poema de Yamamura Bochō 山村暮鳥 (tradução)

Sobre o autor: Yamamura Bochō 山村暮鳥 (1884-1924) foi o pseudónimo de um poeta japonês das eras Meiji e Taishō. Natural da prefeitura de Gunma, Yamamura dedicou-se principalmente à criação de obras poéticas e de literatura infantil e à tradução de literatura russa. Dentre as suas obras, destacam-se as antologias poéticas “As três virgens 三人の処女” (1913) e”Nuvem 雲” (1925, edição póstuma), o conto infantil “Os sapatos de ferro 鉄の靴” (1922) e uma compilação de textos traduzidos de Dostoievsky (ドストイヱーフスキイ翻訳集), publicada em 1918. Nos seus contos, é notável a influência de Miyazawa Kenji, um dos mais celebrados autores da literatura moderna japonesa. Yamamura faleceu aos quarenta anos, vítima de uma tuberculose.

O poema que abaixo se apresenta foi retirado da obra póstuma “Nuvens”, que pode ser lida integralmente, no original japonês, em https://www.aozora.gr.jp/cards/000136/files/42755_34855.html.

山村暮鳥bot (@yamamurabochou) | Twitter
Yamamura e o seu cão de estimação.

O RIO DA PRIMAVERA
tradução de André Pinto Teixeira

Abundante
o rio da primavera.
Correrá
ou não?
Flutuante
um pedaço de palha que se move.
Assim, podemos saber que o rio corre.

De igual modo

é a alegria de ver o vasto rio
num campo primaveril.
Vejo essa alegria
flutuando calmamente como nuvens
sem anseios
ou exasperação,
jubiloso eu também.

De igual modo

vem a abundante
Primavera
até aos mais diminutos rios,
transbordando,
transbordando.

春の河

たっぷりと
春の河は
ながれているのか
いないのか
ういている
藁くずのうごくので
それとしられる

おなじく

春の、田舎の
大きな河をみるよろこび
そのよろこびを
ゆったりと雲のように
ほがらかに
飽かずながして
それをまたよろこんでみている

おなじく

たっぷりと
春は
小さな川々まで
あふれている
あふれている

Capa da antologia “Nuvens”, editado pela
Nihongo Tosho Center (2000)

Hōjōki: Crónicas da Cabana 方丈記(1212) de Kamo no Chōmei 鴨長明 – tradução [pt.2]

Nos pouco mais de quarenta anos que vivi desde que compreendi a verdadeira natureza das coisas, presenciei cada vez mais eventos aterradores. Creio que estávamos a 28 de Abril do Terceiro Ano de Angen[1]. O vento soprava com veemência naquela noite turbulenta; era, sensivelmente, a Hora do Cão[2]. Um incêndio que despoletara a sudeste da capital chegava ao noroeste. As chamas haviam-se alastrado ao portão de Suzaku[3], ao Pavilhão Daikoku[4], à Universidade Imperial[5] e ao Ministério dos Assuntos Populares[6], que acabaram reduzidos a cinzas naquela mesma noite.  O incêndio deflagrara na intercepção entre as ruelas a que chamam de Higuchi e Tomi, onde consta que pegou fogo um alojamento provisório para dançarinos[7].

   Quanto mais soprava o vento, sem propósito, mais se espalhava o fogo, desdobrando-se qual leque, até cobrir o fogo toda a parte. As casas mais longínquas foram sufocadas pelo fumo, as vizinhas sopravam chamas na direcção do solo. A cintilação do fogo tingia de carmesim o céu coberto de cinzas. Como que voando, as chamas incapazes de resistir ao vento acabaram por se estender a um ou dois quarteirões[8] do ponto de origem. As pessoas que o fogo cercara estavam já despojadas de qualquer esperança. Umas sucumbiram ao fumo que as asfixiou. Outras, desmaiaram e feneceram logo que confrontaram as labaredas. Já aqueles que, por pouco, lograram escapar com vida, deram por si mesmos donos de coisa nenhuma. Até os maiores tesouros[9] foram consumidos pelas flamas, virando cinza. Quem poderia conceber a dimensão das perdas? As habitações de dezasseis nobres foram tragadas pelo fogo, porém não se sabe quantas mais. Diz-se que esse terá sido o destino de um terço de toda a capital. Entre homens e mulheres, faleceram dezenas. Do gado vacum e cavalos vitimados desconhecem-se os números.  Os afazeres do homem são, por natureza, estultos. Contudo, dentre todos eles, parece-me particularmente néscio que se invista riquezas e se incomode o espírito com a construção de casas numa cidade tão perigosa como esta.

