Quo vadis, Atami?

   Não é fácil escrever sobre Atami.

   Durante a década de 1980, esta pequena cidade na península de Izu foi uma das coqueluches da classe média da região de Kantō. Termas naturais todo o ano e praia no Verão fazem jus ao seu nome: literalmente, “mar quente”.

    No entanto, quem visita Atami nos dias de hoje não fica indiferente à miríade de hotéis abandonados, edifícios decrépitos e estabelecimentos nocturnos que em nada se coadunam com a imagem da Atami familiar dos anos 80. Esta deterioração da cidade iniciou-se com o período da “bolha”, em 1986. Até esse ano, o Japão registara níveis de crescimento económico notáveis, que resultaram num aumento extraordinário do poder de compra das famílias japonesas. A melhoria constante dos níveis de vida criou uma procura crescente por novas formas de recriação, a que cada vez mais famílias japonesas tinham acesso. Propelida por essa procura, a máquina imobiliária pôs o pé no acelerador, construindo nos montes e na costa de Atami resort atrás de resort, estância termal atrás de estância. Houve, contudo, uma enorme distância entre o futuro imaginado e a triste realidade que viria a assolar a cidade.

    Actualmente, um grande número de hotéis construídos no período de crescimento económico estão em perfeitas ruínas, reduzidos a artefactos de museu ao ar livre. Gosto de dizer que Atami congelou na era Shōwa, como que por criogenia cronológica, mas não é uma representação exacta da realidade. O tempo não parou; seguiu caminho e deixou a cidade para trás. Nas avenidas Heiwa e Ginza, as principais artérias perto da estação onde passa o comboio-bala, a maioria dos negócios fecha por volta das sete da tarde. Em Atami, toda a vida que se espera de uma cidade faz-se hoje exclusivamente entre as paredes dos hotéis que resistiram.  

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Hotel abandonado junto à marina de Atami.

    O esgotamento da popularidade passada obrigou a cidade de Atami a recorrer a outros chamarizes que promovam o turismo local. O MOA (Museu de Arte), embora modesto, é suficiente interessante para merecer uma visita. Outras das atrações turísticas, porém, pecam pela sua artificialidade. Uma das atrações mais badaladas é o Museu para Adultos Hihōkan (literalmente: Pavilhão das Joias Ocultas). Para aceder a esta constrangedora amálgama aleatória de arte shunga e artefactos fálicos há que subir a colina de teleférico. No interior da cabine, uma gravação prenhe de estática informa os passageiros de que estão a percorrer o trajecto de teleférico mais curto do Japão. A distância foi, de facto, curta, mas devo dizer que a vista da cidade, de um lado, e do oceano pacífico, do outro, não defraudou as minhas expectativas. Não estando particularmente interessado no dispendioso Hihōkan, fiquei-me pela vista e pelo castelo de Atami, uma estrutura sem qualquer carácter histórico construída para fins turísticos em 1956. Um turista recém-chegado ao país talvez se impressione com este monumento ersatz, mas o conhecimento da sua (não)história estilhaçou qualquer senso de encanto que pudesse ter. Mais um caso que comprova as vantagens ocasionais da ignorância.       

    Não obstante este meu curto epitáfio, Atami continua a ser um destino digno da fama de outrora, principalmente pelas suas paisagens naturais e pelas termas, regra geral com vista directa para o oceano pacífico. Ao longe, avista-se a ilha de Hatsushima, um ilhéu de 0,43 km² que subsiste somente do turismo e da pesca.

     Embora Atami não seja um nome que a maioria dos portugueses reconheça, a cidade celebrou, em 1990, uma geminação com a vila portuguesa de Cascais (para os interessados no tema, recomendo a leitura do livro ” Geminação Cascais-Atami: história de uma amizade” (2013), da autoria de Inês Carvalho Matos). No principal passadiço à beira-mar, conhecido, em inglês, como Atami Water Park, encontrei um monumento comemorativo indicando as várias cidades-irmãs de Atami, e no qual constava o emblema da vila de Cascais. Quem estava comigo não entendeu porque razão tirava fotos ao emblema, especialmente não tendo eu qualquer ligação com Cascais. Só quem emigra percebe este súbito nacionalismo bacoco que a distância alimenta…

Emblema de Cascais na marina de Atami.

    Após uma noite numa estância termal, um luxo que no Japão fica surpreendentemente em conta, dirijo-me para um restaurante a que os locais apelidam de “cantina”. Aqui, come-se comida caseira, sem pretensões de ostentação, a um preço mais que razoável. Os pratos são o mais familiares possível: arroz, sopa miso, diferentes tipos de peixe. Como acompanhamento, há também picles japoneses (tsukemono) e salada de batata. Em todas as mesas, um jarro de chá torrado.

     Uma das funcionárias que servia à mesa chamou a minha atenção. Naquele dia, havia no restaurante várias famílias com crianças. De cada vez que a funcionária interagia com alguma das crianças, os seus olhos brilhavam num misto de deleite e mágoa. Não sei explicar porque motivo detectei tristeza no seu olhar. Talvez esteja a atribuir-lhe emoções que simplesmente não estavam lá, quiçá tenha confundido cansaço com pesar. No entanto, quantas mais vezes a observava falando e brincando com as crianças dos clientes, mais essa impressão saía reforçada. Quando se aproximou da minha mesa, perguntando se queria mais chá, reparei que envergava um colar de prata representando quatro sílabas: ふみちゃん FU-MI-CHA-N; traduzindo: “pequena Fumi”. Decerto o nome de uma criança importante na vida daquela mulher. Não me cabe a mim extrapolar sobre as motivações para levar esse nome ao pescoço, especialmente quando ainda não lhe respondi se quero ou não mais chá, e ela ali presa ao ócio coagido, por certo começando a duvidar das minhas competências linguísticas.  Aceito um segundo copo de chá e agradeço com um gesto breve.

    Ao ver o colar, acreditei imediatamente que a empregada perdera uma filha. Nunca saberei se as minhas suspeitas eram justificadas. Talvez a tristeza nos seus olhos fosse mero reflexo da saudade, do sofrimento de estar o dia inteiro longe da criança que lhe habitara o ventre. Não obstante, continuo a crer que a empregada do restaurante personificava na perfeição a própria cidade de Atami. Ambas tiveram sonhos maiores que si próprios, sonhos que, por momentos, pareciam seguir sempre em frente a todo o gás, como o shinkansen que liga Tóquio à pequena cidade na costa do Pacífico. Como se nunca nada tivesse acontecido, rebentou a bolha e adeus paraíso, adeus prosperidade eterna, adeus Fumi-chan.

    Quem sabe, um dia, também os últimos habitantes de Atami que se lembram dos seus anos áureos venham a envergar colares com o seu nome gravado em kanjis de prata: 熱海.

André Pinto Teixeira
27.12.2019

Loja de souvenirs e produtos locais. Pendurados do tecto do lado esquerdo, peixes fugu.

Um comboio é um microcosmos (crónica de André Pinto Teixeira)

   Um comboio é um microcosmos. Entrar num comboio e observar atentamente o que se passa ao nosso redor é um pouco como examinar um barco em miniatura no interior de uma garrafa.

    O meu dia começou por volta das cinco e meia da manhã. A estação de Shinjuku estava invulgarmente deserta. Quem já pôs pés na mais caótica estação do arquipélago decerto não estará habituado a vê-la tão circulável, tão ampla, porém claustrofóbica à sua maneira. Não quero com isto passar a impressão de que não estivesse virtualmente ninguém nas plataformas; de facto, dezenas de passageiros formavam já filas ordeiras perfeitamente alinhadas com as marcas de cada carruagem pintadas no chão do cais. A sensação de espaço extra é uma mera resposta a asfixias passadas.  

