Expo 2025: uma oportunidade de ouro para Portugal

A 13 de abril, Ōsaka inaugura a Expo 2025, sob o mote: “Designing Future Society for Our Lives” (いのち輝く未来社会のデザイン). Para Portugal, esta é uma oportunidade única para reatar a relação com um velho amigo: o Japão.

Mas porquê a escolha do verbo “reatar” se a relação bilateral não esteve cortada nos últimos tempos? A razão é simples e também algo frustrante: infelizmente, a relação entre os dois países, embora longa, não tem sido consistente, estruturada e pensada para o futuro. Na verdade, nem podemos afirmar que exista um conhecimento mútuo significativo entre os dois povos.

Apesar de Portugal ter sido o primeiro país europeu a chegar ao Japão no século XVI, essa vantagem temporal nunca se traduziu numa relação duradoura ou estratégica. O encontro inicial — tão celebrado nos registos históricos — foi breve, maioritariamente de índole missionária e comercial, e circunstancial. Desde então, a relação tem oscilado entre o ocasional e o decorativo. A presença cultural portuguesa no Japão é quase nula; já a japonesa em Portugal, apesar de visível em certos círculos, continua marginal ou limitada a um anacrónico exotismo orientalista que permeia o consumo de cultura nipónica no nosso país. Nesse sentido, o potencial de diálogo continua por cumprir.

Chegados a 2025, a Expo de Ōsaka oferece mais do que uma vitrine: é uma hipótese concreta de repensar a forma como Portugal se posiciona fora do eixo euro-atlântico. O Japão, com todos os seus desafios demográficos, sociais e climáticos, tem procurado parcerias em áreas como a saúde, a inovação urbana, e a cultura digital. Portugal, se quiser ser mais do que um país de discursos nostálgicos e um pioneiro, tem de demonstrar capacidade de proposta e presença. Acima de tudo, há que estar disponível para compreender o outro, como Luís Fróis, João Rodrigues e tantos outros portugueses que marcaram presença nas primeiras interações entre os dois povos. Felizmente, podemos afirmar que, nos últimos anos se têm visto melhorias, nomeadamente no ramo da cultura. Enquanto tradutor japonês-português, constato que há cada vez mais trabalhos japoneses de diferentes géneros e artes a serem trazidos, traduzidos e apreciados em Portugal. Simultaneamente, ainda que em pequena escala, existe um nicho de lusófilos no Japão interessado em produtos e aspetos culturais específicos do nosso país. A Expo 2025 é o momento perfeito para reciprocar e fortalecer esta relação, especialmente tendo em conta a instabilidade política global e o subsequente replaneamento e realinhamento de políticas bilaterais que se tem registado.

Para isso, serão necessários esforços a diversos níveis: em primeiro lugar, na esfera diplomática, mas também mais colaboração entre universidades e centros de investigação, redes de artistas e curadores, promotores culturais, pequenas e médias empresas. Não basta levar um pavilhão “bonito” ou apregoar a ideia genérica do “encontro entre culturas”. Há que estar disposto a investir, a escutar, e sobretudo a manter a presença depois de os holofotes da Expo se apagarem.

A distância geográfica ou o tamanho do nosso país já não são desculpas válidas. A distância política e, acima de tudo, a cultural são os principais entraves a transpor. A Expo Ōsaka 2025 pode ser um ponto de partida — não de mera celebração do primeiro contacto em 1543, mas de construção de uma relação mais profunda entre Portugal e o Japão que continua por se materializar.

Antecedência [conto]

Com as mãos repousadas no peito, Adão caminhou como caminham os mortos, hirto, imperturbavelmente horizontal, porém em paz. Calcorreou a calçada escorregadia, por entre beatas pisadas e aposentadas, até chegar ao cais de onde partiria rumo à sua última aventura: a Agência Funerária Eterno Descanso.

Adão empurrou a pesada porta de vidro e entrou. Era um pequeno e banalíssimo escritório à moda antiga, onde se poderia perfeitamente vender seguros ou preencher declarações de IRS. O espaço estava dividido em dois por um balcão de madeira com dois monitores de computador em cima. Já as paredes estavam cheias de dossiês empoeirados e sem critério aparente. Para tão importante operação esperava-se mais intencionalidade, uma clássica ordem alfabética ou, porque não, uma disposição de Génesis ao Apocalipse.

Não obstante, a morte é essencialmente a antítese da ordem. Pelo menos, para aqueles que são obrigados a enfrentá-la cara-a-cara nos momentos mais inoportunos da rotina, como o são os engarrafamentos ou a evacuação.

Os funcionários da funerária deviam estar precisamente a passar por uma dessas inconveniências triviais, pois não havia ninguém na sala para saudar Adão ou ensinar-lhe a taxonomia das frutas permissíveis e ilegais.

Graças a deus, todo o sofrimento tem o seu fim. Passados cinco intermináveis minutos, um homem franzino aproximou-se do balcão. Tinha um par de óculos arredondado e vestia um fato cinzento, com o colarinho desabotoado. Tinha acabado de vir das traseiras e carregava uma volumosa pilha de papéis nas mãos. Ao notar na presença de Adão, pareceu mais aborrecido do que surpreso.

— Posso ajudá-lo?

— Não tenho a certeza — retrucou Adão, com as mãos nos bolsos.

— Nestas alturas, ninguém nos pode ajudar verdadeiramente, não é verdade? Sente-se — instruiu o homem. — O meu nome é Fausto. O que o traz aqui?

Adão engoliu em seco. Por fim, revelou:

— Preciso de planear um funeral.

— Antes de mais, as minhas condolências. Para quem seria a última despedida?

— Para mim mesmo.

Fausto ajeitou os óculos.

— Entendo, infelizmente já lidei com casos semelhantes no passado. Se me permite a indiscrição, quanto tempo de vida é que o doutor lhe deu?

— Qual doutor?

— Parti do pressuposto que tivesse recebido um diagnóstico irreversível, como um cancro terminal, por exemplo.

Pela primeira vez, Adão sorriu. Em breve, a imagem materializou-se acusticamente em gargalhadas asfixiantes.

— Que eu saiba, não tenho qualquer doença letal. Sou saudável. Simplesmente, estou-me a precaver para o que me espera. Aliás, para o que nos espera a todos nós.

Fausto inclinou-se na cadeira e bufou.

— Quanto anos é que o amigo tem?

— Tenho trinta anos.

— E tem família? Mulher, filhos?

— Ex-mulher e um filho pequeno.

— Não me leve a mal, mas, se quer planear o seu funeral com tanta antecedência, recomendo-lhe que cultive uma boa relação com o seu filho, vai ver que, quando chegar a malfadada hora, ele tratará de tudo por si.

— Agradeço o conselho, mas, segundo sei, e corrija-me se estiver equivocado, a vossa empresa presta um serviço mediante o pagamento do respetivo preço. Se pagar o preço do serviço, o que é que lhe interessa se o funeral é hoje ou daqui a quarenta anos?