[original japonês 原文]

 予、物の心を知れりしよりこのかた、四十あまりの春秋をおくれる間に、世のふしぎを見ることやゝたびたびになりぬ。いにし安元三年四月廿八日かとよ、風烈しく吹きてしづかならざりし夜、戌の時ばかり、都のたつみより火出で來りていぬゐに至る。はてには朱雀門、大極殿、大學寮、民部の省まで移りて、ひとよがほどに、塵灰となりにき。火本は樋口富の小路とかや、舞人を宿せるかりやより出で來けるとなむ。

 吹きまよふ風にとかく移り行くほどに、扇をひろげたるが如くすゑひろになりぬ。遠き家は煙にむせび、近きあたりはひたすらほのほを地に吹きつけたり。空には灰を吹きたてたれば、火の光に映じてあまねくくれなゐなる中に、風に堪へず吹き切られたるほのほ、飛ぶが如くにして一二町を越えつゝ移り行く。その中の人うつゝ(しイ)心ならむや。あるひは煙にむせびてたふれ伏し、或は炎にまぐれてたちまちに死しぬ。或は又わづかに身一つからくして遁れたれども、資財を取り出づるに及ばず。七珍萬寳、さながら灰燼となりにき。そのつひえいくそばくぞ。このたび公卿の家十六燒けたり。ましてその外は數を知らず。すべて都のうち、三分が一に及べりとぞ。男女死ぬるもの數十人、馬牛のたぐひ邊際を知らず。人のいとなみみなおろかなる中に、さしも危き京中の家を作るとて寶をつひやし心をなやますことは、すぐれてあぢきなくぞ侍るべき。』


Notas de tradução:

[1] No calendário gregoriano, 1177. A era Angen (安元) designa o breve reinado do imperador Takakura (高倉天皇), entre 1175-1177.

[2] 戌の刻 inu no koku, Entre as 19 e 21 horas segundo o sistema tradicional baseado no zodíaco chinês.

[3] 朱雀門suzaku-mon, o portão do pássaro vermelho do sul. o principal portão no centro-sul da capital Heian-kyō.

[4] 大極殿 daikoku-den, edifício central do palácio imperial, dedicado a cerimónias e assuntos oficiais ao cargo do imperador.

[5] 大学寮 daigaku-ryō, instituição de ensino estatal de acesso exclusivo aos filhos de famílias nobres.

[6] 民部省 minbu-shō: um dos oito ministérios (八省) da corte imperial japonesa, sob a alçada do Grande Concelho de Estado (daijōkan 太政官).

[7] Entenda-se, dançarinos de bugaku 舞楽, a dança tradicional representada apenas perante as elites e a corte.

[8] Originalmente, um ou dois chō 町, unidade de medida tradicional equivalente a aproximadamente 109 metros.

[9] Literalmente, as “sete joias e dez mil tesouros” (shicchin manpou 七珍萬寳),  uma expressão budista que designa abundância de bens preciosos. As “sete joias” metafóricas referem-se, respectivamente, a ouro, prata, lápis-lazúli, concha de ostra gigante, ágata, quartzo e coral.   

Tradução do Japonês Medieval por André Pinto Teixeira, Março 2020.

Resultado de imagem para 朱雀門平安京
Reconstituição do portão de Suzaku 朱雀門, na antiga capital de Heian, actual Quioto.
Fonte: https://japan-castle.website/japanese/history/tojo/

Hōjōki: Crónicas da Cabana 方丈記(1212) – tradução do Japonês Medieval [1]

Hoje, decidi começar um desafio interessante: traduzir, aos poucos, um dos textos japoneses medievais mais interessantes que conheço. Falo do Hōjōki 方丈記, literalmente “Registos de um jou quadrado”, em referência às dimensões da cabana em causa segunda as medidas japonesas da época. Optei pelo título Crónicas da Cabana para evitar uma tradução excessivamente hermética e sesquipedal.

Hōjōki 方丈記 é uma obra escrita em 1212 por Kamo no Chōmei 鴨長明 (1153-1216), um poeta e ensaísta de Quioto (na altura, Heian-kyō 平安京). Nesta obra, o autor descreve as transformações sofridas pela cidade ao longo dos tempos, recorrendo a um estilo narrativo marcadamente poético e, por vezes, filosófico até.