     Após poucos minutos de espera, chega à plataforma o comboio com rumo a Chiba. As portas abriram-se como as margens do mar vermelho e por entre elas lá cavalgaram os salarymen exilados. Os espécimes mais hábeis acorreram de pronto aos lugares prioritários, pintando neles uma segunda demão semântica. Para meu alívio, consegui um lugar ao lado da porta. Decidi encarar o assento logrado como uma espécie de prenda de natal da cidade para mim. Tal como as festividades, a simpatia da metrópole é uma vez por ano e de pouca dura.

    Alguns lugares à minha direita, um ossan de máscara na cara beberica uma cerveja Asahi com a maior das naturalidades, um luxo que só as konbini 24/7 poderiam sustentar. O homem tresanda a mijo, fedor acicatado pelo sistema de aquecimento da carruagem. Anestesiado pela modorra, abstraio-me da urina e viro-me para a janela. O exterior permanece desligado, como se o mundo ainda não tivesse iniciado sessão.

    Em Ochanomizu, entram dois trintões (ou quarentões, a idade engana) de cabedal com penteados vistosos à Bōsōzoku 暴走族, uma sub-cultura motard gerada nas décadas de 1950-60. É a primeira vez que vejo acólitos deste movimento fora do parque de Yoyogi – uma realização que me deixou simultaneamente grato e desconsolado. Os dois homens prosseguem uma conversa animada lado a lado, cada um fitando a mesma direção, sem que nunca cheguem a trocar olhares; a sua cumplicidade reside algures no éter, facto ontológico contra o qual a geografia não possui argumentos.

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O estilo da contra-cultura Bōsōzoku 暴走族 (literalmente, ‘tribo dos aceleras’) persiste até aos dias de hoje enquanto nicho.

    O comboio passa eventualmente por Ryōgoku, a capital nacional do sumō, mas os verdadeiros lutadores são os peregrinos matinais, sejam de colarinho branco, azul ou cor-de-rosa, que repetem estoicamente o repetitivo exercício da pontualidade. O colarinho cor-de-rosa a que me refiro destaca-se principalmente nos distritos de Kabukicho e em Dogenzaka, mas não só. No interior deste mesmo comboio, descai do tecto um  anúncio a um calendário erótico da Weekly Playboy. Ao meu lado, um rapaz de nove dez anos fita, com aparente deleite, o cartaz XXX, enquanto mastiga uma sanduíche XXL da konbini. O cartaz promete, em caracteres garrafais, as mais kyūto e sekushii, juramento acompanhado por nomes como Takeda Reina e Yoshioka Riho.

     Para além do viagra visual, há também anúncios a depilação (tipologia número um), jogos de cartas colecionáveis e medicamentos para curar a ressaca. Para quem tenha dificuldade em conciliar tão díspar bombardeamento marketeiro, eis o busílis: estejam apresentáveis (isto é, rapados), joguem uma cartada se for preciso e não parem de emborcar canecas coagidas com o patrão. Tudo menos dizer que não (uma mensagem que, de certa forma, casa perfeitamente com as quimeras eróticas do referido calendário).

    Em Kinshichō, despeço-me da publicidade (a fama), e foco-me no proveito. Entre as portas entreabertas, vislumbro um dos poucos restaurantes de soba na plataforma que ainda restam, resquícios de uma era Shōwa de opulência e sonhos de crescimento económico infindo, sonhos que a crise da bolha de 1986-91 despedaçaria. Todavia, a efectiva morte da inocência de Shōwa deu-se já no ano 7 da era Heisei (1995), com os atentados no metro de Tóquio que vitimaram pelo menos doze pessoas, instalando um clima de insegurança nunca antes experienciado. O colapso da autopoese económica e do mito da segurança inviolável não foi, no entanto, o fim do bricabraque de Shōwa que pigmenta os cantos mais recônditos de Tóquio. Nem um culto pós-apocalíptico foi capaz de subverter a ideia lunática de que é possível ter um restaurante no meio de uma plataforma, onde só uma porção muito selecta da população terá acesso, muito menos interesse, às tigelas de massa ali servidas. Haja algo que não seja pelo lucro!

    Estou a meio do meu trajecto, e acabo de parar em Shin-Koiwa. Ao aproximar-se de cada estação, o comboio desacelera, produzindo um som constante, mecânico, que, por qualquer motivo, os meus ouvidos sonolentos interpretaram como BAR-TON-FINK. Acredito que muitos dos peregrinos a bordo se dirigissem aos seus empregos com o mesmo entusiasmo fátuo com que Milhouse e companhia subiram para as traseiras de uma carrinha para assistirem ao que julgavam ser um filme para adultos. No fundo, até não estavam enganados. O problema jaz nas expectativas, e estou certo que, para muitos destes commuters matinais, o filme será muito diferente do trailer cogitado.

    Nesse respeito, não posso dizer que estivesse em melhor posição. As minhas expectativas de assistir ao nascer do sol do interior do comboio continuavam defraudadas. Eram já 6:20 e do sol esperado vislumbrava-se somente um vago traço laranja no fundo do horizonte. Estou já em terras de Chiba, mas a visão pouco se alterou: é só betão atrás de betão atrás de betão. Desiludido com a paisagem exterior, volto a concentrar-me no carruagem-formigueiro, fingindo não estar também eu sujeito ao exame implacável do microscópio.

    À minha frente, uma jovem com pernas finíssimas brinca com o telemóvel (estará a descrever-me para uma crónica dela? Acautelai-vos dos espelhos, como dos idos de Março). Fico intrigado pela forma como a rapariga poisa o pé esquerdo no chão, enviesado num ângulo muito perto dos noventa graus, mas, aparentemente, ergonómico. Experimentei emular discretamente a posição do pé mas desisti de imediato: o contorcionismo só se aprende na infância.  Ao lado da rapariga, dois salarymen dormem mais tortos do que o seu pé prodigioso. Um deles babou-se para cima do seu porta-chaves gigante, um peluche de Buzz Lightyear com a etiqueta original ainda acoplada, comprovando que certos momentos não têm preço.

    Ao meu lado esquerdo, um homem dos seus cinquenta e poucos anos lê um pequeno romance em inglês. Não fui capaz de enxergar o título mas fui capaz de ler sorrateiramente a palavra murder, porventura um ultimato do universo para que deixasse de espiar as leituras alheias. 

    Após vinte e duas paragens distribuídas por pouco mais de uma hora, chego finalmente ao meu destino: Tsudanuma, na prefeitura de Chiba. São seis e meia da manhã e o frenesi já se instalou. No meio da multidão de sprinters, dois jovens vietnamitas debatem-se com um cartão Suica que insiste em não colaborar com a sua locomoção. À saída da estação, um velhote com um megafone balbucia um discurso improvisado sobre os perigos da China e as aspirações do secretário-geral Xi Jinping. O velhote está aqui quase todos os dias, de megafone na mão e coluna retro no chão, para garantir que ninguém passa fome de decibéis e, mais importante, de conservadorismo bafiento e obscurantista, não fosse o cavalheiro um representante do Partido da Realização da Felicidade. Este partido, cujo nome garante de imediato um mar de cenhos franzidos, está afiliado ao movimento espiritual Happy Science (Ciência da Felicidade), fundado em 1986 por Ryuho Okawa. Os membros do grupo acreditam que Okawa é uma encarnação de El Cantare, a suprema divindade desta ciência que é alegre mas aparentemente não poliglota. O partido, criado em 2009, tem como principal objectivo legitimar politicamente as concepções escatológicas do grupo religioso com respeito a um apocalipse nuclear despoletado pela Coreia do Norte e pela China. Para além da agenda abertamente anti-comunista e ultra-conservadora, o Partido da Realização da Felicidade (só de alguns) é abertamente anti-coreano, promovendo ideias xenófobas sobre os imigrantes coreanos no Japão (zainichi).  Creio que estes factos serão suficientes para dissipar qualquer réstia de simpatia pelo velhote do megafone.