— Interessa e muito, e por uma variedade de fatores. Primeiro, por causa da inflação. Se o senhor pagar 5000€ por um funeral hoje, esses mesmos 5000€ valerão muito menos daqui a quarenta anos. Isto é, partindo do pressuposto que serão quarenta anos, a esperança média de vida tem vindo a aumentar a olhos vistos, e suspeito que, se nada de trágico lhe acontecer, possa viver muito mais. Devo também admitir que não temos garantias de que a nossa empresa continuará em funcionamento. Somos um pequeno negócio e não podemos corresponder a pedidos com tanta antecedência.

— Então, e se eu pagar já o preço do funeral e me comprometer a fazer pequenas contribuições mensais para compensar a inflação? Uma espécie de Plano Poupança Reforma, mas para garantir que parto nos meus próprios termos.

— Não diga parvoíces, homem. Invista o seu dinheiro onde renda.

— Haverá melhor investimento do que a morte?

Fausto fitou Adão em silêncio. Sentia-se pobre de léxico para responder às postulações insanas daquele homem, que, para todos os efeitos, era mais um cliente (€).

— Permita-me uma outra pergunta: o que é que o levou a tomar esta decisão? Perdeu alguém que amava? Morreu alguém que conhecia? Um famoso, porventura?

— Sim e não. Sim, já me morreram alguns familiares e conhecidos, e obviamente que já li várias notícias sobre a morte de celebridades que conheço e de que até gostava. Mas não creio que alguma dessas mortes me tenha marcado particularmente.

— Então, qual o motivo?

— Nem eu sei. Talvez seja porque andei a ler as Meditações de Marco Aurélio. No entanto, creio que os principais responsáveis foram os pombos.

— Os pombos? Não me diga que desta vez foram as aves a pregar aos homens.

— Também se pregassem de pouco valeria, não tenho jeito para línguas. O que se passou foi o seguinte: estava sentado ali no parque, num banco entre a fonte e o coreto, quando um bando de pombos se aproximou. Viram que tinha comida nas mãos e ali ficaram em posição, prontos para atacarem. Coagido, lá aceitei desfarelar-lhes um pouco do meu pão. Peguei numa mão cheia de migalhas e atirei-as para o chão. Os pombos atropelaram-se uns aos outros, trôpegos, lutando pela própria alimentação.

— É a lei do mais forte.

— Eu pensava o mesmo. Até que comecei a notar na aleatoriedade das coisas, na natureza caótica dos movimentos, da física, dos materiais, da continuidade… Eventualmente, reparei que o pombo «A» comia muito mais do que os restantes. Senti uma certa revolta por causa dessa injustiça. Aí, tentei intencionalmente mandar mais migalhas para os demais pombos. Julguei que pudesse fazer a diferença, pois acredito no livre-arbítrio, na capacidade de escolher se trincamos ou não a maçã e se acatamos as responsabilidades pelas nossas ações ou não. Contudo, para meu espanto, quanto mais tentava alterar o rumo dos acontecimentos, mais eles pareciam conspirar contra mim, alimentando o glutão pombo «A» com a subserviência de um plebeu. Transtornado, voltei para casa. Nessa noite, mal preguei o olho. A minha mente foi assolada por imagens tenebrosas de eventos da minha vida em que a minha vontade de pouco ou nada serviu. Mas, com o nascer do sol, fez-se luz.

Fausto repousou o polegar no queixo.

— Nesta vida aleatória, a única escolha disponível é a morte certa. Escolher como irei partir é o único ato genuinamente voluntário e intencional a que tenho direito. A morte é a liberdade.

— Bonitas palavras. Mas o senhor está a ver mal as coisas. De facto, concordo consigo em relação ao papel libertador da morte, livra-nos do sofrimento, da tristeza. Mas também nos priva da vida. E devo também relembrá-lo de que a morte, isto é, o momento em que a vida se fina, não depende de um funeral para se consumar. Porque é que insiste em ser você mesmo a planear o funeral quando não precisa dele para usufruir das benesses de morrer que tanto apregoa?

— Apregoar é exatamente a palavra que eu usaria para me defender. Seria honesto da minha parte aceder a este conhecimento emancipador sobre a essência da morte e não o partilhar com os outros? Diria que não. A meu ver, o meu funeral, por muito discreto que venha a ser, é uma belíssima oportunidade para informar os presentes daquilo que os espera e para lhes dar esperança. Para que não vivam com medo da entropia. Ao invés disso, que a aceitem de braços abertos.

— Mas do que me vale saber que a vida é uma ilusão se tudo aquilo que nasce morre?

— Ryōkan.

— O quê?

— O quê não; quem. Foi um monge budista japonês. Ele escreveu um poema que, em português, soa muito parecido à frase que o senhor acabou de proferir.

Fausto levantou-se da cadeira. Por trás das lentes, as suas pupilas agigantaram-se, quais luas novas, os cantos da boca tremelicando.

— Já percebi que o senhor lê muito, quiçá demasiado. Mas eu não sou filósofo, muito menos terapeuta. Tenho um negócio que presta serviços mediante determinadas condições. Lamento informá-lo, mas, não estando os requisitos reunidos, não creio que possa corresponder ao seu pedido.

— Não me pode discriminar assim. Sou um cliente como os outros.

— Devo discordar.

— Discorde do que quiser, em vida pouco importa. Mas eu quero o meu funeral. Ligue-me quando puder, se faz favor.

Adão pôs um papel recortado na mão de Fausto e, com isso, virou costas e fechou gentilmente a porta. Fausto não sabia o que fazer com o papel amarrotado, mas agradeceu-lhe a simpatia pela arquitetura.

Ao final da tarde, Fausto sentou-se no banco do jardim entre a fonte e o coreto. A temperatura amena convidava ao ócio.

Nas suas mãos, um saco de pão duro resgatado da cozinha.

Pegou no pão e, com as mãos enrugadas, arrancou um pequeno pedaço. A rocha virou pedra, depois areia. Abanou a mão para nivelar as migalhas e rodou o pulso 180 graus.

Em breve, um bando de pombos rodeava-lhe as botas. Bicavam desastradamente o chão, por vezes acertando nos farelos, por outras trincando a frustração.

Ao contrário do que o cliente descrevera, Fausto não reparou em qualquer desigualdade nas porções consumidas por cada pombo. Cada espécime comia sensivelmente a mesma quantidade de pão proporcionalmente ao tamanho do seu corpo. Eram iguais, tal como Fausto pretendera.

Eventualmente, o primeiro punhado de migalhas finou-se. O exército columbino fuzilou-o com os olhares vidrados. O saco de pão continuava meio cheio.

No instante seguinte, contudo, Fausto levantou-se de supetão e abandonou o parque. Embora não tenha olhado mais para os pombos, tinha a certeza que eles não iriam ficar ali por muito tempo.

Mal chegou à funerária, pegou no telefone e digitou o número do cliente.

— Estou sim? Estou a ligar da Funerária Eterno Descanso, poderia passar cá amanhã?… Sim, senhor, combinado. Vá em paz.

Na manhã seguinte, Adão bateu à porta da funerária escassos minutos antes da hora oficial de abertura.

— Ora viva, seja bem-vindo — saudou Fausto, visivelmente mais entusiástico do que na primeira visita. — Escusa de se sentar que o que eu tenho para dizer não demora nada.

Adão manteve-se em pé.

— Estive ontem a alimentar os pombos no mesmo sítio que o senhor e cheguei à conclusão que a intencionalidade, mesmo com suas falhas, é um conceito válido e francamente mais útil do que as ideias de justiça ou igualdade.