Para já, deixo-vos com a tradução da primeira passagem da obra, traduzida para Português a partir do original japonês. Tratando-se de japonês medieval, esta é uma tradução que envolve dificuldades de interpretação acrescidas. Qualquer erro constante da presente tradução é da minha pura responsabilidade. O texto original, não estando sujeito a copyright, está disponível integralmente no portal Aozora: https://www.aozora.gr.jp/cards/000196/files/975_15935.html

O tradutor,
André Pinto Teixeira

方丈記
Hōjōki: Crónicas da Cabana

Kamo no Chōmei 鴨長明

[1]

Embora nunca cesse a corrente do rio, a sua água, porém, não é a mesma. Onde a água estagna, flutuam bolhas de espuma, que se formam e logo expiram sem que se prolongue a sua existência. São a imagem espelhada das pessoas e dos lugares que estas habitam. Na graciosa capital, erguem-se em fila telhados rivais que albergam tanto gente de estatuto alto como inferior. Estas casas aparentam ser capazes de perdurar geração após geração. Contudo, inquirindo sobre o seu real estado, constata-se que são raras as habitações de antanho. Algumas delas foram consumidas pelo fogo no ano anterior e reconstruídas no ano presente. Já outras, outrora enormes, transformaram-se em casebres. Outrossim, quem habita tais casas. Talvez ainda haja muita gente, como dantes. Todavia, onde antes reconhecia vinte, trinte pessoas, agora não passam de uma ou duas. De manhã morrem uns e ao anoitecer nascem outros, quais bolhas na superfície da água. Não sei de onde vêm as pessoas quando nascem, nem para onde vão quando morrem. De igual modo, não compreendo porque se preocupam de tamanho modo em alegrar os olhos com residências passageiras. O dono da casa e a própria casa competem um com o outro pela permanência, de nenhum modo dissemelhantes do orvalho sobre as glórias-da-manhã. Se o orvalho tombar, a flor persiste, porém para logo murchar ao amanhecer. Igualmente, se mirrar a flor primeiro, perdurará o orvalho, sem que contudo aspire a conhecer o crepúsculo.   

行く川のながれは絶えずして、しかも本の水にあらず。よどみに浮ぶうたかたは、かつ消えかつ結びて久しくとゞまることなし。世の中にある人とすみかと、またかくの如し。玉しきの都の中にむねをならべいらかをあらそへる、たかきいやしき人のすまひは、代々を經て盡きせぬものなれど、これをまことかと尋ぬれば、昔ありし家はまれなり。或はこぞ破れてことしは造り、あるは大家ほろびて小家となる。住む人もこれにおなじ。所もかはらず、人も多かれど、いにしへ見し人は、二三十人が中に、わづかにひとりふたりなり。あしたに死し、ゆふべに生るゝならひ、たゞ水の泡にぞ似たりける。知らず、生れ死ぬる人、いづかたより來りて、いづかたへか去る。又知らず、かりのやどり、誰が爲に心を惱まし、何によりてか目をよろこばしむる。そのあるじとすみかと、無常をあらそひ去るさま、いはゞ朝顏の露にことならず。或は露おちて花のこれり。のこるといへども朝日に枯れぬ。或は花はしぼみて、露なほ消えず。消えずといへども、ゆふべを待つことなし。

Kamo no Chōmei 鴨長明 (1153-1216)

Alvíssaras! – Um artigo de opinião no P3.

Serei simples e objectivo, short and sweet como se diz. Escrevi um artigo de opinião para o P3, do jornal Público… e foi publicado! O tema escolhido foi a representação da comunidade chinesa nos media portugueses. Decidi escrever sobre este tópico após um programa da SIC ter emitido um sketch com contornos xenófobos. Consciente de que a sinofobia subjacente a esse segmento é transversal a toda a sociedade portuguesa, achei por bem pôr por escrito os meus pensamentos e perspectiva, para que outros, nomeadamente aqueles que reproduzem esses preconceitos sem intenção, possam entender mais facilmente a natureza assimétrica da relação entre a maioria da população e a minoria chinesa (imigrante) ou lusa-chinesa (segunda/terceira geração).

Poderão aceder gratuitamente ao artigo no link abaixo:
https://www.publico.pt/2020/01/30/p3/cronica/ano-novo-estereotipos-velhos-1902299?fbclid=IwAR3-vndzISNHt40vT3bukbWf-zq_ML3D6l5DfxFcUR76ZwzWxCvassEZa7E

Boas leituras e, já agora, Feliz Ano do Rato! 新年快樂!恭喜發財!