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Propaganda, em português, sobre a teologia do grupo religioso Happy Science.

O discurso vácuo do velhote não é capaz de competir com a glória do sol que nasce por fim, banhando a prefeitura de Chiba com os seus acalentadores raios de luz. Quem precisa do fim do mundo numa coluna decrépita, quando temos Amaterasu, Hélio e Ra a servirem de colunas para a vida de geração após geração?

    A miríade de interacções que presenciei no comboio e na estação fizeram-me compreender a importância da observação atenta. Em Antropologia, valoriza-se a observação participante. Hoje, embora não tenha realizado exactamente um estudo antropológico, observei participando no sentido em que partilhava o mesmo sentido de movimento, o mesmo ar rarefeito, o mesmo cuidado incessante para não invadir com o olhar. Todos nós, antropólogos ou não, devemos reconhecer que para compreender o mundo há que primeiro desaprendê-lo, aceitando de braços abertos o olhar não filtrado que os bebés envergam sem qualquer esforço. Fosse a senda tão lisa quanto o papel! 

André Pinto Teixeira
24.12.2019, Tsudanuma 津田沼

Nascer do sol em frente à movimentada estação de Tsudanuma 津田沼駅 (Japan Railways), em Chiba.

Entrevista acidental (crónica de André Pinto Teixeira)

   Não é todos os dias que vemos um anúncio a um sequestro. Faço-me explicar…

   Por volta das onze e meia de segunda-feira, entrei no comboio da linha Echigo 越後線 rumo a Niigata central, percurso banal que havia percorrido em centenas de outras segundas-feiras. Entrei na carruagem e sentei-me mecanicamente, qual autómato executando sequências de zeros e uns. Saquei do Kindle na esperança de colmatar a saudade com mais uma injecção de literatura portuguesa. Ora, o safado do dispositivo (que é para não lhe chamar cabrão) não queria arrancar. Fosse um carro e teria dito “mas ainda ontem atestei o depósito!”.

    Sem palavras que me alimentassem (livros impressos 1, e-readers 0!), virei-me para a publicidade que descaía do tecto do comboio. Esperava ver mais anúncios estrambólicos a clínicas de depilação, universidades desconhecidas ou um qualquer best-seller sobre dietas rápidas. Porém, a publicidade que encontrei hoje foi muito diferente do esperado. Para já, a começar pelo design, sóbrio, algo antiquado, como se tivesse sido criado em PowerPoint, mas, ao mesmo tempo, profundamente soturno. Alinhadas horizontalmente, estavam as fotografias de várias pessoas, cujos nomes estavam indicados em baixo. As fotos pareciam ter sido tiradas nos anos sessenta e setenta. Intrigado, virei-me finalmente para os kanji a negrito que atravessavam o cartaz publicitário: 北朝鮮人権侵害問題啓発週間 ou, em longo português, Semana de Consciencialização para as Infracções de Direitos Humanos pela Coreia do Norte. O cartaz relembrou-me de uma campanha semelhante que vira na biblioteca da universidade faz alguns meses [cartaz abaixo]. Nesse cartaz, vê-se uma fotografia de Megumi Yokota 横田めぐみ, uma jovem de treze anos sequestrada por navios coreanos na costa de Niigata, em 1978. Megumi enverga um quimono com um padrão axadrezado vermelho e branco. Está de pé em frente a um edifício de madeira com as mãos colocadas sobre o colo, neve atrás de si e na sua pele. À direita de Megumi, letras garrafais exclamam VAMOS TRAZER-TE DE VOLTA, SEGURAMENTE!, promessa que nem mesmo o ponto de exclamação teria a certeza de poder fazer.

Cartaz institucional denunciando o desparecimento de Megumi Yokota e promovendo a consciencialização para o problema dos sequestros de cidadãos japoneses por navios norte-coreanos.

    Para além de Megumi, houve, entre 1977 e 1983, dezenas de outras vítimas de sequestro, sendo dezassete casos oficialmente reconhecidos pelo governo japonês.

    À saída da estação, cruzei-me com um grupo de voluntários que distribuíam panfletos sobre a questão dos sequestros. Encaminhei-me na sua direcção e recebi prontamente uma cópia. A maioria dos voluntários, com a excepção de duas jovens galhofeiras, demonstrava um certo grau de autodomínio, cientes de que um sorriso nos seus semblantes poderia causar expressões bem distintas nos semblantes alheios.

     Segundo o panfleto, a Coreia do Norte afirma que Megumi terá falecido no ano de 1994. No entanto, a veracidade das declarações é ainda hoje questionada pelo governo japonês e pela família da vítima, que vê no activismo político uma última escapatória.

    Felizmente (palavra infeliz neste contexto), algumas da vítimas foram capazes de regressar ao Japão com vida (que vida?), como foi o caso de Kaoru Hasuike 蓮池 薫 e a sua namorada Yukiko Okudo 奥土 祐木子. Em 1978, com apenas vinte e um anos de idade, Kaoru foi sequestrado por navios norte-coreanos na costa de Kashiwazaki (prefeitura de Niigata), juntamente com Yukiko. Após vinte e quatro anos de submissão ao regime da família Kim, o casal pôde finalmente regressar a casa em 2002. Kaoru é hoje professor de línguas japonesa e coreana numa universidade em Kashiwazaki, sendo também proprietário de uma empresa de tradução.

    Finda a leitura, pus o panfleto no bolso e segui para o décimo terceiro andar do edifício Bandaijima, onde me reuni com o senhor Xu. Da sala de reuniões, via-se ao fundo a cordilheira Iide 飯豊山地, os seus cumes polvilhados de neve. Mais perto da cidade, as rudes chaminés de uma fábrica cuspiam fumo branco como se anunciassem habemus papam após um demorado concílio dos operários. Em Niigata, não tivemos papa nem medo do desastre de Fukushima graças às montanhas que separavam as duas prefeituras, conta-me Xu, num misto de nostalgia e stress pós-traumático.

    Após a reunião, desci até ao porto, onde o rio Shinano saúda o mar do Japão. O cruzeiro que faz a travessia para a ilha de Sado tinha acabado de partir. No meio do rio, um enorme navio servia de base para trabalhos de rotina que homens de macacão levavam a cabo com o rigor metódico que caracteriza o povo japonês. Os homens bradavam breves instruções e agradecimentos uns para os outros, valsando entre ‘ōrai‘s (podes vir) e obrigados.

     O céu azul e a paisagem do porto convidaram-me a ficar mais um pouco. Sem esperanças de um desfecho diferente, experimentei ligar o Kindle para ver se o catraio correspondia aos meus comandos. E, para meu espanto, sem que tivesse de gritar talitha cumi, o aparelho-biblioteca decidiu voltar à vida, enchendo-me de uma alegria que nem Jairo compreenderia – Jairo nunca teve um e-reader.

    Preparava-me para me sentar num banco à beira-rio quando sinto um toque no ombro atrás de mim. Virando-me, vejo um homem vestido à pescador estendendo as mãos abertas com um panfleto.

    “Deixaste cair isto?”, perguntou-me. Era, de facto, o panfleto sobre os sequestros que recebera na estação. Pedi desculpa pelo incómodo e agradeci-lhe a simpatia. No entanto, o homem não tinha intenção de me deixar ir prontamente.

    “Coitados dos pais da Megumi. Nunca mais foram os mesmos”.

