Alvíssaras! – Um artigo de opinião no P3.

Serei simples e objectivo, short and sweet como se diz. Escrevi um artigo de opinião para o P3, do jornal Público… e foi publicado! O tema escolhido foi a representação da comunidade chinesa nos media portugueses. Decidi escrever sobre este tópico após um programa da SIC ter emitido um sketch com contornos xenófobos. Consciente de que a sinofobia subjacente a esse segmento é transversal a toda a sociedade portuguesa, achei por bem pôr por escrito os meus pensamentos e perspectiva, para que outros, nomeadamente aqueles que reproduzem esses preconceitos sem intenção, possam entender mais facilmente a natureza assimétrica da relação entre a maioria da população e a minoria chinesa (imigrante) ou lusa-chinesa (segunda/terceira geração).

Poderão aceder gratuitamente ao artigo no link abaixo:
https://www.publico.pt/2020/01/30/p3/cronica/ano-novo-estereotipos-velhos-1902299?fbclid=IwAR3-vndzISNHt40vT3bukbWf-zq_ML3D6l5DfxFcUR76ZwzWxCvassEZa7E

Boas leituras e, já agora, Feliz Ano do Rato! 新年快樂!恭喜發財!

INUBOSAKI 犬吠埼: UM FAROL PARA OS MESES VINDOUROS (Crónica de André Pinto Teixeira)

Nunca liguei particularmente ao ano novo. Muito menos às ambiciosas resoluções e declarações de novos começos que inundam as redes sociais entre o alegado nascimento do nazareno e a remoção das iluminações festivas. Aqui entre nós: eu nem gosto de ser o Grinch pós-modernista que acusa qualquer ocasião calendarizada de ser uma mera construção social, como se fosse impossível criar, ex nihilo, significado para conceitos inerentemente desprovidos de. Contudo, não me parece desmesurado afirmar que o calendário gregoriano ou, muito menos, o champanhe, não irão resolver as maleitas espirituais de que não soubemos tratar durante os meses precedentes.

    Os japoneses têm uma expressão para se referirem a promessas grandiosas que são imediatamente quebradas: mikka bōzu 三日坊主, literalmente “monge por três dias”. Ora, não querendo eu incorrer na constrangimento que acompanha a heterodoxia, neste ano decidi abster-me de quaisquer resoluções de ano novo. O meu único projecto pessoal para 2020 é ler menos livros, devotando mais tempo a obras mais extensas ao invés de investir simplesmente no número de obras lidas. Há anos que ando a iludir-me a mim mesmo de que iria ler O homem sem qualidades, de Robert Musil, dando o dito por não dito mês após mês. Pois bem, o melhor é mesmo pôr mãos ao trabalho, que é como quem diz mãos no Kindle, e começar efectivamente a ler o livro.

    Aproveitando as férias de ano novo e o tempo invulgarmente ameno, optei por passar o primeiro dia de 2020 em viagem. Há algumas semanas, tinha visto na televisão algumas imagens de um farol no este de Chiba que me fez lembrar paisagens da costa portuguesa. Estando eu em Chiba na passagem de ano, decidi dirigir-me à localidade em que poderia visitar o dito farol. Acordei cedo (pecado capital segundo os meus mandamentos pessoais) e apanhei o comboio na linha Sōbu 総武本線, rumo à estação terminal, a localidade de Chōshi 銚子.

     Entre Chiba e Chōshi, um trajecto de quase cem quilómetros, a arquitetura urbana da esfera metropolitana começa a dar lugar a paisagens bucólicas. As grandes estações enferrujadas e pachinkos abandonados são substituídos por apeadeiros desertos, arrozais e florestas densas. Nos campos, agricultores realizam queimadas a céu aberto. É difícil imaginar que o aeroporto de Narita, um dos mais movimentados e cosmopolitas do mundo, fica tão perto deste mundo rural onde a luz do néon nunca chegou.

     O comboio para Chōshi está longe de ir cheio, mas, mesmo assim, razoavelmente composto. No assento à minha esquerda, uma jovem descalça-se e coloca os pés nos bancos da frente. Leva ao colo um iPad, no qual tenta trabalhar nalgum tipo de documento, boicotada, porém, pelo grupo de estudantes barulhentos que galhofa alguns bancos atrás. Nos comboios draconianos de Tóquio, tamanha risota seria punida com a mais veemente agressividade passiva. Aqui, contudo, não há vagar para a intransigência. A vida faz-se devagar, e há que saber quando tolerar o aparente intolerável.

    Passadas duas horas, chego por fim à estação de Chōshi. No guichê turístico, recolho um pequeno panfleto que me conta que esta pequena cidade, de aproximadamente sessenta e cinco mil habitantes, é conhecida pela pesca e pela produção de molho de soja. Ademais, a sua longa costa, que inclui o ponto mais a leste na região de Kantō, permite a observação de diversas formas de vida marinha, incluindo golfinhos.