INUBOSAKI 犬吠埼: UM FAROL PARA OS MESES VINDOUROS (Crónica de André Pinto Teixeira)

Nunca liguei particularmente ao ano novo. Muito menos às ambiciosas resoluções e declarações de novos começos que inundam as redes sociais entre o alegado nascimento do nazareno e a remoção das iluminações festivas. Aqui entre nós: eu nem gosto de ser o Grinch pós-modernista que acusa qualquer ocasião calendarizada de ser uma mera construção social, como se fosse impossível criar, ex nihilo, significado para conceitos inerentemente desprovidos de. Contudo, não me parece desmesurado afirmar que o calendário gregoriano ou, muito menos, o champanhe, não irão resolver as maleitas espirituais de que não soubemos tratar durante os meses precedentes.

    Os japoneses têm uma expressão para se referirem a promessas grandiosas que são imediatamente quebradas: mikka bōzu 三日坊主, literalmente “monge por três dias”. Ora, não querendo eu incorrer na constrangimento que acompanha a heterodoxia, neste ano decidi abster-me de quaisquer resoluções de ano novo. O meu único projecto pessoal para 2020 é ler menos livros, devotando mais tempo a obras mais extensas ao invés de investir simplesmente no número de obras lidas. Há anos que ando a iludir-me a mim mesmo de que iria ler O homem sem qualidades, de Robert Musil, dando o dito por não dito mês após mês. Pois bem, o melhor é mesmo pôr mãos ao trabalho, que é como quem diz mãos no Kindle, e começar efectivamente a ler o livro.

    Aproveitando as férias de ano novo e o tempo invulgarmente ameno, optei por passar o primeiro dia de 2020 em viagem. Há algumas semanas, tinha visto na televisão algumas imagens de um farol no este de Chiba que me fez lembrar paisagens da costa portuguesa. Estando eu em Chiba na passagem de ano, decidi dirigir-me à localidade em que poderia visitar o dito farol. Acordei cedo (pecado capital segundo os meus mandamentos pessoais) e apanhei o comboio na linha Sōbu 総武本線, rumo à estação terminal, a localidade de Chōshi 銚子.

     Entre Chiba e Chōshi, um trajecto de quase cem quilómetros, a arquitetura urbana da esfera metropolitana começa a dar lugar a paisagens bucólicas. As grandes estações enferrujadas e pachinkos abandonados são substituídos por apeadeiros desertos, arrozais e florestas densas. Nos campos, agricultores realizam queimadas a céu aberto. É difícil imaginar que o aeroporto de Narita, um dos mais movimentados e cosmopolitas do mundo, fica tão perto deste mundo rural onde a luz do néon nunca chegou.

     O comboio para Chōshi está longe de ir cheio, mas, mesmo assim, razoavelmente composto. No assento à minha esquerda, uma jovem descalça-se e coloca os pés nos bancos da frente. Leva ao colo um iPad, no qual tenta trabalhar nalgum tipo de documento, boicotada, porém, pelo grupo de estudantes barulhentos que galhofa alguns bancos atrás. Nos comboios draconianos de Tóquio, tamanha risota seria punida com a mais veemente agressividade passiva. Aqui, contudo, não há vagar para a intransigência. A vida faz-se devagar, e há que saber quando tolerar o aparente intolerável.

    Passadas duas horas, chego por fim à estação de Chōshi. No guichê turístico, recolho um pequeno panfleto que me conta que esta pequena cidade, de aproximadamente sessenta e cinco mil habitantes, é conhecida pela pesca e pela produção de molho de soja. Ademais, a sua longa costa, que inclui o ponto mais a leste na região de Kantō, permite a observação de diversas formas de vida marinha, incluindo golfinhos.

    Começo o passeio pela cidade dirigindo-me ao templo Enpuku 圓福寺, também conhecido como o templo de Iinuma-Kannon 飯沼観音, em honra da divindade budista da misericórdia. À entrada do templo, há dois santuários xintoístas, apanágio do sincretismo religioso japonês. Embora não partilhe de qualquer fé ou superstição relacionada com os kami, achei por bem dirigir-me ao santuário em jeito de ritual de início do ano, até porque o mau tempo havia gorado os meus planos de realizar a primeira visita do ano (hatsumōde 初詣) na passagem de ano propriamente dita. Antes do portão torii 鳥居 que marca o início do chamado “espaço sagrado”, está afixado um comunicado que insta os visitantes a respeitarem a etiqueta de “peregrinação” ao santuário: vénias ao entrar e ao sair, purificação ritual das mãos e da boca e oração segundo os preceitos ortodoxos. Regra geral, a existência de um aviso escrito de natureza prescritiva indica que o comportamento considerado desejável não tem sido a norma, suspeita que confirmei sem demora observando a nonchalance com que a maioria das pessoas passava pelo portão.