    Sentámo-nos os dois no mesmo banco. Ao contrário do que acontece frequentemente por estas bandas, o homem não fez caso do meu rosto ou do meu sotaque estrangeiros. O panfleto parecia ter despertado nele um ímpeto narrativo, uma vontade inquebrável de levar a palco um monólogo escrito há muito, porém nunca declamado, e para o qual a identidade do público era absolutamente irrelevante. O homem, cujo nome não se me ocorreu perguntar, conhecia pessoalmente a família de Megumi. Segundo contou, a sua irmã mais velha frequentava a mesma escola que a rapariga sequestrada.

    “Naquela altura, tínhamos imenso medo de ir à praia”, confessou. “Mas eventualmente esquecemo-nos do que se passou. Esquecemo-nos dela”.

    Aquiesci sem saber o que mais dizer. Todavia, sem esperar o meu sinal verde, o homem prosseguiu:

    “Estes panfletos são muito bonitos mas não resolvem nada. Nós sabemos que eles foram levados, quem precisam de ser consciencializados são os coreanos [chōsenjin 朝鮮人]. Em frente à câmara municipal, puseram umas faixas bonitinhas a anunciar que o governo não vai descansar até que os sequestrados voltem todos. Mas eu já não acredito…”.  

    Subitamente, um corvo balofo aterrou aos nosso pés e começou a grasnar.

    “Corvo de merda” tartamudeou o homem, batendo palmas para enxotar o pássaro. O corvo não parecia impressionado pela sua ameaça percussiva, mas eventualmente acedeu ao pedido e pululou para longe do nosso banco.

    O homem sacou de um cigarro e começou a fumá-lo de imediato. Pelo cheiro, percebi de imediato que era marijuana, cuja simples posse resulta em penas pesadas no Japão. Estivesse em Portugal e provavelmente não me teria importunado, mas devo confessar que fiquei algo nervoso – não pela substância em si, mas pela possibilidade de detenção que pairava no meu pensamento.

    “Fumas disto?” inquiriu.

    “Não no Japão” retroquei, sacando do homem uma gargalhada de barriga cheia.

    Queria ouvir mais sobre os sequestros. Queria saber mais sobre a relação do homem com a família de Megumi. Queria fazer-lhe mil e uma perguntas e vê-las todas respondidas, como se gravássemos um episódio de ’60 Minutes’ e eu fosse o entrevistador. Para minha infelicidade, de um barco em frente veio outro homem vestido à pescador, pedindo ao meu entrevistado que viesse ajudá-lo na embarcação. O faz de conta ao jornalismo tinha chegado ao fim. Antes de se ir embora, porém, o homem perguntou-me:

    “Posso ficar com isto?”. Apertava o panfleto com força entre a fuligem das mãos. Embora quisesse ter levado o panfleto comigo, não tive como recusar-lhe o pedido, não depois de me ter revelado a tristeza que carregava consigo desde 1978. Acedi ao seu pedido e agradeci-lhe pelos minutos de conversa.

    “Ora essa. Vá, cuida de ti” disse-me, desaparecendo para dentro do barco.     

André Pinto Teixeira
16.12.2019, Niigata 新潟.

Vista do rio Shinano (信濃川) no porto de Niigata. À direita, o ferry boat que faz a travessia para a ilha de Sado. Para lá do navio, está o mar do Japão. A conversa descrita neste texto teve lugar a poucos metros daqui, num banco de jardim à beira-rio.
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Um mapa do Japão indicando o local de sequestro das vítimas. Em Niigata, estão indicadas cinco vítimas, correspondendo os caracteres vermelhos aos nomes de vítimas que foram capazes de regressar ao país-natal.

Adeus, Kaneko (crónica de André Pinto Teixeira)

    Durante quarenta anos, alunos e professores, vizinhos e desconhecidos, virgens e habitués congregavam-se em frente a uma velha casa paralela ao campus da universidade. Em contraste com os apartamentos em volta, aquela casa não aderia à cronologia vigente, para sempre enclausurada nos pátios nostálgicos da era Shōwa.  Para os olhos mais desatentos, poderia parecer uma casa banal, não particularmente bem mantida, como evidenciavam as suas telhas desgastadas e as paredes comidas pelo tempo.

    No entanto, o olfacto logo desfazia as dúvidas a que a visão não sabia responder. A peregrinação que engarrafava a rua do Kaneko todos os dias devia-se ao seu célebre prato de katsudon (かつ丼, tigela de arroz com panados). Era um negócio familiar na verdadeira acepção da palavra. O avô controlava as operações por detrás do balcão, acompanhado por membros mais novos da família e, ocasionalmente, por estudantes que buscavam meios de se sustentarem. O restaurante ficava no rés-do-chão e a família residia no primeiro andar.

     Os meus primeiros meses em Niigata foram marcados por idas sucessivas ao Kaneko. A primeira vez que entrei no estabelecimento, não fiquei propriamente impressionado. Era exíguo, dividido em duas áreas: mesa baixa em tatami e balcão. Em frente à porta, havia pneus de carros empilhados e enferrujadas latas de aguarrás e de outros materiais que nunca deveriam estar perto de uma refeição (salvo em Jonestown). As paredes interiores refletiam a débil luz dos candeeiros, luzidias de óleo. O tempo de espera era geralmente longo, e nenhum dos funcionários exibia a cortesia e prestabilidade a que o Japão nos habitua.

    Sentei-me ao balcão, sanduichado entre dois idosos que devoravam as suas tigelas com gosto. No Kaneko, o menu estava escrito em caligrafia acima do balcão. Cada tira de papel amarelo com caracteres negros correspondia a um prato, todos eles à base de arroz com panados, acompanhados por sopa miso e tofu frio. A escolha limitava-se à quantidade de panados, ao tamanho da tigela e aos temperos utilizados. Pedi o katsudon clássico. O prato tardava em chegar, e a exasperação começava a desenhar traços no meu rosto. O avô, decerto notando a minha ansiedade, comentou, enquanto cortava um lombo de porco, que a boa comida demora a ser confecionada. Foi nesse momento que comecei verdadeiramente a adorar este restaurante. O meu afecto pelo espaço aumentou ainda mais quando experimentei o famoso katsudon.

    Semana após semana, sozinho ou acompanhado, continuei a visitar o Kaneko até ao verão. Foi também um dos primeiros estabelecimentos onde almocei com a Y. No outono, após alguns meses longe de Niigata, estava ansioso por matar saudades do meu restaurante favorito. Para meu choque, descubro, ao passar pela rua, que a velha casa do Kaneko já lá não estava. As telhas quebradas, as paredes sujas, a comida que sabe a quarenta anos de devoção, tudo isso tinha desaparecido qual chama numa vela derretida. O antigo local de peregrinação de milhares de pessoas era agora o parque de estacionamento de uma imobiliária. Algumas semanas depois, o parque de estacionamento deu lugar a andaimes e a fundações para o que aparentemente virá a ser mais um complexo de apartamentos. À frente dos andaimes e dos sinais de aviso, há agora uma casa de banho portátil, onde os homens das obras, homens que porventura se deleitaram com os pratos do Kaneko, se aliviam da dor de construir sobre os restos de um passado que ainda está tão presente para tanta gente.

    Não sei porque motivo o restaurante fechou. Falta de clientela não foi com certeza. Aqui entre nós, quarenta anos a cozinhar o mesmo prato é obra, uma autêntica maratona corrida com esforço e dedicação. E, tal como no desporto, ninguém deve ser obrigado a continuar uma corrida por pressão externa. Todos nós, clientes, que tivemos o privilégio de assistir a esta maratona, seja nos primeiros quilómetros ou quilómetros finais antes da meta (meta que julgávamos não existir), devemos estar gratos, mas não ressentidos. Talvez o Kaneko não regresse nunca mais. Talvez a sua receita única caia no oblívio. Talvez um dia não reste ninguém que se lembre deste restaurante alguma vez ter existido. Haja o que houver, o Kaneko terá sempre um lugar especial na minha autobiografia ainda por escrever.