    Começo o passeio pela cidade dirigindo-me ao templo Enpuku 圓福寺, também conhecido como o templo de Iinuma-Kannon 飯沼観音, em honra da divindade budista da misericórdia. À entrada do templo, há dois santuários xintoístas, apanágio do sincretismo religioso japonês. Embora não partilhe de qualquer fé ou superstição relacionada com os kami, achei por bem dirigir-me ao santuário em jeito de ritual de início do ano, até porque o mau tempo havia gorado os meus planos de realizar a primeira visita do ano (hatsumōde 初詣) na passagem de ano propriamente dita. Antes do portão torii 鳥居 que marca o início do chamado “espaço sagrado”, está afixado um comunicado que insta os visitantes a respeitarem a etiqueta de “peregrinação” ao santuário: vénias ao entrar e ao sair, purificação ritual das mãos e da boca e oração segundo os preceitos ortodoxos. Regra geral, a existência de um aviso escrito de natureza prescritiva indica que o comportamento considerado desejável não tem sido a norma, suspeita que confirmei sem demora observando a nonchalance com que a maioria das pessoas passava pelo portão.

    Nos precintos do templo, havia comerciantes a vender bugigangas, antiquarias e bombas calóricas. À esquerda do pavilhão principal, estava um pagode quíntuplo e um buda esculpido em 1711. Um casal idoso ao meu lado comentava que o buda não estivera ali da última vez que tinham visitado. Talvez tivesse ido dar uma escapadinha a algum lado – não seria a primeira vez que o Buda desapareceria sem aviso prévio.

Grande Buda de Chōshi 銚子大仏. Atrás, o pavilhão principal do templo Enpuku. [todas as fotos neste texto são da minha autoria]

    Junto da estátua do buda, centenas de placas ema 絵馬 bamboleavam ao sabor do vento, embatendo gentilmente umas nas outras. Nas placas, liam-se desejos em diversas línguas, uns mais triviais, outros mais cobiçosos. Uma das placas pedia força para o povo de Hong Kong, um desejo que suscitou, noutros templos do Japão, uma onda de vandalismo sem precedentes. Felizmente, a placa aqui permanecia intacta.

[Notícia sobre o tema: https://www.scmp.com/news/asia/east-asia/article/3039244/chinese-tourists-blamed-after-vandals-deface-pro-hong-kong]

     Uma vez que o meu verdadeiro objectivo era visitar o farol, não me detive por mais tempo no templo e pus pés a caminho. Até à costa, eram cerca de seis quilómetros. Quanto mais caminhava, mais rural a paisagem. Por momentos, julguei estar perdido nas aldeias de Niigata que vim conhecendo ao longo destes três anos. Se me tivessem raptado e abandonado ali a meio da noite, juraria a pés juntos estar perto do monte Yahiko. A paisagem entre o templo de Kannon e a costa consistia essencialmente em três coisas: casas de madeira ao estilo de Shōwa, pardais e plantações de nabiças. Até na beira da estrada havia enrugadas folhas de nabiça, lembretes, quem sabe, dos tufões implacáveis que dizimaram as culturas locais no outono de 2019.  

    Antes de pôr pés na costa, cruzo-me com um apeadeiro que posso apenas descrever como uma das estações de comboios mais pequenas que já vi. Por ela, passa o serviço local Chōshi Dentetsu 銚子電鉄, que liga a estação central ao porto piscatório de Tokawa 外川漁港, na extremidade da península. Cruzando uma vereda estreita ladeada por pinheiros, chego finalmente à costa. Estava no cabo de Inubo 犬吠埼, literalmente o Cabo do Cão Ladrador.

A minúscula estação de Kimigahama 君ヶ浜, servida pela linha de caminhos de ferro Chōshi Dentetsu 銚子電鉄.

     À minha frente, as ondas do Pacífico acometem contra a costa com um vigor que ainda não havia presenciado. A maresia inundou-me imediatamente os sentidos, reavivando memórias de passeatas por Sesimbra, Sintra e Nazaré. À minha direita, o almejado farol, alvíssimo, nostálgico, familiar. No parque em frente à praia, uma família fazia um churrasco. As crianças lançavam papagaios juntas, correndo atrás deles com o embevecimento pueril que só a infância é capaz de manter vivo. Na praia, um pai paciente ajuda o filho amedrontado a molhar os pés nas pequenas ondas que vão e vêm. O menino grita a cada investida do oceano, mas o pai não desiste.

    Não desistiu o pai mas desisti eu de os observar, pelo que não sei qual o desfecho da sua breve lição sobre o mar. Os meus olhos estavam focados no farol, e o bom tempo apenas acicatava ainda mais o meu desejo de subir ao seu topo. Entre a base e o posto de observação entrepunham-se noventa e nove degraus íngremes. O corredor era estreito, pelo que qualquer entrecruzamento fortuito requeria um certo grau de autodomínio. Do topo, avistava-se não só o mar como também toda a cidade atrás dele. Ao longe, via-se igualmente moinhos eólicos girando maquinalmente segundo os caprichos do vento invernal.

Cabo de Inubo, na costa do Pacífico. Ao fundo, o farol homónimo. O farol foi construído em 1874. O topo ergue-se a 51,8 metros de altura.