— Respeito o seu direito à diferença de opinião.

— Muito obrigado. Isto para dizer que decidi aceitar o seu pedido.

— Obrigado eu.

— Sob uma condição: o funeral tem de ser feito já.

— Já? Mas eu ainda não morri.

— Pois não, é por isso que deve fazer o funeral agora enquanto pode. Venha daí, temos uns belos caixões nas traseiras. Que tipo de madeira prefere? Mogno? Nogueira? Ácer?

— Não sei se é bem isto o que eu queria.

— Vá lá, homem, não seja piegas. Despachemos o inevitável que o relógio não perdoa.

Agrilhoado àquele pacto que não fazia tenções de firmar, Adão arrastou-se até à sala dos caixões no fundo da funerária. Era como se os seus pés fossem feitos de madeira maciça.

Fausto apontou com a mão para um suntuoso caixão de mogno revestido de veludo púrpura. No exterior, havia um pequeno escadote, quais escadas de piscina. Só faltava dar o grande mergulho.

Adão inspirou fundo e fletiu o joelho. Os ossos estalaram. Recobrando o fôlego, entrou no caixão. Os ténis enlameados tingiram o veludo, tornaram-no único. Então, deitou-se. Cruzou os braços. Sabia perfeitamente o que fazer. Treinara a vida inteira para este momento.

Algumas palpitações depois, começou a ver-se a si mesmo dentro do caixão. Estava simultaneamente no seu interior e exterior, presente e vicário.

Por último, ouviu o vigário Fausto discursando monocordicamente: “Estamos aqui reunidos para prestar uma sentida homenagem ao nosso amigo X, que dedicou a sua vida a Y, e deixa para trás um filho, o pequeno Z”.

O que a elegia não tinha em especificidade compensava com estrutura. Agora, tudo fazia sentido. Enfim, a vida em ordem alfabética.

– André Pinto Teixeira, 2024

A proposta da Virtude

Centenas de metros debaixo do solo, a Virtude e a Razão aguardavam pacientemente pelo despertar da Aurora.

A espera fora longa.

Séculos mais tarde, Aurora abriu efectivamente os olhos, ainda que a muito custo.

“Onde estou?” foi o seu primeiro pensamento, o primeiro de todos nós.

Doíam-lhe as costas até ao osso. Por pouco não lançou um gemido sofrido enquanto se erguia; valeu-lhe a compostura em lume brando.

Quando Aurora se susteve sobre os próprios pés, hirta por fim, viu-se subitamente na presença pálida de Razão, a sua fiel discípula, e Virtude, a exilada.

Os seus semblantes insinuavam inquietação.

– Quase perdera a esperança – confessou a Virtude, monocórdica.

Apercebendo-se do palor doentio da Razão, Aurora exibiu a dentição veemente e volveu:

– O que é que fizeste à Razão?

A Virtude manteve-se em silêncio. Quando os segundos se começaram a tornar incómodos, assegurou:

– Está tudo bem. Acalmai-vos.

– Não é o que parece – revidou a Aurora, ferina. As suas veias cresciam-lhe nas têmporas, quais tubérculos nodosos.

Fraquejando, a Razão por pouco não desfaleceu, não fosse a acção rápida da Virtude, que a susteve nos seus braços peganhentos. Tal não foi o seu espanto quando a Virtude lhe colocou a mão ascética sobre o peito desregulado, inundando-a com a sua própria personalidade, a sua biografia pessoal em forma de ácido.

– Tem calma, Aurora. Já me sinto melhor – asseverou a Razão, segurando a mão da Aurora com delicadeza.

A Aurora evitou o olhar sincero da Razão e, dividindo a reprovação entre a escuridão e a Virtude, murmurou:

– Melhor agora, pior amanhã. Nunca sairemos deste limbo.

– Seja mais optimista, não seja como eu – instou a Virtude, porém, prontamente censurada pela Aurora tempestiva:

– O que queres de nós?

– Nada de especial. Muito pouco, na verdade. Não vos forçarei a aceitardes o meu pedido nem prevejo represálias caso decidais nesse sentido. Digamos que vos faço uma proposta.

Aurora engoliu em seco, imóvel. Não era óbvio que a sua ausência de movimento tivesse alguma implicação semântica. De qualquer modo, a Virtude optou por interpretar a situação ao seu critério, aproveitando a deixa para prosseguir:  

– A minha missão de vida é tão somente uma: o fim da hipocrisia. Desde os primórdios que têm sido cometidas as mais gritantes injustiças, os crimes mais hediondos, deturpações insidiosas de tudo o que há de bom na natureza. Mas, quando confrontado com o seu longo currículo de perfídia, o mundo encolhe os ombros. Às vezes, pavoneia-se rua afora com os seus pecados estampados nas vestes. Porém, as trevas não tiram folga.

– O que é que eu tenho a ver com isso? – Indagou a Aurora.

– Tanto que ver quanto desejardes – devolveu a Virtude. – A Razão está fraca, há muito que o mundo não vê o sol nascer. Tendes em vossas mãos uma oportunidade de ouro para reverter a situação.

A Aurora pediu a atenção da Razão com o suor. Milénios de amizade dotavam-nas do talento de confidenciar sem palavras. Comunicavam pelo pólen que se lhes evadia dos poros.

– Aceito a proposta. Mas terás de fazer-me um favor em troca.

– Desde que esteja ao meu alcance.

Com um sorriso mordaz nos lábios, ordenou a Aurora:

– Abre a porta às crianças.

A Virtude escutou o pedido com vincada atenção e, por fim, acedeu.

–Persististes em bater, abrir-se-vos-á. A vossa causa é nobre. Mas cuidado com o apego.

Trocadas as últimas cortesias, a Virtude esfumou-se. Já Aurora e a Razão estugaram o passo até à boca da caverna.

Ao olhar destreinado, o oceano imenso parecia tímido, acariciando-lhes os rostos com salpicos húmidos na penumbra.

A Razão seguiu à frente, conduzindo a Aurora por um estreito corredor pedregoso e alagado de espuma e algas. Se a sua memória não lhe falhasse, o Remorso frequentava aquela zona.

– Já cá tinhas estado antes, Aurora?

– Já.

– E que tal?

– Não vale a pena.

As suas auras pintaram-se de carmesim.

Ainda não estavam absolutamente convictas da promessa que acabavam de fazer ou das suas reais implicações.

– Temos mesmo de interferir? – questionou a Razão.

– O meu instinto diz que não, o meu fígado diz que sim. Nada se resolve sozinho, e de vez em quando é a nossa vez de nascer.

– Talvez tenhas razão – admitiu Razão, mordiscando o lábio inferior. – E se falharmos?

Aurora estreitou-a pelos braços e sussurrou:

– Se falharmos, falhámos.

André Pinto Teixeira
07.06.2022

Correggio (1531), Allegoria della Virtù

SALARYMAN (poema)

É isso, assalariado. Afoga as tristezas
em tigelas de fujisoba e strong zero.

Dorme no JR
para completar a meia hora de sono nos hotéis
cápsula onde te banhas em pintelhos alheios e te masturbas com pornografia datada,
longe,
bem longe
da mulher que já não beijas, não amas nem chamas por nome,
e que decide, por capricho, quantas migalhas do teu salário podes bicar.