    A tigela está vazia. Não há mais arroz na panela para a encher. É hora de lavar os pratos e os pauzinhos e apagar a luz. Adeus, Kaneko.       

André Pinto Teixeira
14.12.2019, Niigata 新潟 

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Tigela de Tonkatsu do restaurante Kaneko (extinto em 2018), acompanhado por sopa miso, tofu frio e picles de nabo.
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A casa onde operava o restaurante Kaneko no rés-do-chão (Cidade de Niigata, Ala Oeste). Após a demolição total da casa, este terreno está agora ocupado por andaimes e fundações para um futuro prédio de apartamentos.
O interior do restaurante. Em cima do balcão, atrás do qual o chefe e os ajudantes preparavam o katsudon, estão afixadas folhas de papel amarelas escritas a caligrafia. Essas tiras constituíam a totalidade do menu do restaurante.
Fonte: twitter oficial, inactivo desde 2018 ( https://twitter.com/tonnkane )

Divagando pelas ruas do Japão – pt.2 (crónica de André Pinto Teixeira)

1

Ikebukuro, Tóquio (東京都・池袋), 22h10.

    Ikebukuro é um bairro que não me diz muito mas em que dou por mim vezes sem conta, normalmente com propósitos muito específicos. Desta vez, estou a caminho do terminal de autocarros, de onde partirei de volta para Niigata.

    Desembarco no cais da linha Marunouchi 丸ノ内線. A esta hora, as carruagens do metro já vão mais descomprimidas, mas a presença ausente dos salarymen bêbados parece diluir a sensação de espaço.  

    Dez da noite significa não só mais gente com uma bezana como também mais sem-abrigo. Os sem-abrigo japoneses destacam-se pela sua discrição. Pedinchar não é prática comum, talvez pelo simples facto de que a caridade espontânea seja igualmente invulgar. Não quero, com isto, promover a ideia de que não existe solidariedade neste país. Há de haver, algures, enterrada em pilhas babilónicas de burocracia. De qualquer modo, não me parece exagerado afirmar que o género de interações que vemos em qualquer metro ou comboio do mundo, do peregrino que caminha de lugar em lugar abanando o copinho dos trocos, “tenha a bondade de me auxiliar”, seguido de olhares de desprezo e da ocasional moedinha e um “deus a abençoe”, não terão lugar neste lugar.

    Perto da saída da estação, presencio o momento em que uma rapariga de uniforme quase tropeça na cabeça de um sem-abrigo, que dormia no chão da estação em posição fetal. A rapariga contou à amiga do lado o quão perto esteve de entornar o seu bubble tea com tapioca e o quão sortuda fora por ter conseguido manter intacto o seu sagrado elixir de leite e diabetes. Foi um momento que enclausurou na perfeição as desigualdades que habitam uma megalópole como Tóquio. Por um lado, temos adolescentes de iPhone em riste e com poder de compra suficiente para beber chás açucarados que custam em média seiscentos ienes ou mais (5,2€). Por outro lado, um sem-abrigo idoso, à vista de todos, contudo invisível, jazendo adormecido sobre um molho de revistas grátis sobre telemóveis, telemóveis que ele decerto nunca possuiu e nunca irá comprar. O facto de estas revistas de distribuição gratuita existirem sugere que alguém foi eventualmente pago para as escrever, originalmente com o objetivo de divulgação, mas sempre com a perspectiva em mente de que, num futuro indeterminado, as suas palavras e designs ignorados se pudessem transfigurar em leitos improvisados, uma espécie de hotéis repensados para o mercado livre do século XXI, uma nova economia paralela em que o marketing milagrosamente dá à luz camas e, simultaneamente, admoesta para as terríveis consequências da indecisão ou da rejeição do conformismo.

     Mentiria se dissesse que compreendo o sofrimento deste homem. Não sei o que é dormir num molho de revistas, tive a sorte de nunca ter dormido uma noite mal passada sem saber que teria guarida na noite seguinte. Não obstante, foram muitas as vezes em que me dei ao luxo de me queixar de um futon demasiado fino, de um assento de autocarro pouco ergonómico ou de uma almofada demasiado mole para o meu pescoço burguês. Hoje à noite, voltarei a dormir num autocarro nocturno. Tenho de admitir, é um autêntico hotel de cinco estrelas quando comparado com a cela aberta em que este homem almeja ao descanso todas as noites. Nunca fui sem-abrigo mas, até este momento, fui sem-noção.

2

Higashi-ōdori 東大通, Niigata 新潟, 13h00 / 18h00

   Passou mais de uma semana desde que estive aqui da última vez. As copas das ginkgo, outrora frondosas, estão agora desnudas. Alguns espécimes esparsos desafiam o nudismo da estação, envergando as sobras de um outono que já partiu.

   Em frente à estação central, vejo um painel luminoso com letras vermelhas que marca a temperatura de -54° (estavam, na verdade, +12°!), demonstrando que até a tecnologia pode dominar o uso da hipérbole e do humor.

   À minha frente, há dois outdoors que me informam o percurso: o grande cartaz cilíndrico da Yoshinogawa 吉乃川, um dos principais produtores de nihonshu (日本酒, conhecido no ocidente como saquê) de Niigata, e o rosto emblemático da presidente do grupo APA Hotel, uma figura nacionalmente celebrada e internacionalmente odiada, e que infelizmente me continuará a perseguir em cartazes por esse arquipélago fora. Para quem não entendeu porque motivo a fotografia de uma proprietária de uma cadeia de hotéis me deixaria maldisposto, aqui fica um breve esclarecimento: Yukiko Motoya, esposa do fundador Toshio Motoya, é o rosto mais famoso da cadeia de hotéis APA, que, no ano de 2017, tomou a bizarra decisão de colocar em todos os seus quartos vários livros pseudo-académicos de cariz ultra-nacionalista e revisionista. Entre outras boçalidades risíveis, estes livros negam o massacre de Nanquim e qualquer responsabilidade do Japão pelas agressões aos países e territórios vizinhos durante a segunda guerra mundial. Tratou-se de uma decisão puramente ideológica e, à primeira vista, puro suicídio comercial. No entanto, embora a medida tenha provocado um boicote generalizado entre turistas coreanos e chineses (ou de outros territórios de língua chinesa), a decisão inspirou também um apoio generalizado dos sectores mais conservadores e nacionalistas da sociedade japonesa, que, em muitos casos, se revêm nas ideias postuladas pelos “livrecos” da família Motoya.

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Exemplar em inglês do livro Theoretical Modern History, um compêndio pseudo-académico de propaganda ultra-nacionalista colocado, em Japonês e Inglês em todos os quartos dos hotéis APA.

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Fumiko Motoya, a presidente da cadeia de hotéis APA e proprietária de um belíssimo chapéu (?).

Por volta das seis da tarde, regressei à avenida Higashi, onde fui confrontado com uma estridente onda de propaganda política. Em frente à estação, estava parada uma carrinha verde e branca com o nome do Partido Liberal Democrata (自民党, o partido do primeiro-ministro Abe Shinzō) estampado em todos os lados. No topo da carrinha, dois gigantes megafones metralhavam discursos in loco provenientes do interior do veículo em andamento, algo irónico tendo em conta que a mensagem propriamente dita parece não ter andado nada nas últimas décadas. Quem me conhece e sabe aquilo que o PLD representa, já sabe que não me detive para escutar as suas verborreias ocas sobre a defesa nacional, o nono artigo da constituição ou o sucesso “inquestionável” (entre aspas, sublinho – às vezes é preciso reiterar e sublinhar por extenso) das políticas de Abenomics (abreviatura de Abécula + Economics).