    Ao descer o farol, fui confrontado com um monumento em pedra que confirmou a minha inexplicável sensação de afinidade entre as costas de Chōshi e de Portugal. Segundo estava inscrito no monumento, em 1993, curiosamente o ano do meu nascimento, havia sido celebrado um acordo de amizade entre o Cabo de Inubo e o Cabo da Roca. O nome de Portugal aparecia grafado como Portogal, gralha perfeitamente desculpável sabendo que, em japonês, o nome do país é pronunciado como po-ru-TO-ga-ru.

Monumento assinalando a germinação entre os cabos de Inubo e Roca, comemorado no ano de 1993.

    Após uma refeição ligeira, dirigi-me a um outro local que despertara a minha curiosidade: a rocha do Cão 犬岩. Foi desta rocha supostamente em forma de cão que nasceram as imensas lendas que deram nome ao Cabo do Cão Ladrador. Não se pode dizer que a rocha propriamente dita, com as suas alegadas orelhas e focinho caninos, inspire ou comova alguém, muito menos quem leia as teorias científicas sobre o processo de erosão que conduziu à sua formação. No caso desta rocha, não é nem a rocha nem a verdade sobre ela que interessam, mas o que ela nos diz sobre a imaginação humana. À imagem da famosa história do leal Hachikō na estação de Shibuya, reza a lenda que o cão do comandante militar Minamoto Yoshitsune (源 義経, 1159-1189) esperara na praia pelo seu dono durante sete dias e sete noites. Enquanto aguardava o regresso do seu amado dono, o cão nunca cessou de ladrar até ao dia em que se transformou numa rocha. Durante séculos, habitantes da aldeia portuária junto à rocha afiançavam ouvir o ladrar de um cão durante noites de tempestade. Esta é a génese do mito que, mais tarde, baptizaria toda a zona costeira como “Ladrar do Cão” (Inubo 犬吠), bem como o seu cabo homónimo.

    Ironicamente, no trajecto entre e de volta para o farol não vi um único cão, mas dezenas de gatos: em bancos, alpendres, telhados, em cemitérios familiares, comendo cabeças de peixe em ralos de esgoto e sabe-se lá mais onde. Quem sabe, um dia, não se insurja uma rebelião de gatos que, como última machadada ao regime caninista, declare a destruição total de qualquer monumento desses anos negros de subserviência gatesca, culminando com a demolição da rocha do cão pelo próprio regime felino. Se esta não fosse a história da civilização humana, até teria tido graça.

“Rocha do Cão” 犬岩, uma formação rochosa que deu origem a diversas lendas populares.

    Ciente de que todos os animais são iguais, mas uns mais iguais que outros, digo adeus ao porto de Tokawa e entro no liliputiano comboio que me levará de volta para a estação central. A meio do trajecto, o comboio fez uma paragem numa estação com dois nomes: Kasagami-Kurohae 笠上黒生 e Kaminoke-Kurohae 髪毛黒生. Segundo vim mais tarde a apurar, o nome oficial havia sido mudado para Kaminoke-Kurohae a 1 de Dezembro, contudo a familiaridade dos habitantes locais com o nome original levou a empresa a determinar que fossem incluídos ambos os nomes nos anúncios gravados e nos sinais informativos. Quando as portas da carruagem se abriram, uma criança abraçada pela avó quebrou o silêncio, gritando para o avô, que seguia em pé em frente à porta, “não vais sair aqui?”. Enlevados com a pureza da criança, todos os passageiros riram. Todos excepto um velho ao meu lado, que comentou com a mulher “É deficiente, ou quê?”, na mais grotesca demonstração de amargura de que tenho memória. O velho empregou a palavra kichigai, um termo que hoje em dia é considerado extremamente ofensivo e uma forma de bullying contra as pessoas com deficiência ou problemas de foro mental. A palavra, que significa algo como “maluco”, é actualmente um dos termos proibidos pelas entidades reguladoras da comunicação social japonesa. Não sei o que leva alguém a reagir à alegria contagiante de uma criança com tamanha maldade, especialmente não estando a bordo de um avião (diz-me quem és num voo longo, dir-te-ei quem és). Só sei que não acredito em karma mas ele existe, pois, quando o velho se preparava para sair do comboio, tropeçou na mochila de um passageiro musculado, estatelando-se aparatosamente contra a parede. Desta vez, tratando-se não da criança mas de um hércules contemporâneo, não se lhe ocorreu usar de novo da palavra kichigai. Decisão curiosa, de facto.

