A proposta da Virtude

Centenas de metros debaixo do solo, a Virtude e a Razão aguardavam pacientemente pelo despertar da Aurora.

A espera fora longa.

Séculos mais tarde, Aurora abriu efectivamente os olhos, ainda que a muito custo.

“Onde estou?” foi o seu primeiro pensamento, o primeiro de todos nós.

Doíam-lhe as costas até ao osso. Por pouco não lançou um gemido sofrido enquanto se erguia; valeu-lhe a compostura em lume brando.

Quando Aurora se susteve sobre os próprios pés, hirta por fim, viu-se subitamente na presença pálida de Razão, a sua fiel discípula, e Virtude, a exilada.

Os seus semblantes insinuavam inquietação.

– Quase perdera a esperança – confessou a Virtude, monocórdica.

Apercebendo-se do palor doentio da Razão, Aurora exibiu a dentição veemente e volveu:

– O que é que fizeste à Razão?

A Virtude manteve-se em silêncio. Quando os segundos se começaram a tornar incómodos, assegurou:

– Está tudo bem. Acalmai-vos.

– Não é o que parece – revidou a Aurora, ferina. As suas veias cresciam-lhe nas têmporas, quais tubérculos nodosos.

Fraquejando, a Razão por pouco não desfaleceu, não fosse a acção rápida da Virtude, que a susteve nos seus braços peganhentos. Tal não foi o seu espanto quando a Virtude lhe colocou a mão ascética sobre o peito desregulado, inundando-a com a sua própria personalidade, a sua biografia pessoal em forma de ácido.

– Tem calma, Aurora. Já me sinto melhor – asseverou a Razão, segurando a mão da Aurora com delicadeza.

A Aurora evitou o olhar sincero da Razão e, dividindo a reprovação entre a escuridão e a Virtude, murmurou:

– Melhor agora, pior amanhã. Nunca sairemos deste limbo.

– Seja mais optimista, não seja como eu – instou a Virtude, porém, prontamente censurada pela Aurora tempestiva:

– O que queres de nós?

– Nada de especial. Muito pouco, na verdade. Não vos forçarei a aceitardes o meu pedido nem prevejo represálias caso decidais nesse sentido. Digamos que vos faço uma proposta.

Aurora engoliu em seco, imóvel. Não era óbvio que a sua ausência de movimento tivesse alguma implicação semântica. De qualquer modo, a Virtude optou por interpretar a situação ao seu critério, aproveitando a deixa para prosseguir:  

– A minha missão de vida é tão somente uma: o fim da hipocrisia. Desde os primórdios que têm sido cometidas as mais gritantes injustiças, os crimes mais hediondos, deturpações insidiosas de tudo o que há de bom na natureza. Mas, quando confrontado com o seu longo currículo de perfídia, o mundo encolhe os ombros. Às vezes, pavoneia-se rua afora com os seus pecados estampados nas vestes. Porém, as trevas não tiram folga.

– O que é que eu tenho a ver com isso? – Indagou a Aurora.

– Tanto que ver quanto desejardes – devolveu a Virtude. – A Razão está fraca, há muito que o mundo não vê o sol nascer. Tendes em vossas mãos uma oportunidade de ouro para reverter a situação.

A Aurora pediu a atenção da Razão com o suor. Milénios de amizade dotavam-nas do talento de confidenciar sem palavras. Comunicavam pelo pólen que se lhes evadia dos poros.

– Aceito a proposta. Mas terás de fazer-me um favor em troca.

– Desde que esteja ao meu alcance.

Com um sorriso mordaz nos lábios, ordenou a Aurora:

– Abre a porta às crianças.

A Virtude escutou o pedido com vincada atenção e, por fim, acedeu.

–Persististes em bater, abrir-se-vos-á. A vossa causa é nobre. Mas cuidado com o apego.

Trocadas as últimas cortesias, a Virtude esfumou-se. Já Aurora e a Razão estugaram o passo até à boca da caverna.

Ao olhar destreinado, o oceano imenso parecia tímido, acariciando-lhes os rostos com salpicos húmidos na penumbra.

A Razão seguiu à frente, conduzindo a Aurora por um estreito corredor pedregoso e alagado de espuma e algas. Se a sua memória não lhe falhasse, o Remorso frequentava aquela zona.

– Já cá tinhas estado antes, Aurora?

– Já.

– E que tal?

– Não vale a pena.

As suas auras pintaram-se de carmesim.

Ainda não estavam absolutamente convictas da promessa que acabavam de fazer ou das suas reais implicações.

– Temos mesmo de interferir? – questionou a Razão.

– O meu instinto diz que não, o meu fígado diz que sim. Nada se resolve sozinho, e de vez em quando é a nossa vez de nascer.

– Talvez tenhas razão – admitiu Razão, mordiscando o lábio inferior. – E se falharmos?

Aurora estreitou-a pelos braços e sussurrou:

– Se falharmos, falhámos.

André Pinto Teixeira
07.06.2022

Correggio (1531), Allegoria della Virtù

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