    Naquelas imediações, só havia uma carrinha com megafones que me interessava: a patusca carrinha branca do vendedor de batata doce. O vendedor ambulante de batata doce (ishiyaki’imo-ya 石焼き芋屋) é uma figura mítica no Japão inteiro. À imagem do que sucede com os amoladores em Portugal, no Japão, o vendedor de batata doce circula pelas ruas das localidades apregoando a sua chegada com um cantar melancólico e a capella, por vezes pré-gravado, que consiste nisto: ishi yaaaaaaaki imo, imo. Literalmente: batatas doces assaaaaadas em pedras, batatas! Aproximei-me da carrinha e comprei uma batata doce por 100 ienes, aproximadamente 0,70€. Confesso que estava um pouco velha e farinhenta, mas não tão farinhenta como o programa eleitoral do Partido Liberal Democrata, o que, num final de tarde de Dezembro, foi mais do que suficiente para me aquecer o corpo e a alma.  

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Ishiyaki’imo-ya 石焼き芋屋 , um vendedor ambulante de batata doce assada.

O Táxi (conto)

um conto de André Pinto Teixeira

    Enquanto carregava as minhas malas para a traseira do táxi, senti nelas o peso do mundo.

    Lancei um último olhar aos velhos muros da maternidade, onde conhecera nada mais que conforto e segurança. De olhos enxutos, chorei.

    Era madrugada, ainda. Pelas ruas passeavam-se apenas as criaturas do talvez e do quem sabe. Fazia frio.

    Antes de o táxi arrancar, perguntou-me o motorista:

    – É para o aeroporto, né?

    Aquiesci com um gesto silencioso. Não me sentia confortável na presença de estranhos; pelo menos não na claustrofobia de um automóvel.

    Desafiando os meus pensamentos, acrescentou o motorista:

    – Vai viajar?

    – Sim – menti. Mentia mas não enganava ninguém. Tentava, sem sucesso, trapacear-me a mim mesmo, convencer-me do carácter provisório da impermanência, embora julgasse conhecer bem a perenidade das coisas.

    Ganhei coragem e, na mais vaga das efemérides, emendei:

    – Vou para o norte trabalhar.  

    Apertou-se-me um nó na garganta ao pronunciar estas palavras, como se a anatomia se recusasse a responder à factualidade.

    Sentia-me biologicamente cativo de Cátia, mais precisamente da recordação das suas cinzas. Não a podia nem a queria ver mais; contudo, via-a em cada esquina, em cada raio de sol, em cada gota de chuva que me lavava o rosto. Ver ou não ver não cabe aos olhos decidir, mas ao espírito. E como posso eu, um pária, um pelintra sem salvação, determinar que Cátia não existe mais, se sem ela não pulsa a terra? Se vivem ainda céus e estrelas, lua e mar, não será isso prova irrefutável da sua continuidade? Por que devo eu apagar a chama quando esta mantém ainda o seu vigor?

    Interrompendo as minhas cogitações masoquistas, disse o motorista, em tom brando:  

    – Aceitar a transitoriedade do universo é uma decisão que todos temos de tomar mais cedo ou mais tarde.

    As suas palavras perfuraram o meu âmago com a acutilância de uma flecha.

    – Mas como? – Indaguei, contando estrelas no tejadilho.

    – Tens de ser fiel à tua resolução. Não dirás “Irei”; estarás lá. Não clamarás Ajudem-me! ; ajudarás. Não pensarás Morri; terás renascido.

    Com isto calou-se o motorista, dividindo a atenção entre a estrada e a rádio que lhe ensinava a interpretá-la.  

    O rosto vetusto do motorista, refletido no espelho retrovisor do automóvel, sugeria uma idade próxima dos sessenta, sessenta e cinco anos. A tez enrugada e as mazelas que lhe adornavam os olhos eram-me estranhamente familiares: lembravam-me do meu pai.

    Ah! O meu pai. Como pude eu abandoná-lo? O meu mentor de trabalho, namoro e respeito. O meu mais precioso objecto de adoração. Sim, o meu modelo. Poderia eu, com a mais airosa leviandade, espezinhá-lo e cuspir-lhe no rosto, e mesmo assim chamar-lhe “Pai”?

    – Abraça a transitoriedade da vida! – Exclamou o motorista. – Onde habitam somente os fantasmas da memória, não moram mais a piedade nem a reverência. Tudo é lamento e destruição no seu lar.

    Assim que o motorista terminou a sua pronunciação, um enorme clarão alvo iluminou a estrada, cegando-me. Perdi a noção de tudo. O táxi parecia manter a sua rota, flutuando todavia. Tentei sem sucesso abrir as portas do automóvel e fugir, mas estavam trancadas. Não conseguia mexer-me e a visão escasseava. Quero sair daqui. Pai. Mãe.

    – Não tenhas medo – instou uma voz poderosa, porém delicada e familiar. Desconhecia a sua proveniência, mas desde os dias indistintos do útero que a sua frequência me acompanhava.

    – Quem és tu?

    – Tu deveras me conheces. Sou aquele que te diz o trilho por onde deves seguir. Hoje escolheste o caminho bifurcado da indecisão. Caminhas sem caminhar: o teu coração é uma rocha imemorial. Ir não é uma questão de movimento mas de vontade. Liberta-te das algemas da saudade e faz do dever o ar de cada momento.

    – Mas como posso aceitar esse dever?

    Silêncio. Sibilante, qual rajada de vento, respondeu a voz:

    – Corta os laços que te prendem. Só quando as tuas unhas se banharem no escarlate do remorso é que poderás por fim viver.

    Aceitar ou não o dever: uma estrada bifurcada sem luz à vista. Sob a mais florestal escuridão, eu, um mero escravo, soube exactamente qual o caminho a seguir.

    Ao recuperar a visão, do táxi já nem sinal.

    Encontrava-me no átrio do aeroporto, em plena fila de check-in. Centenas de passageiros e outros desconhecidos rodeavam-me, sem que contudo a sua presença me causasse transtorno. Cada passageiro ia sendo atendido um a um, nos distintos balcões de cada companhia aérea.

    Trazia duas malas de viagem comigo, uma em cada mão. Embora volumosas, cada mala parecia pesar pouco mais que um grão de arroz. Não havia necessidade de as pousar no chão.

    Quando chegou a minha vez de fazer check-in, tirei da carteira os meus documentos e passei-os à funcionária atrás do balcão. No blazer do uniforme, ostentava uma placa com o seu nome: Cátia. Por um segundo, temi os fonemas da identidade. Mas nada sucedeu. Agradeci-lhe com um sorriso e um Obrigado curto, e estuguei o passo, rumo ao gate A21, onde o avião, qual vida, aguardava o vôo da glória transiente.   

‘Partha Sarathi Krishna Speaks The Bhagavad-gita To Arjuna’, um quadro de Dominique Amendola (2011).

Gargalhada no velório

    Foi graças ao meu tio que vim a compreender o significado de tempo.

    A notícia da sua morte causou pouco ou nenhum espanto na família, que a cada semana o via cada vez mais magro, menos humano, menos vontade de lutar no seu olhar arredado. Agora já não sofre mais, ia-se ouvindo ao longo do velório, um pouco por todos os cantos da casa da sua juventude, de óbito agora, e para sempre.  

    Ali, naquele final de tarde ameno, os olhares fugidios dos transeuntes pouco mais discerniam que um segundo andar no Restelo como tantos outros, à antiga, com vista para o estádio onde jogava o Belenenses, o verdadeiro Belenenses, gigante do futebol mundial e universal, como relembrava o meu tio sempre que a ocasião era oportuna, que é como quem diz sempre que havia uma bica, um cigarrinho e Smoke on the Water na aparelhagem, bem alto, como ditam as regras. No segundo andar o perfume a vida, omnipresente, todavia sem pulsar.   