     Este incidente relembrou-me que o novo ano não irá misteriosamente apagar todas as fontes de angústia e frustração que, de vez em quando, nos perturbam a rotina. Porém, mesmo por mero acaso, reafirmou também a minha convicção de que colhemos o que semeamos, e é por isso mesmo que, neste ano, devemos continuar a tentar semear o melhor que temos para dar, seja em forma de texto, de gestos ou de afectos. Não será um ano fácil. Às vezes, iremos sentir-nos abandonados, como o cão de Minamoto Yoshitsune ladrando a sós na costa gélida. O importante é nunca perder o foco, nunca esquecer que, para lá do oceano impiedoso, há terra firme à nossa espera. E, conduzindo-nos a porto seguro, há um farol que nos guia. Gostava de ser portador da verdade absoluta e revelar-vos, com cem porcento de certeza, qual o verdadeiro significado do farol nesta metáfora. A verdade é que não faço a menor ideia. Para já, direi que é a virtude, a capacidade de determinar por nós mesmos o que é certo e errado, fazer juízos éticos sobre a natureza das coisas e como devemos agir. Para alguns, esse farol terá uma componente religiosa, para outros será secular, alicerçado no pensamento filosófico, no zeitgeist ou até mesmo no instinto. Seja qual for a vossa bússola, nunca percam o norte nos meses que se seguem. Um bom 2020 para todos vós! 明けましておめでとうございます!Akemashite omedetō gozaimasu!

André Pinto Teixeira
01.01.2020, Chōshi 銚子 (Japão)

Irrequietude sazonal (Crónica de André Pinto Teixeira)

António Variações tinha razão: só estamos bem aonde não estamos, só queremos ir para onde não vamos. À primeira vista, poderá parecer um paradoxo. No entanto, creio que qualquer alma errante, seja emigrada ou viajante, trata por tu a bizarra inquietude que ponteia os nossos dias, qual comichão súbita. Tal como a comichão física, quanto mais se a coça, mais violentos os sintomas.

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Single “Estou Além, de A. Variações (1982)

    Após quatro anos de vivência no Japão, constato que muitos dos meus hábitos anteriores se têm invertido. Quando residia em Lisboa, tentava, por todos os meios, que tudo ao meu redor fosse o mais japonês possível. No fundo, tratava-me a mim mesmo com o mesmo paternalismo de quem recria desajeitadamente o habitat natural de um animal agora em cativeiro. Tal como um animal nascido no jardim zoológico, eu, que não conhecia outra realidade que não a selva de plástico, pavoneava-me felicíssimo na presença dos visitantes, que iam tirando fotos para os seus instas e comentando “que cabeça tão grande” e outros elogios semelhantes. Alguns desses elogios traduziam-se em incentivos pecuniários, sobre os quais apenas posso protestar pela parcimónia.

    A minha rotina alfacinha passava frequentemente pela leitura de romances e outros livros japoneses nos transportes públicos. Lia tudo aquilo em que conseguia pôr as mãos, desde contos de Mishima até a livros sobre autópsias (um destes há de estar algures na casa dos meus pais). Em casa, procurava sofregamente por programas de televisão japoneses, os mesmos programas de variedade que agora me fazem revirar os olhos até vislumbrar o próprio córtex. Assistia a programas de viagens, apanhados e culinária, todos eles graças a páginas criadas por outros nipófilos ou imigrantes japoneses que procuravam formas de consumir o mesmo entretenimento a que tinham direito em casa.

    Hoje, no Japão, raramente vejo televisão japonesa, com a excepção das notícias e, ocasionalmente, de documentários. De vez em quando, leio um romance ou um livro de não-ficção, mas agora sou mais criterioso. Quando todos os livros à minha volta são japoneses, a lascívia pela página escrita deixa de fazer sentido. Agora, só deixo a minha mente copular com palavras que ache verdadeiramente meritórias, páginas pelas quais os meus antepassados não hesitassem em pagar um avultado dote. Graças à caridade de família e amigos, intercalo a leitura de livros japoneses e ingleses com a ocasional indulgência em língua portuguesa. Recentemente, aproveitando o Inverno crescentemente mais rigoroso, tenho passado mais tempo livre no interior do kotatsu 炬燵 lendo traduções de Tchekhov. O seu conto “A minha vida – relatos de um provinciano” (Моя жизнь), a respeito de um rapaz citadino que se move para o campo, apesar da pressão familiar para permanecer na urbe, marcou-se-me na carne como um ferro em brasa. Nunca uma escolha aleatória de literatura se havia revelado tão certeira quanto ao seu timing e preponderância contemporânea, e estamos a falar de um conto de 1896.  

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Capa russa de “A minha vida”,
de Anton Tchekhov.

    Quanto a música japonesa, escuto bastante, tal como antes. Infelizmente, a maioria dos artistas que oiço não cantam em japonês. Alias, a maioria compõem música instrumental, a mais universal e pura, porém menos universalizada forma de música.

    Estou convicto de que a globalização contribui grandemente para o acicate desta sensação de irrequietude que me assola periodicamente. Continuando no tema da música, não passa uma semana sem que Tom Jobim não fale comigo das colunas de um qualquer café ou livraria japoneses. Já o meu telemóvel cria uma espécie de barreira de forças entre o mundo exterior e o mundo que escolho habitar visual e auditivamente. Não são raras as ocasiões em que caminho pelas ruas deste país escutando podcasts portugueses discutindo as minuciosidades de um outro país, uma terra a dez mil quilómetros de distância, na costa de um outro oceano que não o Pacífico que aqui me vai pacificando o bicho de não saber estar.