    Nos precintos do templo, havia comerciantes a vender bugigangas, antiquarias e bombas calóricas. À esquerda do pavilhão principal, estava um pagode quíntuplo e um buda esculpido em 1711. Um casal idoso ao meu lado comentava que o buda não estivera ali da última vez que tinham visitado. Talvez tivesse ido dar uma escapadinha a algum lado – não seria a primeira vez que o Buda desapareceria sem aviso prévio.

Grande Buda de Chōshi 銚子大仏. Atrás, o pavilhão principal do templo Enpuku. [todas as fotos neste texto são da minha autoria]

    Junto da estátua do buda, centenas de placas ema 絵馬 bamboleavam ao sabor do vento, embatendo gentilmente umas nas outras. Nas placas, liam-se desejos em diversas línguas, uns mais triviais, outros mais cobiçosos. Uma das placas pedia força para o povo de Hong Kong, um desejo que suscitou, noutros templos do Japão, uma onda de vandalismo sem precedentes. Felizmente, a placa aqui permanecia intacta.

[Notícia sobre o tema: https://www.scmp.com/news/asia/east-asia/article/3039244/chinese-tourists-blamed-after-vandals-deface-pro-hong-kong]

     Uma vez que o meu verdadeiro objectivo era visitar o farol, não me detive por mais tempo no templo e pus pés a caminho. Até à costa, eram cerca de seis quilómetros. Quanto mais caminhava, mais rural a paisagem. Por momentos, julguei estar perdido nas aldeias de Niigata que vim conhecendo ao longo destes três anos. Se me tivessem raptado e abandonado ali a meio da noite, juraria a pés juntos estar perto do monte Yahiko. A paisagem entre o templo de Kannon e a costa consistia essencialmente em três coisas: casas de madeira ao estilo de Shōwa, pardais e plantações de nabiças. Até na beira da estrada havia enrugadas folhas de nabiça, lembretes, quem sabe, dos tufões implacáveis que dizimaram as culturas locais no outono de 2019.  

    Antes de pôr pés na costa, cruzo-me com um apeadeiro que posso apenas descrever como uma das estações de comboios mais pequenas que já vi. Por ela, passa o serviço local Chōshi Dentetsu 銚子電鉄, que liga a estação central ao porto piscatório de Tokawa 外川漁港, na extremidade da península. Cruzando uma vereda estreita ladeada por pinheiros, chego finalmente à costa. Estava no cabo de Inubo 犬吠埼, literalmente o Cabo do Cão Ladrador.

A minúscula estação de Kimigahama 君ヶ浜, servida pela linha de caminhos de ferro Chōshi Dentetsu 銚子電鉄.

     À minha frente, as ondas do Pacífico acometem contra a costa com um vigor que ainda não havia presenciado. A maresia inundou-me imediatamente os sentidos, reavivando memórias de passeatas por Sesimbra, Sintra e Nazaré. À minha direita, o almejado farol, alvíssimo, nostálgico, familiar. No parque em frente à praia, uma família fazia um churrasco. As crianças lançavam papagaios juntas, correndo atrás deles com o embevecimento pueril que só a infância é capaz de manter vivo. Na praia, um pai paciente ajuda o filho amedrontado a molhar os pés nas pequenas ondas que vão e vêm. O menino grita a cada investida do oceano, mas o pai não desiste.

    Não desistiu o pai mas desisti eu de os observar, pelo que não sei qual o desfecho da sua breve lição sobre o mar. Os meus olhos estavam focados no farol, e o bom tempo apenas acicatava ainda mais o meu desejo de subir ao seu topo. Entre a base e o posto de observação entrepunham-se noventa e nove degraus íngremes. O corredor era estreito, pelo que qualquer entrecruzamento fortuito requeria um certo grau de autodomínio. Do topo, avistava-se não só o mar como também toda a cidade atrás dele. Ao longe, via-se igualmente moinhos eólicos girando maquinalmente segundo os caprichos do vento invernal.