    No velório tinham aparecido umas poucas dezenas de pessoas entre familiares, amigos e conhecidos, o que era compreensível tendo em conta a hora  a que havia sido anunciada a fatalidade, assim do nada, sem notificação prévia, devem achar que as pessoas não têm mais que fazer que segurar no telemóvel, aguardando dia e noite por notícias infaustas do reino de acolá.

    Dentre as ditas dezenas de pessoas podiam contar-se uns quantos morcegos velhos, figuras tenebrosas que eram ou haviam sido parte da família, mas que ninguém parecia saber bem quem eram. Homens de bigode na sua maioria; aspecto suspeito e poucas palavras, decerto fãs de Eurico Cebolo e dos seus romances. Enquanto um dos morcegos mordiscava um rissol de camarão seco questionei-me se o meu tio não teria rido à gargalhada se alguém declamasse o Matavam as Freiras Grávidas no seu velório. 

    Dos presentes, a minha família foi dos poucos e saudosos exemplos de prontidão no chegar. Antes sequer de haver uma hora e um local para o velório já lá estava a minha mãe, como que por teletransporte ou por meu pai chauffeur conduzida, das duas a mais verosímil, e com um ai filha como é que isto foi acontecer ao teu homem, muitos beijos, abraços e lágrimas começou a agradável histeria do costume; uma histeria que me era já familiar, mas não em tamanho grau.  

    Quando muitos já se preparavam para abandonar o velório, uma senhora dos seus cinquenta anos que acompanhara a minha tia durante toda a cerimónia pediu que se reunissem todos os presentes para alguns minutos de reflexão. O seu discurso obeso sobre o valor da vida e das energias positivas tresandava a ideias new age que de novo nada tinham. Não obstante, a ocasião era solene, e já que todos pareciam absortos na dita reflexão, porque não dar o braço a torcer e fazer o mesmo, considerei. Semicerrei os olhos, mantendo um mais aberto que o outro por mera precaução, e tentei relaxar. Não estava a ter muito sucesso.  

    Ouvi então a minha própria voz instigar vamos lá, uma memória do meu tio, uma memória, qualquer coisa, mas nada, zero. Não éramos próximos, raramente nos víamos e pouco mais partilháramos que conversa de circunstância.

    Com essa pressa toda ainda lhe pões a piroca no umbigo, e um riso jocoso, o dele, agora mudo, e o meu, de pé em pleno velório. O riso, a armadilha, os jogos de palavras, a anedota, o humor. Um humor simples, directo e sem pretensões, como se quer num ambiente de folia e sadia javardice. O meu primeiro impulso foi conter o riso, para quê porém se da contenção o meu tio faria pouco?

    Se um maneta é um homem sem mãos e um perneta um homem sem pernas, como se chama um homem sem punhos, perguntou-me uma vez, com toda a seriedade de um honoris causa, ao que eu respondi um aleijado, e essa foi a primeira vez que eu, o meu eu dez anos mais novo, deixei o meu tio sem argumentos. Geralmente, as perguntas do meu tio faziam-me tremer de ansiedade, como se estivesse prestes a saltar sobre um precipício negro breu.  Mas dessa vez fui superior ao medo, vergando o seu chiste tosco com uma resposta ainda mais tosca, contudo adequada. 

    Quando reabri os olhos encontrava-me no ponto de onde partira rumo à lembrança, mas à minha volta só restava a ubiquidade. Descanse a sua alma, proferiu a mulherzinha do new age, e com ela dezenas de pessoas a abandonar o Restelo, onde restavam apenas os elos débeis da recordação e do perfume, ainda o perfume.

    O tempo, em português masculino feminino em alemão, é simultaneamente masculino, feminino e nenhum dos dois; carrasco, madrasta e muito mais, ao contrário do meu tio, que não é mais.    

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Eurico Augusto Cebolo, “Matavam as freiras grávidas”
https://musicarteloja.wixsite.com/musicarte/romances-de-eac
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A família Fisher e respectivos companheiros enterram Nate, o mais velho de três irmãos, em SIX FEET UNDER (2001-2005), série dramática criada por Alan Ball e produzida pela HBO.

TERAPIA, um conto de André Pinto Teixeira

Ozzy Osbourne cantando o refrão de “Therapy”, dos Infectious Grooves ((C) 1991 SONY BMG MUSIC ENTERTAINMENT)

Lá vai antónio silva pronto para mais um dia da graça do senhor que lhe dá oxigénio alegria e mais que tudo um sustento regular e mensalmente conversível em receita de imposto sobre o consumo que irá um dia financiar escolas hospitais e pontes conquanto deus não decida alocar uma parte dos dividendos a um pobre político rosa ou laranja ou de qualquer outra cor sinónima de chico-espertismo pelo seu inestimável serviço de dois a quatro anos à nação lusitana que chora os incêndios à sexta-feira e no sábado vai para o pinhal fumar um cigarro cuja beata fica esquecida entre a caruma e o solo desse portugal  ressequido e sedento por uma mudança que por casmurrice nunca alcança ao contrário de antónio silva que alcança sempre tudo quanto almeja não fosse ele um bravo guerreiro do exército de cristo empunhando a espada da fé na mão direita e a sagrada escritura também na mão direita pois a esquerda é histórica e italianamente sinistra e portanto inapropriada para a interminável cruzada contra o bode baphomet e suas concupiscências caprinas por muito apetitosas que possam ser regadas com um tinto de borba bem encorpado como se quer e como é que vai tudo caro tó silva pergunta o padre marílio manso ao telefone e antónio responde na sua voz afável e bucólica que vai tudo na mesma como a lesma que é maneirismo popular conhecido de todos menos de marílio manso que pergunta qual lesma e antónio meio abasbacado limita-se a ofegar para cima do auscultador que é o melhor remédio para a senilidade alheia não estivesse o prior perto dos oitenta e por falar nisso já tratou do bailarico dos reformados caro tó e antónio confirma que sim sôr prior esteja descansado que já temos tudo em ordem temos rissóis e empadas da dona celeste e frango assado do zé do churrasco  vai ser um banquete como nunca antes visto melhor que quarenta dias de maná e ouvindo tal promessa escapou do padre uma tosse súbita que o coagiu a advertir antónio para não blasfemar homem e de pronto benzeu-se o prevaricador arrependido encolhido na sua carapaça de onde expele um dramático ai que desgraça veio a ser de mim vosso servo ao que o padre marílio mansas desculpou que não era preciso tanta telenovela que aqui não temos claquetes vá lá homem vá à sua vidinha e até domingo até domingo mas no domingo não se levantou antónio silva pois não pregara olho a noite inteira com pensamentos imundos a corromperem-lhe a imaginação e as palmas suadas de suas mãos aguardando a semente desperdiçada de onã quais demónios belial e  pazuzu e de cada vez que vomitava o pecado logo se lho voltava a fermentar na adega de sodoma e gomorra de onde antónio quer fugir sem olhar para trás ao contrário da mulher de lot mas não chega a abandonar o perímetro da cidade onde habitam as três causas da sua desgraça nada mais nada menos que três belas virgens da paróquia que para além do rosto imaculado eram também exemplos incomparáveis de castidade e a castidade é a chave para o reino de deus mas não tenhas medo somos todos pecadores e não hei de ser eu a atirar a primeira pedra a não ser que passe por aqui o presidente da junta aquele grandessíssimo aldrabão foi só promessas em tempo de eleição e assim que subiu para o poleiro cagou na cabeça do povo como se fosse um pombo e pela conversa poderíamos concluir que antónio está na óbvia presença do padre porém o raciocínio humano sendo o melhor raciocínio do mundo natural até prova em contrário é facilmente levado a acreditar em histórias sem sentido e foi por isso que me tornei psicólogo conta o interlocutor de antónio silva também ele silva mas tiago de nome que se diz próprio mas que partilha com milhares de outros tiagos sem rosto pelo que as gentes o conhecem como o bailarino e é exactamente para o bailarico que ele vai para ver se ainda dá um pezinho no coreto e uma mão no chouriço que é a onde a mão deve estar não achas e antónio mais rosado que um presunto lá conta a história inefável da sua depravação mencionando com a devida celeridade que as mulheres eram a causa da sua desgraça mas tiago logo refuta o irmão emprestado argumentando que esse era um crime pelo qual nenhuma mulher deveria ser culpabilizada pois as mulheres são apenas a imagem mental que o homem pinta da próprio desgraça sendo o seu verdadeiro originador inevitavelmente o homem percebes pá mas conta lá quem são elas e como é que as vês na tua mente e não mintas que mentir é feio tá bem e antónio papagaia a pergunta do irmão ainda sem saber bem se deve mesmo dar carta branca à laringe mas logo apaga o fogo da censura e discorre que a natacha é uma miúda muito inocente e ingénua com um corpo franzino e pele pálida de quem está sempre com tensão baixa e para além disso ela é incrivelmente fechada em si mesma mas tudo isso acaba por contribuir para o seu charme característico que é muito diferente do da verónica uma miúda aparentemente extrovertidíssima mas de uma inesperada timidez presente-ausente que se expressa nas formas ameninadas do seu corpo um pouco à semelhança do que sucede com a natacha porém com uma diferença patente nos seus lábios fonte da beleza de todo o universo e é com ela que sonho quando estou calmo e nos meus sonhos ela recebia os meus afectos na mais estática das apatias sem nunca trocarmos palavra mas quando estou mais agitado como no domingo passado renego a verónica e rendo-me à violência da priscila com quem já explorei mentalmente todas as possibilidades matemáticas do cosmos e como é que haveria de a esfumar do meu pensamento quando ela satisfaz todos os requisitos que busco numa divindade pergunto-me retoricamente porém o grande problema reside na sua personalidade real que é desde já a única das três que vim a conhecer e a verdade é que a priscila é falsa mesquinha e tão apartada da minha existência quanto a terra está de plutão e esse afastamento total demonstra o quão falíveis são as minhas fantasias loucas pois a priscila que me atrai existe apenas dentro de mim e isso frustra-me mesmo sabendo que a fonte dessa angústia reside somente em mim e sabes às vezes gostava de ser omnipotente nem que fosse por um só dia como já me aconteceu em sonhos tipo era só estalar os dedos e lá estávamos os dois eu e ela caminhando lado a lado beijando-nos e fazendo amor na maior das acalmias sem os gemidos inverosímeis da pornografia mas quando acordo de tais visões nocturnas sinto-me devastado pela realidade e pela impossibilidade dos enquadramentos plausíveis e isto não passa não passa nunca e antónio soluça mas tiago oferece-lhe um ombro fraterno e garante-lhe que seria presunçoso partir do pressuposto que um deus todo-poderoso estaria interessado no que fazes com o teu pau e a brutalidade das palavras de tiago tresanda a sacrilégio contudo insiste o psicólogo-irmão que se há algo em que tens de refletir é a tua forma de veres as mulheres que são pessoas como tu com sentimentos e vidas para além dos corpos em que pensas quando te tocas.