    Ora, quem ler esta confissão da minha fragmentação interna, certamente proporá: “porque é que não voltas para casa?”. E eu respondo que voltarei. Um dia. Para já, não obstante os obstáculos e a hesitação sazonal, sinto que é aqui mesmo, neste país, que poderei fazer pleno uso de todo o meu potencial. Sem prolongar a minha experiência aqui, nunca poderei ser a pessoa que eu quero ser a longo prazo. Sei que esta escolha implica sacrifícios: adiar alguns projectos, visitar família e amigos apenas por curtos períodos e, eventualmente, um acumular de stress que não existira na terra-natal. No entanto, escolhi manter em mente as motivações (fossem elas quais fossem) que, há vários anos, me levaram a recriar um Japão de cartolina à minha volta. É verdade que o confronto entre expectativas e realidade cria, amiúde, um paradigma radicalmente diferente do almejado. De qualquer modo, neste momento é para mim vital manter acesa a chama que foi alumiando esta jornada, dissipando, passo a passo, os golfos de escuridão que me toldavam o futuro.

    Estou certo de que haverá gente que, por este desabafo, me acusará de ingratidão ou de não estar consciente do meu privilégio. Desenganem-se! Sei que o Japão é o sonho de muita gente, em muitos casos até mesmo amigos pessoais, cujos planos de vida foram abandonados precocemente. Não obstante, devemos ser capazes de reflectir criticamente sobre as nossas próprias vivências e discorrer sobre elas sem pudor, não só por honestidade mas também por uma questão de higiene emocional. Ao reconhecermos a existência de incertezas, podemos então mantê-las em quarentena, vedadas por um cordão sanitário, até que a sua existência deixe de pôr em perigo a nossa. Este é um processo desagradável, e que influencia negativamente a rotina imediata. Todavia, é só através deste curso regular de sintoma, diagnóstico, receita e posologia que sou capaz de assegurar a sustentabilidade do meu projecto de crescimento pessoal. Vez por outra, consigo contornar toda esta tráfega anímica pela adopção eficaz da profilaxia. Contudo, há que admitir a incúria própria, e, neste respeito, sou tão culpado como qualquer contumaz insolente (ou, quiçá, medroso), que deposita toda a sua fé no poder milagroso de Santa Ausência.

    Para que fique claro, estou aqui para ficar. Até quando? Logo se vê.

    Para já, a única preocupação na minha mente é escolher qual o santuário xintoísta aonde devo realizar a primeira visita (hatsumōde 初詣) de 2020…

André Pinto Teixeira
30.12.2019, Narashino 習志野

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Primeira visita do ano ao santuário Zenkouji 善光寺, em Nagano 長野 (2010). Em todo o país, milhões de japoneses acorrem aos santuários xintoístas na noite de 31 de Dezembro para 1 de Janeiro. Durante a primeira visita, lançam moedas aos ofertórios, realizando pedidos variados, como saúde e sucesso profissional ou académico no ano recém-chegado.

Quo vadis, Atami?

   Não é fácil escrever sobre Atami.

   Durante a década de 1980, esta pequena cidade na península de Izu foi uma das coqueluches da classe média da região de Kantō. Termas naturais todo o ano e praia no Verão fazem jus ao seu nome: literalmente, “mar quente”.

    No entanto, quem visita Atami nos dias de hoje não fica indiferente à miríade de hotéis abandonados, edifícios decrépitos e estabelecimentos nocturnos que em nada se coadunam com a imagem da Atami familiar dos anos 80. Esta deterioração da cidade iniciou-se com o período da “bolha”, em 1986. Até esse ano, o Japão registara níveis de crescimento económico notáveis, que resultaram num aumento extraordinário do poder de compra das famílias japonesas. A melhoria constante dos níveis de vida criou uma procura crescente por novas formas de recriação, a que cada vez mais famílias japonesas tinham acesso. Propelida por essa procura, a máquina imobiliária pôs o pé no acelerador, construindo nos montes e na costa de Atami resort atrás de resort, estância termal atrás de estância. Houve, contudo, uma enorme distância entre o futuro imaginado e a triste realidade que viria a assolar a cidade.

    Actualmente, um grande número de hotéis construídos no período de crescimento económico estão em perfeitas ruínas, reduzidos a artefactos de museu ao ar livre. Gosto de dizer que Atami congelou na era Shōwa, como que por criogenia cronológica, mas não é uma representação exacta da realidade. O tempo não parou; seguiu caminho e deixou a cidade para trás. Nas avenidas Heiwa e Ginza, as principais artérias perto da estação onde passa o comboio-bala, a maioria dos negócios fecha por volta das sete da tarde. Em Atami, toda a vida que se espera de uma cidade faz-se hoje exclusivamente entre as paredes dos hotéis que resistiram.  

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Hotel abandonado junto à marina de Atami.