Mas olha, não te podes queixar:
ela deixa-te o quanto baste
para o passe,
para o fato,
para os sapatos,
para a gravata,
para a pastinha,
para o relógio,
para o porta-cartões,
para o gyūdon da sukiya,
para a bebedeira coagida,
para o champanhe no kyabakura,
para o medicamento anti-ressaca
e qualquer outro paliativo que te deixe vergado
no umbral da karōshi
dia sim dia sim.
Ah, quão bela é a vida do formigão assalariado.

André Pinto Teixeira
Funabashi 船橋, 14.07.2020

O rio da Primavera 春の河, um poema de Yamamura Bochō 山村暮鳥 (tradução)

Sobre o autor: Yamamura Bochō 山村暮鳥 (1884-1924) foi o pseudónimo de um poeta japonês das eras Meiji e Taishō. Natural da prefeitura de Gunma, Yamamura dedicou-se principalmente à criação de obras poéticas e de literatura infantil e à tradução de literatura russa. Dentre as suas obras, destacam-se as antologias poéticas “As três virgens 三人の処女” (1913) e”Nuvem 雲” (1925, edição póstuma), o conto infantil “Os sapatos de ferro 鉄の靴” (1922) e uma compilação de textos traduzidos de Dostoievsky (ドストイヱーフスキイ翻訳集), publicada em 1918. Nos seus contos, é notável a influência de Miyazawa Kenji, um dos mais celebrados autores da literatura moderna japonesa. Yamamura faleceu aos quarenta anos, vítima de uma tuberculose.

O poema que abaixo se apresenta foi retirado da obra póstuma “Nuvens”, que pode ser lida integralmente, no original japonês, em https://www.aozora.gr.jp/cards/000136/files/42755_34855.html.

山村暮鳥bot (@yamamurabochou) | Twitter
Yamamura e o seu cão de estimação.

O RIO DA PRIMAVERA
tradução de André Pinto Teixeira

Abundante
o rio da primavera.
Correrá
ou não?
Flutuante
um pedaço de palha que se move.
Assim, podemos saber que o rio corre.

De igual modo

é a alegria de ver o vasto rio
num campo primaveril.
Vejo essa alegria
flutuando calmamente como nuvens
sem anseios
ou exasperação,
jubiloso eu também.

De igual modo

vem a abundante
Primavera
até aos mais diminutos rios,
transbordando,
transbordando.

春の河

たっぷりと
春の河は
ながれているのか
いないのか
ういている
藁くずのうごくので
それとしられる

おなじく

春の、田舎の
大きな河をみるよろこび
そのよろこびを
ゆったりと雲のように
ほがらかに
飽かずながして
それをまたよろこんでみている

おなじく

たっぷりと
春は
小さな川々まで
あふれている
あふれている

Capa da antologia “Nuvens”, editado pela
Nihongo Tosho Center (2000)

Hōjōki: Crónicas da Cabana 方丈記(1212) de Kamo no Chōmei 鴨長明 – tradução [pt.2]

Nos pouco mais de quarenta anos que vivi desde que compreendi a verdadeira natureza das coisas, presenciei cada vez mais eventos aterradores. Creio que estávamos a 28 de Abril do Terceiro Ano de Angen[1]. O vento soprava com veemência naquela noite turbulenta; era, sensivelmente, a Hora do Cão[2]. Um incêndio que despoletara a sudeste da capital chegava ao noroeste. As chamas haviam-se alastrado ao portão de Suzaku[3], ao Pavilhão Daikoku[4], à Universidade Imperial[5] e ao Ministério dos Assuntos Populares[6], que acabaram reduzidos a cinzas naquela mesma noite.  O incêndio deflagrara na intercepção entre as ruelas a que chamam de Higuchi e Tomi, onde consta que pegou fogo um alojamento provisório para dançarinos[7].

   Quanto mais soprava o vento, sem propósito, mais se espalhava o fogo, desdobrando-se qual leque, até cobrir o fogo toda a parte. As casas mais longínquas foram sufocadas pelo fumo, as vizinhas sopravam chamas na direcção do solo. A cintilação do fogo tingia de carmesim o céu coberto de cinzas. Como que voando, as chamas incapazes de resistir ao vento acabaram por se estender a um ou dois quarteirões[8] do ponto de origem. As pessoas que o fogo cercara estavam já despojadas de qualquer esperança. Umas sucumbiram ao fumo que as asfixiou. Outras, desmaiaram e feneceram logo que confrontaram as labaredas. Já aqueles que, por pouco, lograram escapar com vida, deram por si mesmos donos de coisa nenhuma. Até os maiores tesouros[9] foram consumidos pelas flamas, virando cinza. Quem poderia conceber a dimensão das perdas? As habitações de dezasseis nobres foram tragadas pelo fogo, porém não se sabe quantas mais. Diz-se que esse terá sido o destino de um terço de toda a capital. Entre homens e mulheres, faleceram dezenas. Do gado vacum e cavalos vitimados desconhecem-se os números.  Os afazeres do homem são, por natureza, estultos. Contudo, dentre todos eles, parece-me particularmente néscio que se invista riquezas e se incomode o espírito com a construção de casas numa cidade tão perigosa como esta.

[original japonês 原文]

 予、物の心を知れりしよりこのかた、四十あまりの春秋をおくれる間に、世のふしぎを見ることやゝたびたびになりぬ。いにし安元三年四月廿八日かとよ、風烈しく吹きてしづかならざりし夜、戌の時ばかり、都のたつみより火出で來りていぬゐに至る。はてには朱雀門、大極殿、大學寮、民部の省まで移りて、ひとよがほどに、塵灰となりにき。火本は樋口富の小路とかや、舞人を宿せるかりやより出で來けるとなむ。

 吹きまよふ風にとかく移り行くほどに、扇をひろげたるが如くすゑひろになりぬ。遠き家は煙にむせび、近きあたりはひたすらほのほを地に吹きつけたり。空には灰を吹きたてたれば、火の光に映じてあまねくくれなゐなる中に、風に堪へず吹き切られたるほのほ、飛ぶが如くにして一二町を越えつゝ移り行く。その中の人うつゝ(しイ)心ならむや。あるひは煙にむせびてたふれ伏し、或は炎にまぐれてたちまちに死しぬ。或は又わづかに身一つからくして遁れたれども、資財を取り出づるに及ばず。七珍萬寳、さながら灰燼となりにき。そのつひえいくそばくぞ。このたび公卿の家十六燒けたり。ましてその外は數を知らず。すべて都のうち、三分が一に及べりとぞ。男女死ぬるもの數十人、馬牛のたぐひ邊際を知らず。人のいとなみみなおろかなる中に、さしも危き京中の家を作るとて寶をつひやし心をなやますことは、すぐれてあぢきなくぞ侍るべき。』


Notas de tradução:

[1] No calendário gregoriano, 1177. A era Angen (安元) designa o breve reinado do imperador Takakura (高倉天皇), entre 1175-1177.

[2] 戌の刻 inu no koku, Entre as 19 e 21 horas segundo o sistema tradicional baseado no zodíaco chinês.