Cabo de Inubo, na costa do Pacífico. Ao fundo, o farol homónimo. O farol foi construído em 1874. O topo ergue-se a 51,8 metros de altura.

    Ao descer o farol, fui confrontado com um monumento em pedra que confirmou a minha inexplicável sensação de afinidade entre as costas de Chōshi e de Portugal. Segundo estava inscrito no monumento, em 1993, curiosamente o ano do meu nascimento, havia sido celebrado um acordo de amizade entre o Cabo de Inubo e o Cabo da Roca. O nome de Portugal aparecia grafado como Portogal, gralha perfeitamente desculpável sabendo que, em japonês, o nome do país é pronunciado como po-ru-TO-ga-ru.

Monumento assinalando a germinação entre os cabos de Inubo e Roca, comemorado no ano de 1993.

    Após uma refeição ligeira, dirigi-me a um outro local que despertara a minha curiosidade: a rocha do Cão 犬岩. Foi desta rocha supostamente em forma de cão que nasceram as imensas lendas que deram nome ao Cabo do Cão Ladrador. Não se pode dizer que a rocha propriamente dita, com as suas alegadas orelhas e focinho caninos, inspire ou comova alguém, muito menos quem leia as teorias científicas sobre o processo de erosão que conduziu à sua formação. No caso desta rocha, não é nem a rocha nem a verdade sobre ela que interessam, mas o que ela nos diz sobre a imaginação humana. À imagem da famosa história do leal Hachikō na estação de Shibuya, reza a lenda que o cão do comandante militar Minamoto Yoshitsune (源 義経, 1159-1189) esperara na praia pelo seu dono durante sete dias e sete noites. Enquanto aguardava o regresso do seu amado dono, o cão nunca cessou de ladrar até ao dia em que se transformou numa rocha. Durante séculos, habitantes da aldeia portuária junto à rocha afiançavam ouvir o ladrar de um cão durante noites de tempestade. Esta é a génese do mito que, mais tarde, baptizaria toda a zona costeira como “Ladrar do Cão” (Inubo 犬吠), bem como o seu cabo homónimo.

    Ironicamente, no trajecto entre e de volta para o farol não vi um único cão, mas dezenas de gatos: em bancos, alpendres, telhados, em cemitérios familiares, comendo cabeças de peixe em ralos de esgoto e sabe-se lá mais onde. Quem sabe, um dia, não se insurja uma rebelião de gatos que, como última machadada ao regime caninista, declare a destruição total de qualquer monumento desses anos negros de subserviência gatesca, culminando com a demolição da rocha do cão pelo próprio regime felino. Se esta não fosse a história da civilização humana, até teria tido graça.

“Rocha do Cão” 犬岩, uma formação rochosa que deu origem a diversas lendas populares.

    Ciente de que todos os animais são iguais, mas uns mais iguais que outros, digo adeus ao porto de Tokawa e entro no liliputiano comboio que me levará de volta para a estação central. A meio do trajecto, o comboio fez uma paragem numa estação com dois nomes: Kasagami-Kurohae 笠上黒生 e Kaminoke-Kurohae 髪毛黒生. Segundo vim mais tarde a apurar, o nome oficial havia sido mudado para Kaminoke-Kurohae a 1 de Dezembro, contudo a familiaridade dos habitantes locais com o nome original levou a empresa a determinar que fossem incluídos ambos os nomes nos anúncios gravados e nos sinais informativos. Quando as portas da carruagem se abriram, uma criança abraçada pela avó quebrou o silêncio, gritando para o avô, que seguia em pé em frente à porta, “não vais sair aqui?”. Enlevados com a pureza da criança, todos os passageiros riram. Todos excepto um velho ao meu lado, que comentou com a mulher “É deficiente, ou quê?”, na mais grotesca demonstração de amargura de que tenho memória. O velho empregou a palavra kichigai, um termo que hoje em dia é considerado extremamente ofensivo e uma forma de bullying contra as pessoas com deficiência ou problemas de foro mental. A palavra, que significa algo como “maluco”, é actualmente um dos termos proibidos pelas entidades reguladoras da comunicação social japonesa. Não sei o que leva alguém a reagir à alegria contagiante de uma criança com tamanha maldade, especialmente não estando a bordo de um avião (diz-me quem és num voo longo, dir-te-ei quem és). Só sei que não acredito em karma mas ele existe, pois, quando o velho se preparava para sair do comboio, tropeçou na mochila de um passageiro musculado, estatelando-se aparatosamente contra a parede. Desta vez, tratando-se não da criança mas de um hércules contemporâneo, não se lhe ocorreu usar de novo da palavra kichigai. Decisão curiosa, de facto.