    O esgotamento da popularidade passada obrigou a cidade de Atami a recorrer a outros chamarizes que promovam o turismo local. O MOA (Museu de Arte), embora modesto, é suficiente interessante para merecer uma visita. Outras das atrações turísticas, porém, pecam pela sua artificialidade. Uma das atrações mais badaladas é o Museu para Adultos Hihōkan (literalmente: Pavilhão das Joias Ocultas). Para aceder a esta constrangedora amálgama aleatória de arte shunga e artefactos fálicos há que subir a colina de teleférico. No interior da cabine, uma gravação prenhe de estática informa os passageiros de que estão a percorrer o trajecto de teleférico mais curto do Japão. A distância foi, de facto, curta, mas devo dizer que a vista da cidade, de um lado, e do oceano pacífico, do outro, não defraudou as minhas expectativas. Não estando particularmente interessado no dispendioso Hihōkan, fiquei-me pela vista e pelo castelo de Atami, uma estrutura sem qualquer carácter histórico construída para fins turísticos em 1956. Um turista recém-chegado ao país talvez se impressione com este monumento ersatz, mas o conhecimento da sua (não)história estilhaçou qualquer senso de encanto que pudesse ter. Mais um caso que comprova as vantagens ocasionais da ignorância.       

    Não obstante este meu curto epitáfio, Atami continua a ser um destino digno da fama de outrora, principalmente pelas suas paisagens naturais e pelas termas, regra geral com vista directa para o oceano pacífico. Ao longe, avista-se a ilha de Hatsushima, um ilhéu de 0,43 km² que subsiste somente do turismo e da pesca.

     Embora Atami não seja um nome que a maioria dos portugueses reconheça, a cidade celebrou, em 1990, uma geminação com a vila portuguesa de Cascais (para os interessados no tema, recomendo a leitura do livro ” Geminação Cascais-Atami: história de uma amizade” (2013), da autoria de Inês Carvalho Matos). No principal passadiço à beira-mar, conhecido, em inglês, como Atami Water Park, encontrei um monumento comemorativo indicando as várias cidades-irmãs de Atami, e no qual constava o emblema da vila de Cascais. Quem estava comigo não entendeu porque razão tirava fotos ao emblema, especialmente não tendo eu qualquer ligação com Cascais. Só quem emigra percebe este súbito nacionalismo bacoco que a distância alimenta…

Emblema de Cascais na marina de Atami.

    Após uma noite numa estância termal, um luxo que no Japão fica surpreendentemente em conta, dirijo-me para um restaurante a que os locais apelidam de “cantina”. Aqui, come-se comida caseira, sem pretensões de ostentação, a um preço mais que razoável. Os pratos são o mais familiares possível: arroz, sopa miso, diferentes tipos de peixe. Como acompanhamento, há também picles japoneses (tsukemono) e salada de batata. Em todas as mesas, um jarro de chá torrado.

     Uma das funcionárias que servia à mesa chamou a minha atenção. Naquele dia, havia no restaurante várias famílias com crianças. De cada vez que a funcionária interagia com alguma das crianças, os seus olhos brilhavam num misto de deleite e mágoa. Não sei explicar porque motivo detectei tristeza no seu olhar. Talvez esteja a atribuir-lhe emoções que simplesmente não estavam lá, quiçá tenha confundido cansaço com pesar. No entanto, quantas mais vezes a observava falando e brincando com as crianças dos clientes, mais essa impressão saía reforçada. Quando se aproximou da minha mesa, perguntando se queria mais chá, reparei que envergava um colar de prata representando quatro sílabas: ふみちゃん FU-MI-CHA-N; traduzindo: “pequena Fumi”. Decerto o nome de uma criança importante na vida daquela mulher. Não me cabe a mim extrapolar sobre as motivações para levar esse nome ao pescoço, especialmente quando ainda não lhe respondi se quero ou não mais chá, e ela ali presa ao ócio coagido, por certo começando a duvidar das minhas competências linguísticas.  Aceito um segundo copo de chá e agradeço com um gesto breve.

    Ao ver o colar, acreditei imediatamente que a empregada perdera uma filha. Nunca saberei se as minhas suspeitas eram justificadas. Talvez a tristeza nos seus olhos fosse mero reflexo da saudade, do sofrimento de estar o dia inteiro longe da criança que lhe habitara o ventre. Não obstante, continuo a crer que a empregada do restaurante personificava na perfeição a própria cidade de Atami. Ambas tiveram sonhos maiores que si próprios, sonhos que, por momentos, pareciam seguir sempre em frente a todo o gás, como o shinkansen que liga Tóquio à pequena cidade na costa do Pacífico. Como se nunca nada tivesse acontecido, rebentou a bolha e adeus paraíso, adeus prosperidade eterna, adeus Fumi-chan.

    Quem sabe, um dia, também os últimos habitantes de Atami que se lembram dos seus anos áureos venham a envergar colares com o seu nome gravado em kanjis de prata: 熱海.

André Pinto Teixeira
27.12.2019

Loja de souvenirs e produtos locais. Pendurados do tecto do lado esquerdo, peixes fugu.