[3] 朱雀門suzaku-mon, o portão do pássaro vermelho do sul. o principal portão no centro-sul da capital Heian-kyō.

[4] 大極殿 daikoku-den, edifício central do palácio imperial, dedicado a cerimónias e assuntos oficiais ao cargo do imperador.

[5] 大学寮 daigaku-ryō, instituição de ensino estatal de acesso exclusivo aos filhos de famílias nobres.

[6] 民部省 minbu-shō: um dos oito ministérios (八省) da corte imperial japonesa, sob a alçada do Grande Concelho de Estado (daijōkan 太政官).

[7] Entenda-se, dançarinos de bugaku 舞楽, a dança tradicional representada apenas perante as elites e a corte.

[8] Originalmente, um ou dois chō 町, unidade de medida tradicional equivalente a aproximadamente 109 metros.

[9] Literalmente, as “sete joias e dez mil tesouros” (shicchin manpou 七珍萬寳),  uma expressão budista que designa abundância de bens preciosos. As “sete joias” metafóricas referem-se, respectivamente, a ouro, prata, lápis-lazúli, concha de ostra gigante, ágata, quartzo e coral.   

Tradução do Japonês Medieval por André Pinto Teixeira, Março 2020.

Resultado de imagem para 朱雀門平安京
Reconstituição do portão de Suzaku 朱雀門, na antiga capital de Heian, actual Quioto.
Fonte: https://japan-castle.website/japanese/history/tojo/

Hōjōki: Crónicas da Cabana 方丈記(1212) – tradução do Japonês Medieval [1]

Hoje, decidi começar um desafio interessante: traduzir, aos poucos, um dos textos japoneses medievais mais interessantes que conheço. Falo do Hōjōki 方丈記, literalmente “Registos de um jou quadrado”, em referência às dimensões da cabana em causa segunda as medidas japonesas da época. Optei pelo título Crónicas da Cabana para evitar uma tradução excessivamente hermética e sesquipedal.

Hōjōki 方丈記 é uma obra escrita em 1212 por Kamo no Chōmei 鴨長明 (1153-1216), um poeta e ensaísta de Quioto (na altura, Heian-kyō 平安京). Nesta obra, o autor descreve as transformações sofridas pela cidade ao longo dos tempos, recorrendo a um estilo narrativo marcadamente poético e, por vezes, filosófico até.

Para já, deixo-vos com a tradução da primeira passagem da obra, traduzida para Português a partir do original japonês. Tratando-se de japonês medieval, esta é uma tradução que envolve dificuldades de interpretação acrescidas. Qualquer erro constante da presente tradução é da minha pura responsabilidade. O texto original, não estando sujeito a copyright, está disponível integralmente no portal Aozora: https://www.aozora.gr.jp/cards/000196/files/975_15935.html

O tradutor,
André Pinto Teixeira

方丈記
Hōjōki: Crónicas da Cabana

Kamo no Chōmei 鴨長明

[1]

Embora nunca cesse a corrente do rio, a sua água, porém, não é a mesma. Onde a água estagna, flutuam bolhas de espuma, que se formam e logo expiram sem que se prolongue a sua existência. São a imagem espelhada das pessoas e dos lugares que estas habitam. Na graciosa capital, erguem-se em fila telhados rivais que albergam tanto gente de estatuto alto como inferior. Estas casas aparentam ser capazes de perdurar geração após geração. Contudo, inquirindo sobre o seu real estado, constata-se que são raras as habitações de antanho. Algumas delas foram consumidas pelo fogo no ano anterior e reconstruídas no ano presente. Já outras, outrora enormes, transformaram-se em casebres. Outrossim, quem habita tais casas. Talvez ainda haja muita gente, como dantes. Todavia, onde antes reconhecia vinte, trinte pessoas, agora não passam de uma ou duas. De manhã morrem uns e ao anoitecer nascem outros, quais bolhas na superfície da água. Não sei de onde vêm as pessoas quando nascem, nem para onde vão quando morrem. De igual modo, não compreendo porque se preocupam de tamanho modo em alegrar os olhos com residências passageiras. O dono da casa e a própria casa competem um com o outro pela permanência, de nenhum modo dissemelhantes do orvalho sobre as glórias-da-manhã. Se o orvalho tombar, a flor persiste, porém para logo murchar ao amanhecer. Igualmente, se mirrar a flor primeiro, perdurará o orvalho, sem que contudo aspire a conhecer o crepúsculo.   

行く川のながれは絶えずして、しかも本の水にあらず。よどみに浮ぶうたかたは、かつ消えかつ結びて久しくとゞまることなし。世の中にある人とすみかと、またかくの如し。玉しきの都の中にむねをならべいらかをあらそへる、たかきいやしき人のすまひは、代々を經て盡きせぬものなれど、これをまことかと尋ぬれば、昔ありし家はまれなり。或はこぞ破れてことしは造り、あるは大家ほろびて小家となる。住む人もこれにおなじ。所もかはらず、人も多かれど、いにしへ見し人は、二三十人が中に、わづかにひとりふたりなり。あしたに死し、ゆふべに生るゝならひ、たゞ水の泡にぞ似たりける。知らず、生れ死ぬる人、いづかたより來りて、いづかたへか去る。又知らず、かりのやどり、誰が爲に心を惱まし、何によりてか目をよろこばしむる。そのあるじとすみかと、無常をあらそひ去るさま、いはゞ朝顏の露にことならず。或は露おちて花のこれり。のこるといへども朝日に枯れぬ。或は花はしぼみて、露なほ消えず。消えずといへども、ゆふべを待つことなし。

Kamo no Chōmei 鴨長明 (1153-1216)

Entrevista acidental (crónica de André Pinto Teixeira)

   Não é todos os dias que vemos um anúncio a um sequestro. Faço-me explicar…

   Por volta das onze e meia de segunda-feira, entrei no comboio da linha Echigo 越後線 rumo a Niigata central, percurso banal que havia percorrido em centenas de outras segundas-feiras. Entrei na carruagem e sentei-me mecanicamente, qual autómato executando sequências de zeros e uns. Saquei do Kindle na esperança de colmatar a saudade com mais uma injecção de literatura portuguesa. Ora, o safado do dispositivo (que é para não lhe chamar cabrão) não queria arrancar. Fosse um carro e teria dito “mas ainda ontem atestei o depósito!”.

    Sem palavras que me alimentassem (livros impressos 1, e-readers 0!), virei-me para a publicidade que descaía do tecto do comboio. Esperava ver mais anúncios estrambólicos a clínicas de depilação, universidades desconhecidas ou um qualquer best-seller sobre dietas rápidas. Porém, a publicidade que encontrei hoje foi muito diferente do esperado. Para já, a começar pelo design, sóbrio, algo antiquado, como se tivesse sido criado em PowerPoint, mas, ao mesmo tempo, profundamente soturno. Alinhadas horizontalmente, estavam as fotografias de várias pessoas, cujos nomes estavam indicados em baixo. As fotos pareciam ter sido tiradas nos anos sessenta e setenta. Intrigado, virei-me finalmente para os kanji a negrito que atravessavam o cartaz publicitário: 北朝鮮人権侵害問題啓発週間 ou, em longo português, Semana de Consciencialização para as Infracções de Direitos Humanos pela Coreia do Norte. O cartaz relembrou-me de uma campanha semelhante que vira na biblioteca da universidade faz alguns meses [cartaz abaixo]. Nesse cartaz, vê-se uma fotografia de Megumi Yokota 横田めぐみ, uma jovem de treze anos sequestrada por navios coreanos na costa de Niigata, em 1978. Megumi enverga um quimono com um padrão axadrezado vermelho e branco. Está de pé em frente a um edifício de madeira com as mãos colocadas sobre o colo, neve atrás de si e na sua pele. À direita de Megumi, letras garrafais exclamam VAMOS TRAZER-TE DE VOLTA, SEGURAMENTE!, promessa que nem mesmo o ponto de exclamação teria a certeza de poder fazer.