     Este incidente relembrou-me que o novo ano não irá misteriosamente apagar todas as fontes de angústia e frustração que, de vez em quando, nos perturbam a rotina. Porém, mesmo por mero acaso, reafirmou também a minha convicção de que colhemos o que semeamos, e é por isso mesmo que, neste ano, devemos continuar a tentar semear o melhor que temos para dar, seja em forma de texto, de gestos ou de afectos. Não será um ano fácil. Às vezes, iremos sentir-nos abandonados, como o cão de Minamoto Yoshitsune ladrando a sós na costa gélida. O importante é nunca perder o foco, nunca esquecer que, para lá do oceano impiedoso, há terra firme à nossa espera. E, conduzindo-nos a porto seguro, há um farol que nos guia. Gostava de ser portador da verdade absoluta e revelar-vos, com cem porcento de certeza, qual o verdadeiro significado do farol nesta metáfora. A verdade é que não faço a menor ideia. Para já, direi que é a virtude, a capacidade de determinar por nós mesmos o que é certo e errado, fazer juízos éticos sobre a natureza das coisas e como devemos agir. Para alguns, esse farol terá uma componente religiosa, para outros será secular, alicerçado no pensamento filosófico, no zeitgeist ou até mesmo no instinto. Seja qual for a vossa bússola, nunca percam o norte nos meses que se seguem. Um bom 2020 para todos vós! 明けましておめでとうございます!Akemashite omedetō gozaimasu!

André Pinto Teixeira
01.01.2020, Chōshi 銚子 (Japão)

Irrequietude sazonal (Crónica de André Pinto Teixeira)

António Variações tinha razão: só estamos bem aonde não estamos, só queremos ir para onde não vamos. À primeira vista, poderá parecer um paradoxo. No entanto, creio que qualquer alma errante, seja emigrada ou viajante, trata por tu a bizarra inquietude que ponteia os nossos dias, qual comichão súbita. Tal como a comichão física, quanto mais se a coça, mais violentos os sintomas.

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Single “Estou Além, de A. Variações (1982)

    Após quatro anos de vivência no Japão, constato que muitos dos meus hábitos anteriores se têm invertido. Quando residia em Lisboa, tentava, por todos os meios, que tudo ao meu redor fosse o mais japonês possível. No fundo, tratava-me a mim mesmo com o mesmo paternalismo de quem recria desajeitadamente o habitat natural de um animal agora em cativeiro. Tal como um animal nascido no jardim zoológico, eu, que não conhecia outra realidade que não a selva de plástico, pavoneava-me felicíssimo na presença dos visitantes, que iam tirando fotos para os seus instas e comentando “que cabeça tão grande” e outros elogios semelhantes. Alguns desses elogios traduziam-se em incentivos pecuniários, sobre os quais apenas posso protestar pela parcimónia.

    A minha rotina alfacinha passava frequentemente pela leitura de romances e outros livros japoneses nos transportes públicos. Lia tudo aquilo em que conseguia pôr as mãos, desde contos de Mishima até a livros sobre autópsias (um destes há de estar algures na casa dos meus pais). Em casa, procurava sofregamente por programas de televisão japoneses, os mesmos programas de variedade que agora me fazem revirar os olhos até vislumbrar o próprio córtex. Assistia a programas de viagens, apanhados e culinária, todos eles graças a páginas criadas por outros nipófilos ou imigrantes japoneses que procuravam formas de consumir o mesmo entretenimento a que tinham direito em casa.

    Hoje, no Japão, raramente vejo televisão japonesa, com a excepção das notícias e, ocasionalmente, de documentários. De vez em quando, leio um romance ou um livro de não-ficção, mas agora sou mais criterioso. Quando todos os livros à minha volta são japoneses, a lascívia pela página escrita deixa de fazer sentido. Agora, só deixo a minha mente copular com palavras que ache verdadeiramente meritórias, páginas pelas quais os meus antepassados não hesitassem em pagar um avultado dote. Graças à caridade de família e amigos, intercalo a leitura de livros japoneses e ingleses com a ocasional indulgência em língua portuguesa. Recentemente, aproveitando o Inverno crescentemente mais rigoroso, tenho passado mais tempo livre no interior do kotatsu 炬燵 lendo traduções de Tchekhov. O seu conto “A minha vida – relatos de um provinciano” (Моя жизнь), a respeito de um rapaz citadino que se move para o campo, apesar da pressão familiar para permanecer na urbe, marcou-se-me na carne como um ferro em brasa. Nunca uma escolha aleatória de literatura se havia revelado tão certeira quanto ao seu timing e preponderância contemporânea, e estamos a falar de um conto de 1896.  