Um comboio é um microcosmos (crónica de André Pinto Teixeira)

   Um comboio é um microcosmos. Entrar num comboio e observar atentamente o que se passa ao nosso redor é um pouco como examinar um barco em miniatura no interior de uma garrafa.

    O meu dia começou por volta das cinco e meia da manhã. A estação de Shinjuku estava invulgarmente deserta. Quem já pôs pés na mais caótica estação do arquipélago decerto não estará habituado a vê-la tão circulável, tão ampla, porém claustrofóbica à sua maneira. Não quero com isto passar a impressão de que não estivesse virtualmente ninguém nas plataformas; de facto, dezenas de passageiros formavam já filas ordeiras perfeitamente alinhadas com as marcas de cada carruagem pintadas no chão do cais. A sensação de espaço extra é uma mera resposta a asfixias passadas.  

     Após poucos minutos de espera, chega à plataforma o comboio com rumo a Chiba. As portas abriram-se como as margens do mar vermelho e por entre elas lá cavalgaram os salarymen exilados. Os espécimes mais hábeis acorreram de pronto aos lugares prioritários, pintando neles uma segunda demão semântica. Para meu alívio, consegui um lugar ao lado da porta. Decidi encarar o assento logrado como uma espécie de prenda de natal da cidade para mim. Tal como as festividades, a simpatia da metrópole é uma vez por ano e de pouca dura.

    Alguns lugares à minha direita, um ossan de máscara na cara beberica uma cerveja Asahi com a maior das naturalidades, um luxo que só as konbini 24/7 poderiam sustentar. O homem tresanda a mijo, fedor acicatado pelo sistema de aquecimento da carruagem. Anestesiado pela modorra, abstraio-me da urina e viro-me para a janela. O exterior permanece desligado, como se o mundo ainda não tivesse iniciado sessão.

    Em Ochanomizu, entram dois trintões (ou quarentões, a idade engana) de cabedal com penteados vistosos à Bōsōzoku 暴走族, uma sub-cultura motard gerada nas décadas de 1950-60. É a primeira vez que vejo acólitos deste movimento fora do parque de Yoyogi – uma realização que me deixou simultaneamente grato e desconsolado. Os dois homens prosseguem uma conversa animada lado a lado, cada um fitando a mesma direção, sem que nunca cheguem a trocar olhares; a sua cumplicidade reside algures no éter, facto ontológico contra o qual a geografia não possui argumentos.

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O estilo da contra-cultura Bōsōzoku 暴走族 (literalmente, ‘tribo dos aceleras’) persiste até aos dias de hoje enquanto nicho.

    O comboio passa eventualmente por Ryōgoku, a capital nacional do sumō, mas os verdadeiros lutadores são os peregrinos matinais, sejam de colarinho branco, azul ou cor-de-rosa, que repetem estoicamente o repetitivo exercício da pontualidade. O colarinho cor-de-rosa a que me refiro destaca-se principalmente nos distritos de Kabukicho e em Dogenzaka, mas não só. No interior deste mesmo comboio, descai do tecto um  anúncio a um calendário erótico da Weekly Playboy. Ao meu lado, um rapaz de nove dez anos fita, com aparente deleite, o cartaz XXX, enquanto mastiga uma sanduíche XXL da konbini. O cartaz promete, em caracteres garrafais, as mais kyūto e sekushii, juramento acompanhado por nomes como Takeda Reina e Yoshioka Riho.

     Para além do viagra visual, há também anúncios a depilação (tipologia número um), jogos de cartas colecionáveis e medicamentos para curar a ressaca. Para quem tenha dificuldade em conciliar tão díspar bombardeamento marketeiro, eis o busílis: estejam apresentáveis (isto é, rapados), joguem uma cartada se for preciso e não parem de emborcar canecas coagidas com o patrão. Tudo menos dizer que não (uma mensagem que, de certa forma, casa perfeitamente com as quimeras eróticas do referido calendário).

    Em Kinshichō, despeço-me da publicidade (a fama), e foco-me no proveito. Entre as portas entreabertas, vislumbro um dos poucos restaurantes de soba na plataforma que ainda restam, resquícios de uma era Shōwa de opulência e sonhos de crescimento económico infindo, sonhos que a crise da bolha de 1986-91 despedaçaria. Todavia, a efectiva morte da inocência de Shōwa deu-se já no ano 7 da era Heisei (1995), com os atentados no metro de Tóquio que vitimaram pelo menos doze pessoas, instalando um clima de insegurança nunca antes experienciado. O colapso da autopoese económica e do mito da segurança inviolável não foi, no entanto, o fim do bricabraque de Shōwa que pigmenta os cantos mais recônditos de Tóquio. Nem um culto pós-apocalíptico foi capaz de subverter a ideia lunática de que é possível ter um restaurante no meio de uma plataforma, onde só uma porção muito selecta da população terá acesso, muito menos interesse, às tigelas de massa ali servidas. Haja algo que não seja pelo lucro!