Cartaz institucional denunciando o desparecimento de Megumi Yokota e promovendo a consciencialização para o problema dos sequestros de cidadãos japoneses por navios norte-coreanos.

    Para além de Megumi, houve, entre 1977 e 1983, dezenas de outras vítimas de sequestro, sendo dezassete casos oficialmente reconhecidos pelo governo japonês.

    À saída da estação, cruzei-me com um grupo de voluntários que distribuíam panfletos sobre a questão dos sequestros. Encaminhei-me na sua direcção e recebi prontamente uma cópia. A maioria dos voluntários, com a excepção de duas jovens galhofeiras, demonstrava um certo grau de autodomínio, cientes de que um sorriso nos seus semblantes poderia causar expressões bem distintas nos semblantes alheios.

     Segundo o panfleto, a Coreia do Norte afirma que Megumi terá falecido no ano de 1994. No entanto, a veracidade das declarações é ainda hoje questionada pelo governo japonês e pela família da vítima, que vê no activismo político uma última escapatória.

    Felizmente (palavra infeliz neste contexto), algumas da vítimas foram capazes de regressar ao Japão com vida (que vida?), como foi o caso de Kaoru Hasuike 蓮池 薫 e a sua namorada Yukiko Okudo 奥土 祐木子. Em 1978, com apenas vinte e um anos de idade, Kaoru foi sequestrado por navios norte-coreanos na costa de Kashiwazaki (prefeitura de Niigata), juntamente com Yukiko. Após vinte e quatro anos de submissão ao regime da família Kim, o casal pôde finalmente regressar a casa em 2002. Kaoru é hoje professor de línguas japonesa e coreana numa universidade em Kashiwazaki, sendo também proprietário de uma empresa de tradução.

    Finda a leitura, pus o panfleto no bolso e segui para o décimo terceiro andar do edifício Bandaijima, onde me reuni com o senhor Xu. Da sala de reuniões, via-se ao fundo a cordilheira Iide 飯豊山地, os seus cumes polvilhados de neve. Mais perto da cidade, as rudes chaminés de uma fábrica cuspiam fumo branco como se anunciassem habemus papam após um demorado concílio dos operários. Em Niigata, não tivemos papa nem medo do desastre de Fukushima graças às montanhas que separavam as duas prefeituras, conta-me Xu, num misto de nostalgia e stress pós-traumático.

    Após a reunião, desci até ao porto, onde o rio Shinano saúda o mar do Japão. O cruzeiro que faz a travessia para a ilha de Sado tinha acabado de partir. No meio do rio, um enorme navio servia de base para trabalhos de rotina que homens de macacão levavam a cabo com o rigor metódico que caracteriza o povo japonês. Os homens bradavam breves instruções e agradecimentos uns para os outros, valsando entre ‘ōrai‘s (podes vir) e obrigados.

     O céu azul e a paisagem do porto convidaram-me a ficar mais um pouco. Sem esperanças de um desfecho diferente, experimentei ligar o Kindle para ver se o catraio correspondia aos meus comandos. E, para meu espanto, sem que tivesse de gritar talitha cumi, o aparelho-biblioteca decidiu voltar à vida, enchendo-me de uma alegria que nem Jairo compreenderia – Jairo nunca teve um e-reader.

    Preparava-me para me sentar num banco à beira-rio quando sinto um toque no ombro atrás de mim. Virando-me, vejo um homem vestido à pescador estendendo as mãos abertas com um panfleto.

    “Deixaste cair isto?”, perguntou-me. Era, de facto, o panfleto sobre os sequestros que recebera na estação. Pedi desculpa pelo incómodo e agradeci-lhe a simpatia. No entanto, o homem não tinha intenção de me deixar ir prontamente.

    “Coitados dos pais da Megumi. Nunca mais foram os mesmos”.

    Sentámo-nos os dois no mesmo banco. Ao contrário do que acontece frequentemente por estas bandas, o homem não fez caso do meu rosto ou do meu sotaque estrangeiros. O panfleto parecia ter despertado nele um ímpeto narrativo, uma vontade inquebrável de levar a palco um monólogo escrito há muito, porém nunca declamado, e para o qual a identidade do público era absolutamente irrelevante. O homem, cujo nome não se me ocorreu perguntar, conhecia pessoalmente a família de Megumi. Segundo contou, a sua irmã mais velha frequentava a mesma escola que a rapariga sequestrada.

    “Naquela altura, tínhamos imenso medo de ir à praia”, confessou. “Mas eventualmente esquecemo-nos do que se passou. Esquecemo-nos dela”.

    Aquiesci sem saber o que mais dizer. Todavia, sem esperar o meu sinal verde, o homem prosseguiu:

    “Estes panfletos são muito bonitos mas não resolvem nada. Nós sabemos que eles foram levados, quem precisam de ser consciencializados são os coreanos [chōsenjin 朝鮮人]. Em frente à câmara municipal, puseram umas faixas bonitinhas a anunciar que o governo não vai descansar até que os sequestrados voltem todos. Mas eu já não acredito…”.  

    Subitamente, um corvo balofo aterrou aos nosso pés e começou a grasnar.

    “Corvo de merda” tartamudeou o homem, batendo palmas para enxotar o pássaro. O corvo não parecia impressionado pela sua ameaça percussiva, mas eventualmente acedeu ao pedido e pululou para longe do nosso banco.

    O homem sacou de um cigarro e começou a fumá-lo de imediato. Pelo cheiro, percebi de imediato que era marijuana, cuja simples posse resulta em penas pesadas no Japão. Estivesse em Portugal e provavelmente não me teria importunado, mas devo confessar que fiquei algo nervoso – não pela substância em si, mas pela possibilidade de detenção que pairava no meu pensamento.

    “Fumas disto?” inquiriu.

    “Não no Japão” retroquei, sacando do homem uma gargalhada de barriga cheia.

    Queria ouvir mais sobre os sequestros. Queria saber mais sobre a relação do homem com a família de Megumi. Queria fazer-lhe mil e uma perguntas e vê-las todas respondidas, como se gravássemos um episódio de ’60 Minutes’ e eu fosse o entrevistador. Para minha infelicidade, de um barco em frente veio outro homem vestido à pescador, pedindo ao meu entrevistado que viesse ajudá-lo na embarcação. O faz de conta ao jornalismo tinha chegado ao fim. Antes de se ir embora, porém, o homem perguntou-me:

    “Posso ficar com isto?”. Apertava o panfleto com força entre a fuligem das mãos. Embora quisesse ter levado o panfleto comigo, não tive como recusar-lhe o pedido, não depois de me ter revelado a tristeza que carregava consigo desde 1978. Acedi ao seu pedido e agradeci-lhe pelos minutos de conversa.