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Capa russa de “A minha vida”,
de Anton Tchekhov.

    Quanto a música japonesa, escuto bastante, tal como antes. Infelizmente, a maioria dos artistas que oiço não cantam em japonês. Alias, a maioria compõem música instrumental, a mais universal e pura, porém menos universalizada forma de música.

    Estou convicto de que a globalização contribui grandemente para o acicate desta sensação de irrequietude que me assola periodicamente. Continuando no tema da música, não passa uma semana sem que Tom Jobim não fale comigo das colunas de um qualquer café ou livraria japoneses. Já o meu telemóvel cria uma espécie de barreira de forças entre o mundo exterior e o mundo que escolho habitar visual e auditivamente. Não são raras as ocasiões em que caminho pelas ruas deste país escutando podcasts portugueses discutindo as minuciosidades de um outro país, uma terra a dez mil quilómetros de distância, na costa de um outro oceano que não o Pacífico que aqui me vai pacificando o bicho de não saber estar.

    Ora, quem ler esta confissão da minha fragmentação interna, certamente proporá: “porque é que não voltas para casa?”. E eu respondo que voltarei. Um dia. Para já, não obstante os obstáculos e a hesitação sazonal, sinto que é aqui mesmo, neste país, que poderei fazer pleno uso de todo o meu potencial. Sem prolongar a minha experiência aqui, nunca poderei ser a pessoa que eu quero ser a longo prazo. Sei que esta escolha implica sacrifícios: adiar alguns projectos, visitar família e amigos apenas por curtos períodos e, eventualmente, um acumular de stress que não existira na terra-natal. No entanto, escolhi manter em mente as motivações (fossem elas quais fossem) que, há vários anos, me levaram a recriar um Japão de cartolina à minha volta. É verdade que o confronto entre expectativas e realidade cria, amiúde, um paradigma radicalmente diferente do almejado. De qualquer modo, neste momento é para mim vital manter acesa a chama que foi alumiando esta jornada, dissipando, passo a passo, os golfos de escuridão que me toldavam o futuro.

    Estou certo de que haverá gente que, por este desabafo, me acusará de ingratidão ou de não estar consciente do meu privilégio. Desenganem-se! Sei que o Japão é o sonho de muita gente, em muitos casos até mesmo amigos pessoais, cujos planos de vida foram abandonados precocemente. Não obstante, devemos ser capazes de reflectir criticamente sobre as nossas próprias vivências e discorrer sobre elas sem pudor, não só por honestidade mas também por uma questão de higiene emocional. Ao reconhecermos a existência de incertezas, podemos então mantê-las em quarentena, vedadas por um cordão sanitário, até que a sua existência deixe de pôr em perigo a nossa. Este é um processo desagradável, e que influencia negativamente a rotina imediata. Todavia, é só através deste curso regular de sintoma, diagnóstico, receita e posologia que sou capaz de assegurar a sustentabilidade do meu projecto de crescimento pessoal. Vez por outra, consigo contornar toda esta tráfega anímica pela adopção eficaz da profilaxia. Contudo, há que admitir a incúria própria, e, neste respeito, sou tão culpado como qualquer contumaz insolente (ou, quiçá, medroso), que deposita toda a sua fé no poder milagroso de Santa Ausência.

    Para que fique claro, estou aqui para ficar. Até quando? Logo se vê.

    Para já, a única preocupação na minha mente é escolher qual o santuário xintoísta aonde devo realizar a primeira visita (hatsumōde 初詣) de 2020…

André Pinto Teixeira
30.12.2019, Narashino 習志野

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Primeira visita do ano ao santuário Zenkouji 善光寺, em Nagano 長野 (2010). Em todo o país, milhões de japoneses acorrem aos santuários xintoístas na noite de 31 de Dezembro para 1 de Janeiro. Durante a primeira visita, lançam moedas aos ofertórios, realizando pedidos variados, como saúde e sucesso profissional ou académico no ano recém-chegado.