    Estou a meio do meu trajecto, e acabo de parar em Shin-Koiwa. Ao aproximar-se de cada estação, o comboio desacelera, produzindo um som constante, mecânico, que, por qualquer motivo, os meus ouvidos sonolentos interpretaram como BAR-TON-FINK. Acredito que muitos dos peregrinos a bordo se dirigissem aos seus empregos com o mesmo entusiasmo fátuo com que Milhouse e companhia subiram para as traseiras de uma carrinha para assistirem ao que julgavam ser um filme para adultos. No fundo, até não estavam enganados. O problema jaz nas expectativas, e estou certo que, para muitos destes commuters matinais, o filme será muito diferente do trailer cogitado.

    Nesse respeito, não posso dizer que estivesse em melhor posição. As minhas expectativas de assistir ao nascer do sol do interior do comboio continuavam defraudadas. Eram já 6:20 e do sol esperado vislumbrava-se somente um vago traço laranja no fundo do horizonte. Estou já em terras de Chiba, mas a visão pouco se alterou: é só betão atrás de betão atrás de betão. Desiludido com a paisagem exterior, volto a concentrar-me no carruagem-formigueiro, fingindo não estar também eu sujeito ao exame implacável do microscópio.

    À minha frente, uma jovem com pernas finíssimas brinca com o telemóvel (estará a descrever-me para uma crónica dela? Acautelai-vos dos espelhos, como dos idos de Março). Fico intrigado pela forma como a rapariga poisa o pé esquerdo no chão, enviesado num ângulo muito perto dos noventa graus, mas, aparentemente, ergonómico. Experimentei emular discretamente a posição do pé mas desisti de imediato: o contorcionismo só se aprende na infância.  Ao lado da rapariga, dois salarymen dormem mais tortos do que o seu pé prodigioso. Um deles babou-se para cima do seu porta-chaves gigante, um peluche de Buzz Lightyear com a etiqueta original ainda acoplada, comprovando que certos momentos não têm preço.

    Ao meu lado esquerdo, um homem dos seus cinquenta e poucos anos lê um pequeno romance em inglês. Não fui capaz de enxergar o título mas fui capaz de ler sorrateiramente a palavra murder, porventura um ultimato do universo para que deixasse de espiar as leituras alheias. 

    Após vinte e duas paragens distribuídas por pouco mais de uma hora, chego finalmente ao meu destino: Tsudanuma, na prefeitura de Chiba. São seis e meia da manhã e o frenesi já se instalou. No meio da multidão de sprinters, dois jovens vietnamitas debatem-se com um cartão Suica que insiste em não colaborar com a sua locomoção. À saída da estação, um velhote com um megafone balbucia um discurso improvisado sobre os perigos da China e as aspirações do secretário-geral Xi Jinping. O velhote está aqui quase todos os dias, de megafone na mão e coluna retro no chão, para garantir que ninguém passa fome de decibéis e, mais importante, de conservadorismo bafiento e obscurantista, não fosse o cavalheiro um representante do Partido da Realização da Felicidade. Este partido, cujo nome garante de imediato um mar de cenhos franzidos, está afiliado ao movimento espiritual Happy Science (Ciência da Felicidade), fundado em 1986 por Ryuho Okawa. Os membros do grupo acreditam que Okawa é uma encarnação de El Cantare, a suprema divindade desta ciência que é alegre mas aparentemente não poliglota. O partido, criado em 2009, tem como principal objectivo legitimar politicamente as concepções escatológicas do grupo religioso com respeito a um apocalipse nuclear despoletado pela Coreia do Norte e pela China. Para além da agenda abertamente anti-comunista e ultra-conservadora, o Partido da Realização da Felicidade (só de alguns) é abertamente anti-coreano, promovendo ideias xenófobas sobre os imigrantes coreanos no Japão (zainichi).  Creio que estes factos serão suficientes para dissipar qualquer réstia de simpatia pelo velhote do megafone.

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Propaganda, em português, sobre a teologia do grupo religioso Happy Science.

O discurso vácuo do velhote não é capaz de competir com a glória do sol que nasce por fim, banhando a prefeitura de Chiba com os seus acalentadores raios de luz. Quem precisa do fim do mundo numa coluna decrépita, quando temos Amaterasu, Hélio e Ra a servirem de colunas para a vida de geração após geração?

    A miríade de interacções que presenciei no comboio e na estação fizeram-me compreender a importância da observação atenta. Em Antropologia, valoriza-se a observação participante. Hoje, embora não tenha realizado exactamente um estudo antropológico, observei participando no sentido em que partilhava o mesmo sentido de movimento, o mesmo ar rarefeito, o mesmo cuidado incessante para não invadir com o olhar. Todos nós, antropólogos ou não, devemos reconhecer que para compreender o mundo há que primeiro desaprendê-lo, aceitando de braços abertos o olhar não filtrado que os bebés envergam sem qualquer esforço. Fosse a senda tão lisa quanto o papel! 

André Pinto Teixeira
24.12.2019, Tsudanuma 津田沼

Nascer do sol em frente à movimentada estação de Tsudanuma 津田沼駅 (Japan Railways), em Chiba.