    “Ora essa. Vá, cuida de ti” disse-me, desaparecendo para dentro do barco.     

André Pinto Teixeira
16.12.2019, Niigata 新潟.

Vista do rio Shinano (信濃川) no porto de Niigata. À direita, o ferry boat que faz a travessia para a ilha de Sado. Para lá do navio, está o mar do Japão. A conversa descrita neste texto teve lugar a poucos metros daqui, num banco de jardim à beira-rio.
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Um mapa do Japão indicando o local de sequestro das vítimas. Em Niigata, estão indicadas cinco vítimas, correspondendo os caracteres vermelhos aos nomes de vítimas que foram capazes de regressar ao país-natal.

Divagando pelas ruas do Japão – pt.2 (crónica de André Pinto Teixeira)

1

Ikebukuro, Tóquio (東京都・池袋), 22h10.

    Ikebukuro é um bairro que não me diz muito mas em que dou por mim vezes sem conta, normalmente com propósitos muito específicos. Desta vez, estou a caminho do terminal de autocarros, de onde partirei de volta para Niigata.

    Desembarco no cais da linha Marunouchi 丸ノ内線. A esta hora, as carruagens do metro já vão mais descomprimidas, mas a presença ausente dos salarymen bêbados parece diluir a sensação de espaço.  

    Dez da noite significa não só mais gente com uma bezana como também mais sem-abrigo. Os sem-abrigo japoneses destacam-se pela sua discrição. Pedinchar não é prática comum, talvez pelo simples facto de que a caridade espontânea seja igualmente invulgar. Não quero, com isto, promover a ideia de que não existe solidariedade neste país. Há de haver, algures, enterrada em pilhas babilónicas de burocracia. De qualquer modo, não me parece exagerado afirmar que o género de interações que vemos em qualquer metro ou comboio do mundo, do peregrino que caminha de lugar em lugar abanando o copinho dos trocos, “tenha a bondade de me auxiliar”, seguido de olhares de desprezo e da ocasional moedinha e um “deus a abençoe”, não terão lugar neste lugar.

    Perto da saída da estação, presencio o momento em que uma rapariga de uniforme quase tropeça na cabeça de um sem-abrigo, que dormia no chão da estação em posição fetal. A rapariga contou à amiga do lado o quão perto esteve de entornar o seu bubble tea com tapioca e o quão sortuda fora por ter conseguido manter intacto o seu sagrado elixir de leite e diabetes. Foi um momento que enclausurou na perfeição as desigualdades que habitam uma megalópole como Tóquio. Por um lado, temos adolescentes de iPhone em riste e com poder de compra suficiente para beber chás açucarados que custam em média seiscentos ienes ou mais (5,2€). Por outro lado, um sem-abrigo idoso, à vista de todos, contudo invisível, jazendo adormecido sobre um molho de revistas grátis sobre telemóveis, telemóveis que ele decerto nunca possuiu e nunca irá comprar. O facto de estas revistas de distribuição gratuita existirem sugere que alguém foi eventualmente pago para as escrever, originalmente com o objetivo de divulgação, mas sempre com a perspectiva em mente de que, num futuro indeterminado, as suas palavras e designs ignorados se pudessem transfigurar em leitos improvisados, uma espécie de hotéis repensados para o mercado livre do século XXI, uma nova economia paralela em que o marketing milagrosamente dá à luz camas e, simultaneamente, admoesta para as terríveis consequências da indecisão ou da rejeição do conformismo.

     Mentiria se dissesse que compreendo o sofrimento deste homem. Não sei o que é dormir num molho de revistas, tive a sorte de nunca ter dormido uma noite mal passada sem saber que teria guarida na noite seguinte. Não obstante, foram muitas as vezes em que me dei ao luxo de me queixar de um futon demasiado fino, de um assento de autocarro pouco ergonómico ou de uma almofada demasiado mole para o meu pescoço burguês. Hoje à noite, voltarei a dormir num autocarro nocturno. Tenho de admitir, é um autêntico hotel de cinco estrelas quando comparado com a cela aberta em que este homem almeja ao descanso todas as noites. Nunca fui sem-abrigo mas, até este momento, fui sem-noção.

2

Higashi-ōdori 東大通, Niigata 新潟, 13h00 / 18h00

   Passou mais de uma semana desde que estive aqui da última vez. As copas das ginkgo, outrora frondosas, estão agora desnudas. Alguns espécimes esparsos desafiam o nudismo da estação, envergando as sobras de um outono que já partiu.

   Em frente à estação central, vejo um painel luminoso com letras vermelhas que marca a temperatura de -54° (estavam, na verdade, +12°!), demonstrando que até a tecnologia pode dominar o uso da hipérbole e do humor.

   À minha frente, há dois outdoors que me informam o percurso: o grande cartaz cilíndrico da Yoshinogawa 吉乃川, um dos principais produtores de nihonshu (日本酒, conhecido no ocidente como saquê) de Niigata, e o rosto emblemático da presidente do grupo APA Hotel, uma figura nacionalmente celebrada e internacionalmente odiada, e que infelizmente me continuará a perseguir em cartazes por esse arquipélago fora. Para quem não entendeu porque motivo a fotografia de uma proprietária de uma cadeia de hotéis me deixaria maldisposto, aqui fica um breve esclarecimento: Yukiko Motoya, esposa do fundador Toshio Motoya, é o rosto mais famoso da cadeia de hotéis APA, que, no ano de 2017, tomou a bizarra decisão de colocar em todos os seus quartos vários livros pseudo-académicos de cariz ultra-nacionalista e revisionista. Entre outras boçalidades risíveis, estes livros negam o massacre de Nanquim e qualquer responsabilidade do Japão pelas agressões aos países e territórios vizinhos durante a segunda guerra mundial. Tratou-se de uma decisão puramente ideológica e, à primeira vista, puro suicídio comercial. No entanto, embora a medida tenha provocado um boicote generalizado entre turistas coreanos e chineses (ou de outros territórios de língua chinesa), a decisão inspirou também um apoio generalizado dos sectores mais conservadores e nacionalistas da sociedade japonesa, que, em muitos casos, se revêm nas ideias postuladas pelos “livrecos” da família Motoya.

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Exemplar em inglês do livro Theoretical Modern History, um compêndio pseudo-académico de propaganda ultra-nacionalista colocado, em Japonês e Inglês em todos os quartos dos hotéis APA.

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Fumiko Motoya, a presidente da cadeia de hotéis APA e proprietária de um belíssimo chapéu (?).

Por volta das seis da tarde, regressei à avenida Higashi, onde fui confrontado com uma estridente onda de propaganda política. Em frente à estação, estava parada uma carrinha verde e branca com o nome do Partido Liberal Democrata (自民党, o partido do primeiro-ministro Abe Shinzō) estampado em todos os lados. No topo da carrinha, dois gigantes megafones metralhavam discursos in loco provenientes do interior do veículo em andamento, algo irónico tendo em conta que a mensagem propriamente dita parece não ter andado nada nas últimas décadas. Quem me conhece e sabe aquilo que o PLD representa, já sabe que não me detive para escutar as suas verborreias ocas sobre a defesa nacional, o nono artigo da constituição ou o sucesso “inquestionável” (entre aspas, sublinho – às vezes é preciso reiterar e sublinhar por extenso) das políticas de Abenomics (abreviatura de Abécula + Economics).