Marischa Slusarski, ‘The Ecstasy of St. Onan’ (1999)

Salaryman & Sk8ter Boi (crónica)

23:30, estação de Tóquio.

Preparava-me para entrar no autocarro de regresso a Niigata quando presenciei um dos momentos mais bizarros da minha vida no Japão.

Um skater entrou a alta velocidade na estação de Tóquio, e começou a fazer acrobacias no átrio. De repente, de um elevador próximo surgiu um homem de negócios com quem o skater não conseguiu evitar a colisão. O homem perdeu o balanço mas não caiu. Ciente da sua irresponsabilidade, o rapaz desmontou o skate e começou a caminhar atrás do homem de negócios, dizendo-lhe que queria falar para pedir desculpas. Para surpresa minha e de outros utentes da estação, sem nada que o desse a entender, o homem começou a correr a todo o gás para fora da estação, perseguido de perto pelo skater. Quem visse a situação sem contexto julgaria que o homem de negócios era o infractor. O homem continuou a correr em círculos numa espécie de circle pit a solo, demonstrando pouca ou nenhuma noção do seu entorno. Sem outro lugar para onde fugir, o homem regressou para o interior da estação, onde gritou a altos pulmões “deixa-me em paz!”. O skater parecia genuinamente perplexo, mas também algo resignado, uma vez que o homem estava evidentemente embriagado.

Sem grande cerimónia, seguiu cada um seu caminho. A partida fez-se sem qualquer vénia ou gesto de reconciliação. Felizmente para o skater, não é fácil guardar rancor numa metrópole destas dimensões; os vilões que nos saúdam hoje voltam a ser estranhos no dia seguinte.

foto de André Pinto.
23h30, nas imediações da estação de Tóquio.

‘O trilho de fogo’ अग्निपथ – um poema de Harivansh Rai Bachchan [traduzido do Hindi]

Sobre o autor: Harivansh Rai Bachchan (हरिवंश राय बच्चन, 1907-2003) foi um poeta indiano natural do estado de Maharashtra. É considerado um dos nomes maiores da literatura em Hindi, tendo sido distinguido, em 1986, com In 1986, o prémio Padma Bhushan. Deixou um vasto espólio literário, do qual constam obras intemporais, como a antologia ‘Madhushala’ मधुशाला, publicada em 1935.

Bachchan on a 2003 stamp of India
O poeta Harivansh Rai Bachchan num selo de 2003.

Sobre a obra: o poema ‘O trilho de Fogo’ (Agnipath अग्निपथ) terá sido originalmente publicado entre 1973 e 1988. Os seus versos icónicos viriam a dar o título a dois filmes – um em 1990 e outro em 2012. A presente tradução foi efectuada a partir do texto original em Hindi. Para a revisão da mesma, contei com a inestimável ajuda do professor Shiv Kumar Singh (Universidade de Lisboa), a quem deixo, desde já, o meu agradecimento.

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O trilho de fogo

Um poema de Harivansh Rai Bachchan
Tradução do Hindi por André Pinto Teixeira
Revisão por Shiv Kumar Singh

Que se ergam as árvores esplendorosas.
Que sejam densas, enormes deveras;
Mas não peças por um momento de sombra,
Não peças! Não peças: não peças.
Percorre o trilho de fogo. O trilho de fogo: o trilho de fogo!

Não te irás cansar;
não irás parar
nem te virarás  para trás.
Promete-o! Promete-o… promete-o.
Percorre o trilho de fogo! O trilho de fogo… o trilho de fogo.

A vista é sublime:
marcha um homem
em sangue, suor e lágrimas
ensopado, ensopado, ensopado,
percorrendo o trilho de fogo. O trilho de fogo… o trilho de fogo!

अग्निपथ

हरिवंश राय बच्चन

वृक्ष हों भले खड़े,
हों घने, हों बड़े,
एक पत्र छाँह भी
मांग मत! मांग मत! मांग मत!
अग्निपथ! अग्निपथ! अग्निपथ!

तू न थकेगा कभी,
तू न थमेगा कभी,
तू न मुड़ेगा कभी,
कर शपथ! कर शपथ! कर शपथ!
अग्निपथ! अग्निपथ! अग्निपथ!

यह महान दृश्य है,
चल रहा मनुष्य है,
अश्रु, स्वेद, रक्त से
लथ-पथ, लथ-पथ, लथ-पथ,
अग्निपथ! अग्निपथ! अग्निपथ!

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Cartaz do filme “Agneepath” (‘O trilho de fogo), de 1990, realizdo por Mukul S. Anand.