    Naquelas imediações, só havia uma carrinha com megafones que me interessava: a patusca carrinha branca do vendedor de batata doce. O vendedor ambulante de batata doce (ishiyaki’imo-ya 石焼き芋屋) é uma figura mítica no Japão inteiro. À imagem do que sucede com os amoladores em Portugal, no Japão, o vendedor de batata doce circula pelas ruas das localidades apregoando a sua chegada com um cantar melancólico e a capella, por vezes pré-gravado, que consiste nisto: ishi yaaaaaaaki imo, imo. Literalmente: batatas doces assaaaaadas em pedras, batatas! Aproximei-me da carrinha e comprei uma batata doce por 100 ienes, aproximadamente 0,70€. Confesso que estava um pouco velha e farinhenta, mas não tão farinhenta como o programa eleitoral do Partido Liberal Democrata, o que, num final de tarde de Dezembro, foi mais do que suficiente para me aquecer o corpo e a alma.  

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Ishiyaki’imo-ya 石焼き芋屋 , um vendedor ambulante de batata doce assada.

O Táxi (conto)

um conto de André Pinto Teixeira

    Enquanto carregava as minhas malas para a traseira do táxi, senti nelas o peso do mundo.

    Lancei um último olhar aos velhos muros da maternidade, onde conhecera nada mais que conforto e segurança. De olhos enxutos, chorei.

    Era madrugada, ainda. Pelas ruas passeavam-se apenas as criaturas do talvez e do quem sabe. Fazia frio.

    Antes de o táxi arrancar, perguntou-me o motorista:

    – É para o aeroporto, né?

    Aquiesci com um gesto silencioso. Não me sentia confortável na presença de estranhos; pelo menos não na claustrofobia de um automóvel.

    Desafiando os meus pensamentos, acrescentou o motorista:

    – Vai viajar?

    – Sim – menti. Mentia mas não enganava ninguém. Tentava, sem sucesso, trapacear-me a mim mesmo, convencer-me do carácter provisório da impermanência, embora julgasse conhecer bem a perenidade das coisas.

    Ganhei coragem e, na mais vaga das efemérides, emendei:

    – Vou para o norte trabalhar.  

    Apertou-se-me um nó na garganta ao pronunciar estas palavras, como se a anatomia se recusasse a responder à factualidade.

    Sentia-me biologicamente cativo de Cátia, mais precisamente da recordação das suas cinzas. Não a podia nem a queria ver mais; contudo, via-a em cada esquina, em cada raio de sol, em cada gota de chuva que me lavava o rosto. Ver ou não ver não cabe aos olhos decidir, mas ao espírito. E como posso eu, um pária, um pelintra sem salvação, determinar que Cátia não existe mais, se sem ela não pulsa a terra? Se vivem ainda céus e estrelas, lua e mar, não será isso prova irrefutável da sua continuidade? Por que devo eu apagar a chama quando esta mantém ainda o seu vigor?

    Interrompendo as minhas cogitações masoquistas, disse o motorista, em tom brando:  

    – Aceitar a transitoriedade do universo é uma decisão que todos temos de tomar mais cedo ou mais tarde.

    As suas palavras perfuraram o meu âmago com a acutilância de uma flecha.

    – Mas como? – Indaguei, contando estrelas no tejadilho.

    – Tens de ser fiel à tua resolução. Não dirás “Irei”; estarás lá. Não clamarás Ajudem-me! ; ajudarás. Não pensarás Morri; terás renascido.

    Com isto calou-se o motorista, dividindo a atenção entre a estrada e a rádio que lhe ensinava a interpretá-la.  

    O rosto vetusto do motorista, refletido no espelho retrovisor do automóvel, sugeria uma idade próxima dos sessenta, sessenta e cinco anos. A tez enrugada e as mazelas que lhe adornavam os olhos eram-me estranhamente familiares: lembravam-me do meu pai.

    Ah! O meu pai. Como pude eu abandoná-lo? O meu mentor de trabalho, namoro e respeito. O meu mais precioso objecto de adoração. Sim, o meu modelo. Poderia eu, com a mais airosa leviandade, espezinhá-lo e cuspir-lhe no rosto, e mesmo assim chamar-lhe “Pai”?

    – Abraça a transitoriedade da vida! – Exclamou o motorista. – Onde habitam somente os fantasmas da memória, não moram mais a piedade nem a reverência. Tudo é lamento e destruição no seu lar.

    Assim que o motorista terminou a sua pronunciação, um enorme clarão alvo iluminou a estrada, cegando-me. Perdi a noção de tudo. O táxi parecia manter a sua rota, flutuando todavia. Tentei sem sucesso abrir as portas do automóvel e fugir, mas estavam trancadas. Não conseguia mexer-me e a visão escasseava. Quero sair daqui. Pai. Mãe.

    – Não tenhas medo – instou uma voz poderosa, porém delicada e familiar. Desconhecia a sua proveniência, mas desde os dias indistintos do útero que a sua frequência me acompanhava.

    – Quem és tu?

    – Tu deveras me conheces. Sou aquele que te diz o trilho por onde deves seguir. Hoje escolheste o caminho bifurcado da indecisão. Caminhas sem caminhar: o teu coração é uma rocha imemorial. Ir não é uma questão de movimento mas de vontade. Liberta-te das algemas da saudade e faz do dever o ar de cada momento.

    – Mas como posso aceitar esse dever?

    Silêncio. Sibilante, qual rajada de vento, respondeu a voz:

    – Corta os laços que te prendem. Só quando as tuas unhas se banharem no escarlate do remorso é que poderás por fim viver.

    Aceitar ou não o dever: uma estrada bifurcada sem luz à vista. Sob a mais florestal escuridão, eu, um mero escravo, soube exactamente qual o caminho a seguir.

    Ao recuperar a visão, do táxi já nem sinal.

    Encontrava-me no átrio do aeroporto, em plena fila de check-in. Centenas de passageiros e outros desconhecidos rodeavam-me, sem que contudo a sua presença me causasse transtorno. Cada passageiro ia sendo atendido um a um, nos distintos balcões de cada companhia aérea.

    Trazia duas malas de viagem comigo, uma em cada mão. Embora volumosas, cada mala parecia pesar pouco mais que um grão de arroz. Não havia necessidade de as pousar no chão.

    Quando chegou a minha vez de fazer check-in, tirei da carteira os meus documentos e passei-os à funcionária atrás do balcão. No blazer do uniforme, ostentava uma placa com o seu nome: Cátia. Por um segundo, temi os fonemas da identidade. Mas nada sucedeu. Agradeci-lhe com um sorriso e um Obrigado curto, e estuguei o passo, rumo ao gate A21, onde o avião, qual vida, aguardava o vôo da glória transiente.   

‘Partha Sarathi Krishna Speaks The Bhagavad-gita To Arjuna’, um quadro de Dominique Amendola (2011).